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Especial Trânsito
A cada curva, uma cruz
A cada mês, 7 mortos e 33 feridos em média somente no trecho de 100 km entre BH e João monlevade, na BR-381
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela
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Vive-se e morre, como se fosse natural, neste tráfego pesado, veloz, intenso de 100 mil a 150 mil carros por dia, nas 260 curvas, pontes estreitas. Na rodovia de mais de 50 anos, desatualizada na aderência de veículos potentes e feroz na contabilidade de acidentes. Por que isto? Vamos embarcar nesse corre-corre, percorrer o trecho numa segunda-feira, logo num dos dias mais tranquilos da semana, mas nem por isso livre de acidentes. Começar o caminho, contar 55 veículos em um minuto no sentido contrário ao nosso, cair para 31, 34, voltar a subir, ver restos de parachoques, pedaços de fuselagem a denunciar que o nome de estrada da morte está cada dia mais verdadeiro e tendência a reluzir o letreiro à espera da tão prometida duplicação. Que não vem, vêm os acidentes, que matam nove de uma mesma família, atravancam a estrada aberta ao pé da serra, antes rota de burros, hoje do transporte de minérios, de cargas, de gente.
“É simplesmente intolerável”, diz o empresário Fernando Caetano Fonseca, de Caeté, passageiro frequente na 381, onde perdeu amigos, é integrante do movimento Duplicação Já e da ong SOS Rodovias Federais. Acredita que chegou ao limite, o fim da linha desta estrada curva, que levou para a vala o carro branco, placa AQD 8912 de Curitiba, durante nosso trajeto perto de Nova União. “Não sei o que aconteceu”, informa o vigilante Wender Geraldo Melo Carneiro, à espera do reboque. O motorista havia ido embora, nada grave neste acidente, que não entra nas estatísticas da Polícia Rodoviária Federal. Isso é comum. “Aqui já morreu muita gente”, lembra. Mais um, dois, três adicionados aos números e por lá ficam, esquecidos, mas na memória das famílias, de quem trabalha com ambulâncias, guinchos por esta estrada e sempre tem o que fazer, ver, emocionar-se.
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Número
100 mortes
foram registradas entre os km 435 a 440,
perto de Caeté,
desde que a estrada foi construída
Em 60 dias, Fernando Ferreira Martins já cansou de tanta desgraça ao dirigir o reboque por essas bandas. “Não tem dia sem acidente. O pior foi quando encontrei um conhecido preso nas ferragens. A gente tentando retirá-lo, mas não sobreviveu”, diz ele, que removia o carro branco da valeta. A vida prossegue e já estávamos em direção a João Monlevade quando outro carro caiu também na valeta à nossa frente. A poeira, o Voyage virado, é mais um fora das estatísticas, que registram a média de 120 acidentes por mês nos 100 quilômetros entre Belo Horizonte e João Monlevade. Neste trecho, feito pela reportagem em duas horas por asfalto arranhado, marcado, de pontes estreitas, rampas acentuadas, nada condizentes com o fluxo de carros potentes, carretas pesadas. BR construída na década de 1950, época de inauguração da Usiminas em Coronel Fabriciano, de caminhões de quatro toneladas. “Em que os postos de gasolina abasteciam de um a dois carros por dia. Hoje é por segundo”, diz Fernando Caetano Fonseca.
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Cruz na 381: sinalização das mortes |
Número
90%
das mortes
são de colisões frontais
Aumentou o fluxo, a velocidade dos veículos, o peso dos caminhões. “A única mudança nestes anos foi a construção da terceira pista. A rodovia tem planta ultrapassada, inadequada”, diz o engenheiro civil Ismael Dias. “Se os carros forem à velocidade diretriz de 60 km por hora haverá congestionamento de BH a João Monlevade.” É o que não se vê durante o nosso trajeto: os veículos andam a velocidades bem maiores quando não há filas para ultrapassagens nas estreitas vias. Tão perto das moradias, que quase invadem as pistas e têm veículos como vizinhos constantes nos seus quintais. A dona de casa Carmita Moreira de Oliveira dorme, cuida da horta, vive com eles ao lado. Só barulhentos, inofensivos quando não viram nas pedras que protegem sua casa construída irregularmente. “Já vi gente morrer aqui.”
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Estrada perigosa: trajeto ultrapassado, tráfego intenso provocam mais acidentes, como o do Voyage |
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Mora lá, município de Nova União, há mais de seis anos com o marido Joaquim de Almeida e os seis filhos. Dorme, mas sempre atenta ao barulho da temida estrada. Cerca a casa, vigia os pequenos Marcos Abílio, 3 anos, e Gisele Evelyn, de 2, para não brincarem na BR–381. “Os desastres são constantes. Os carros quase entram nas nossas casas. Parece que estão piores”, reforça Terezinha de Brito Froes, moradora na beira da estrada há 12 anos. Olheira constante, vigilante do fluxo rápido, intenso nesse trecho até Belo Horizonte, o mais perigoso, com 875 desastres registrados em 2008. Que não para, cresce com o aumento de carros. “Não é só imprudência dos motoristas. A maior causa é a estrada. É só ver que depois da duplicação do trecho da 381 para São Paulo os acidentes diminuíram”, argumenta Fernando Fonseca. Mas não só isto. Especialistas acreditam que ela precisa, além de alargada, ser feita de novo, começar do zero, sair da rota dos burros.
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Joaquim de Almeida com a família: rodovia no quintal da casa |
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O projeto de duplicação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) aponta para isto. Serão eliminadas as curvas perigosas, atenuadas as rampas, construídos viadutos, túneis e pontes de Belo Horizonte até Governador Valadares, o fim e o início da BR–381. A partida das obras está prevista para o primeiro semestre de 2011 e término em quatro anos. Enquanto isto, redutores de velocidade serão instalados no trajeto para frear as mortes, à espera que a nova rodovia seja menos violenta. Estanque essa guerra silenciosa que tira a vida de tantas pessoas.
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Nova estrada
Confira como vai ser a duplicação
- Serão construídas 150 pontes, viadutos, túneis e a variante de 45 km entre São Gonçalo do Rio Abaixo e Nova Era
- Curvas perigosas vão ser eliminadas e atenuadas rampas. A obra deve começar no primeiro semestre do próximo ano e ficar pronta em 2014
- 2,5 bilhões de reais serão investidos
Fonte: DNIT
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