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ReportagemHistória AMEAÇADAViver Brasil visitou congonhas e ouro preto e revela a fragilidade que existe na política de preservação do patrimônio nas cidades históricas de Minas
Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Bruno Cantini
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Número: Quase 35 mil bens culturais são protegidos somente em Minas Gerais Atualmente, quando o assunto é preservação, União, estados e municípios têm a obrigação de zelar pelo patrimônio. A questão, na opinião do professor de gestão em políticas públicas do IDS/FGV, Frederico Lustosa, é que essa tríplice competência em vez de contribuir, faz com que se diluam as responsabilidades. “Em geral a atuação mais presente tem sido da União, que não tem estrutura nem capilaridade, nem recursos para estar em todos os sítios históricos do país. Por isso, é muito importante a ação dos municípios que estão ainda tímidos. Pela proximidade dos sítios históricos, de onde os problemas surgem, a ação das prefeituras deveria ser mais rápida”, afirma. Há quase 300 anos, Congonhas convive com algumas das obras mais importantes do acervo brasileiro. Muito já foi e continua sendo restaurado. Pois somente há cerca de quatro anos foi criada a Diretoria de Patrimônio Histórico de Congonhas. Seu diretor, Maurício Geraldo Vieira, fala em grandes desafios para a restauração e conservação de todo o patrimônio da cidade. Calcula que entre os investimentos dos últimos anos e dos próximos, o município receberá 27 milhões de reais. A dificuldade, segundo ele, é que alguns trabalhos estão sendo feitos para recuperações urgentes, como o do forro que pode desabar; de obras importantes ameaçadas por cupins; de projetos de drenagem nos entornos das obras. |
“Há patrimônio que nunca havia passado por intervenção”, diz. Apesar da repercussão causada pelo incêndio em Congonhas, Vieira diz que o acidente não chegou a assustar. Em plena madrugada, já passava das 3h, uma pessoa deu o alarme para o fogo. Poderia ter sido pior se ninguém tivesse acordado. A brigada de incêndios mais próxima fica na cidade de Conselheiro Lafaiete. A maioria dos patrimônios da cidade não tem projeto de prevenção contra incêndio e pânico. O diretor reconhece a fragilidade. “Esse é um assunto que já estamos debatendo para solicitar projetos de prevenção.” Ouro Preto passou por um incêndio de grandes proporções em 2003. Com 22 km2 de área tombada, o plano de segurança da cidade inclui a obrigatoriedade, desde 2006, de equipamentos contra incêndios em comércios, repúblicas, restaurantes. “Nosso objetivo é que esse plano funcione para que não precisemos combater incêndios”, afirma o secretário municipal de Patrimônio Histórico e Desenvolvimento Urbano, Gabriel Simões Gobbi. Para uma cidade que recebe mais de 300 mil turistas anualmente e tem população de 70 mil habitantes, os desafios são ainda maiores. Impedir o crescimento urbano desordenado, o tráfego que pode abalar o sítio histórico e a proliferação de construções irregulares pesam tanto quanto conciliar as novas tecnologias com o patrimônio. |
“Temos que nos lembrar que não vivemos em uma cidade-museu, mas, sim, em uma cidade-viva. A evolução urbana nos desafia a criar condições e adaptações para que ela possa crescer sem interferir de forma negativa em seu patrimônio”, afirma Gobbi. É um crescimento que passa por encantar quem está rotineiramente acostumado a olhar o patrimônio, na opinião da presidente da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), Ana Pacheco. “A preservação e conservação do patrimônio é um assunto complexo e de difícil manuseio. É preciso sensibilizar a todos do cuidado com ele para manter nossa memória”,diz.
Essa sensibilização passa por projetos como o Sentidos Urbanos, da Faop, que convida os moradores a conhecer Ouro Preto pelos sentidos do tato, olfato, visão e audição. Ao andar de costas, com os olhos tapados, percebendo lugares por onde passa todos os dias, o participante percebe uma nova cidade. “A iniciativa nos permitiu sensibilizar a comunidade ouro-pretana para a preservação patrimonial, a valorização dos bens utilizados por ela no seu dia a dia, intensificando a máxima de que só cuidamos daquilo que conhecemos e gostamos”, afirma. |
É uma das iniciativas que podem contribuir para a mudança de cultura da sociedade quanto ao seu patrimônio. Para o coordenador da promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Histórico, Cultural e Turístico de Minas, Marcos Paulo de Souza Miranda, um dos grandes problemas da sociedade é compreender o patrimônio cultural como uma herança que foi deixada por nossos ancestrais e que é essencial para a preservação da identidade “Essa apropriação do patrimônio pela coletividade é fundamental, pois o cidadão é sempre o melhor e mais qualificado defensor. Em algumas cidades, esse sentimento é muito forte, o que facilita nosso trabalho. Noutras, a destruição de casarões e a sua venda para lojas que comercializam materiais de demolição é visto como algo comum”, diz Miranda. |
Morador do distrito de Alto Maranhão, onde se situa a igreja de Nossa Senhora da Ajuda, de 1746, o coordenador do Conselho Comunitário Pastoral, Paulo Pereira Pinto, é um incansável defensor do patrimônio. Ele e outros frequentadores da igreja não cruzaram o braço quando viram a situação de penúria do patrimônio, tomado por cupins, com o telhado a ponto de cair e com altares e paredes em perigo. Mobilizou autoridades e a comunidade para a preservação. É ele que abre e fecha o espaço para que os restauradores possam trabalhar nas obras da igreja. “A surpresa foi quando descobrimos, na restauração do forro da igreja, que há uma pintura possivelmente de Mestre Athayde”, conta. A comunidade de Alto Maranhão está tão sensibilizada pela reforma que os moradores visitam as obras na expectativa do resultado da restauração da igreja. “Estamos recuperando coisas que nem a população mais antiga sabia que existia. Tenho um tio de 97 anos que nunca ouviu falar nessa pintura que foi descoberta”, afirma o conselheiro comunitário. O escultor e pesquisador congonhense Luciomar Sebastião de Jesus, um dos maiores especialistas em Aleijadinho do estado, diz que essa preservação do patrimônio histórico passa pelo sentido de identidade nacional, por isso sua importância para os moradores dessas cidades. “É possível contar toda a história por meio desse patrimônio”, afirma. O sentimento de encantamento traduzido por Luciomar e Paulo Pereira é o que move instituições como o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) a investir na educação patrimonial. “É ela que dimensionará para a população a importância, fazendo com que os moradores tenham consciência de seu patrimônio”, afirma o diretor de Conservação e Restauração do Órgão, Renato César de Souza. É por meio dessa conscientização, acredita Souza, que o morador se apropriará do bem histórico, criando valores e cultura necessários à preservação do patrimônio. |