Quarta, 23 de Maio de 2012
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Lazer

Caminho abençoado

As mineiras Sandra Lanna e Cláudia Innecco andaram 310 km para Santiago de Compostela e a Viver Brasil pegou carona

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Divulgação


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Vida são vias. Vai-e-vem, percorre, não para, anda por todos os lados. Corre, embrenha-se pelos caminhos físicos, abertos neste largo planeta redondo, e os da ação, das ideias na vastidão de possibilidades, pensamentos. Cruzam-se, andam juntos, um leva ao outro, à reflexão nas passadas dos pés, costume dos antigos que cortavam o mundo à procura da terra santa, da sabedoria, do sentido da existência, de milagres, do perdão. Vão-se séculos, anos que há peregrinos aqui, lá e no mais afamado deles: o de Santiago de Compostela, no noroeste da Espanha. São 1.200 anos que andarilhos percorrem os caminhos desde que foram encontrados no século 9 os restos mortais atribuídos a são Tiago, um dos 12 apóstolos de Cristo. Arrefeceram depois de 1400, voltaram a aparecer no século passado, popularizam-se e mais ainda neste ano, quando o dia do santo caiu num domingo, o da indulgência dos pecados, e para lá foram milhares de pessoas, a rainha Sofia, o rei Juan Carlos, as mineiras Sandra Lanna e Cláudia Naves Innecco.

Pegamos carona com elas, no meio dessa multidão, para mostrar os 310 quilômetros percorridos de subidas custosas, ora planos, arborizados, secos, sempre com suas sombras à frente, até a catedral de Santiago de Compostela. Foram duas horas na fila para passar pela porta do perdão, 14 dias no caminho, começado em Léon. Abençoado lá, na capela do mosteiro das freiras, junto com outros cerca de 170 peregrinos de 17 nacionalidades, na mesma di- reção, sem dificuldades de diálogo. O caminho à frente, mochila de nove quilos nas costas, com duas trocas de roupa, e comunicação aberta com o mundo do lado de cá do continente, com diários via internet.


“Começamos a caminhar às 7h. Até as 11h foi tranquilo, temperatura boa, passamos em pequenos vilarejos. Depois foi uma loucura, sol, muito calor, nenhuma árvore. Andamos mais ou menos 26 quilômetros em 7 horas." Sandra Lanna

As dificuldades do primeiro dia, o começo de tudo, o cansaço, as bolhas nos pés nessa empreitada, planejada há três anos, depois que a empresária Sandra percorreu a trilha para Machu Picchu e quis mais estrada pela frente. Convenceu a educadora Cláudia, que sempre gostou de caminhar, de aventuras, mas não é ligada a questões místicas. Foi para exercitar-se.

“Quando ando, a minha sombra vai o tempo todo na minha frente. É como se eu estivesse me olhando no espelho. Dá para pensar muito. O primeiro dia foi tenso, pensei que não iria aguentar.” Cláudia Innecco

Aguentou, continuou a percor- rer, mudou de ideia, diz que nunca rezou tanto neste caminho próprio para introspecção e de paisagens, povos diferentes a dar passagem a dezenas de caminhantes. Jovens, adultos, no mês de férias na Europa, a povoar as trilhas marcadas com setas amarelas, pisadas há 12 séculos.

Pereginos: centenas de jovens e adultos no caminho
Pereginos: centenas de jovens e adultos no caminho

“Estamos num lugar que é como se fosse uma cidade fantasma, casas destruídas. Só tem quatro albergues, à altitude de 1.900 metros do nível do mar. Gastamos 9 horas de caminhada para chegar aqui, estava muito quente e foi só subida. Mas o lugar é lindo.” Cláudia Innecco

O lugarejo aí é Foncebadón, de três casas de pedra. Quase deserta, se não fossem os peregrinos; fria, num dos cantos do caminho para Santiago. Perto há a cruz de ferro, um dos monumentos mais antigos, onde as pessoas deixam pedras.

“Não sei o significado, mas para mim foi como se eu tirasse um peso. Estou leve, adorei. Continuamos a caminhada, muito vento. Passamos em vários povoados, depois começamos a descer. Foi um horror para os joelhos e dedos. Quase 8 horas de descida e chegamos a Molinaseca, onde havia piscinas naturais.” Cláudia Innecco

O caminho não se faz só de subi das, descidas. Há florestas de carvahos, campos, matas de eucaliptos, videiras, bodegas de vinho, igrejas. Quase os mesmos peregrinos de cada dia, encontrados nos albergues, hotéis, restaurantes. Conhecidos por mancarem.

Sandra Lanna: setas indicam aonde ir
Sandra Lanna: setas indicam aonde ir

“O tempo aqui é enorme. Vocês nem imaginam como custa a passar. Temos encontrado com alguns brasileiros, é uma delícia, total alegria. Cada dia estou mais tranquila, a expectativa do desconhecido acabou.” Cláudia Innecco

Mas o tempo passa, o caminho chega ao final. Não tão cansativo como no início e lá estavam as mineiras em Santiago de Compostela, capital da província da Galícia, no marco zero, um dia antes de 25 de julho, o de são Tiago. A cumprir rituais, a dividir com a multidão a entrada pela porta da indulgência, a queimar as roupas a 90 km dali, em Finisterra, a voltar para o lado de cá perdoadas, a seguir suas vidas em outras vias. “Esqueci até a senha do computador”, diz a educadora. “Fiquei satisfeita comigo, reconheci que sou capaz de fazer qualquer projeto”, afirma a empresária. Há mais estradas pela frente.


  •   310 km, percorridos em 14 dias
  • caminharam por dia em média 22km
  • 170 peregrinos, de 17 países participaram, junto com as duas, em julho, da benção na saída em Léon
  • O caminho é feito desde o século 9, quando foi descoberta na Galícia a tumba atribuída a são Tiago
Galeria de Fotos


 
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