Quarta, 23 de Maio de 2012
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Dez Perguntas

Rodrigo Godoy

Especialista em gestão esportiva fala de como as equipes brasileiras de futebol deixam de faturar graças a uma gestão ineficiente e sem visão

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Bruno Cantini


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O futebol inglês, nos anos 80, foi conhecido pela violência e decadência de resultados: em 1989, num jogo de final entre o Nottinghan Forrest e o Liverpool, cerca de 5 mil torcedores sem ingresso forçaram a entrada no já lotado estádio. Os invasores esmagaram e mataram 96 pessoas e deixaram 200 feridos. Em 1985, num jogo entre Lincoln e Bradford, um incêndio tomou conta das arquibancadas, matou 56 e feriu novamente 200. Estes fatos mudaram o futebol inglês e nos anos 2000, a Premier League, o Brasileirão de lá, destaca-se por reunir o maior faturamento entre os campeonatos nacionais do mundo (2,5 bilhões de euros) os maiores índices de audiência e o maior número de estrelas. Já no Brasil, que tem o esporte como paixão nacional e 130 milhões de interessados no assunto, os resultados não são tão bons assim: de acordo com o consultor do INDG e especialista em Gestão Esportiva pela University of Liverpool, Rodrigo Godoy, a frequência do torcedor ao estádio tem diminuído consideravelmente desde a década de 80. Durante o último Campeonato Brasileiro, em 2009, a taxa de ocupação foi de apenas 40%. “A principal liga nacional fatura 25% do que ganha o campeonato inglês.” Alie-se aí o foco dos nossos clubes em formar jogadores para vender como forma única de gerar receita a estádios obsoletos, e evidencia-se cenário de precariedade. Na opinião de Godoy, tudo isso não é nada menos que gestão esportiva ineficiente, quando não de ausência total. Resultado: prejuízos e times no vermelho. O caso mais recente é o do Vasco da Gama, com dívidas superiores a 300 milhões de reais. “Apesar do Vasco ter conseguido retornar à primeira divisão, encontra dificuldades para competir em âmbito nacional”, diz.

O que é gestão esportiva?
É encarar o futebol como opção de entretenimento de qualidade, capaz de gerar receita por meio da exploração das várias fontes que se relacionam com o torcedor, afinal, futebol é fidelidade. Do estaciona­mento e alimentação den­tro dos estádios, bilheteria, merchandising, venda de artigos e patrocínio. Ao mesmo tempo esta opção de lazer deve ser segura e confortável para quem está no estádio. É também criar produtos diferentes para públicos idem. Numa analogia: para um fã de mú­­sica, há desde o CD, o show e este mesmo show num camarote vip.

Você está falando em elitização de um esporte que, no Brasil, é de massa?
Sem dúvida. Mas a gestão esportiva deve ser hábil o bastante para gerar o produto certo para esse grande público, que abrange várias camadas sociais. Há quem possa pagar ingresso de 15 reais, mas também 30 e 1.500 reais.

Em que ponto o Brasil está nesta gestão, numa escala de 0 a 10?
Depende. Se falamos em seleção brasileira ou em clubes. Ricardo Teixeira está há 20 anos como gestor da seleção e trouxe os seguintes resultados: dois títulos mundiais, pelo menos dois da Copa América e três da Copa das Confederações  e todos os títulos da seleção Sub-17. Sem falar da realização da Copa de 2014 no país. Em todas as competições, o Brasil é sempre favorito, o que atrai público. Pra mim, não falta nada.

Quais pontos altos desta gestão esportiva?
Um deles é a gestão de patrocinadores juntamente à capacidade comercial: realizar partidas lucrativas dentro e fora do Brasil. Todas elas com alto percentual de ocupação de estádios devido, além da paixão do torcedor, à promoção de uma partida como espetáculo diferenciado, seguro e confortável para o torcedor.

E quais os problemas na gestão esportiva dos times brasileiros?
Não dou nota zero porque somos destaque internacional e referência em desempenho esportivo e técnica. Mas há 10, 20 anos, a única linha de geração de receita é a formação de jogadores. Inclusive somos conhecidos na Europa e outros continentes como fábrica de talentos. Nesse aspecto, somos excelentes. No entanto, é aí que o futebol é negligenciado como entretenimento. Os clientes dos times são os torcedores e não os estrangeiros que vão comprar nossas estrelas, tiradas daqui em vez de serem devidamente trabalhadas quando estão melhor preparadas para brilhar e levar pessoas ao estádio. O déficit de ocupação de nossos estádios é, em geral, de 60%. É preocupante o desinteresse do torcedor em ir ao estádio.

A que você atribui ocupação tão fraca?
Sem dúvida começou no fim da década de 80 e tem a ver com o declínio da segurança pública. Também os clubes precisam se preocupar com a segurança do torcedor: desde sua chegada ao estádio até a volta para casa. No Brasil, grande parte do público qualificado e que pode pagar um ingresso está em casa vendo TV por medo. 

Falando em segurança, o que a experiência inglesa pode ensinar?
Que os clubes, como promotores de eventos, são co-responsáveis e devem buscar medidas que estimulem condutas adequadas e punam as inadequadas.

Como fazer isto?
Remodelar estádios, com assentos marcados inibe tumultos. Não mais a venda de ingressos para assistir partidas em pé. Restrição ao álcool: só se bebe dentro do estádio onde não se possa ver o jogo. Identificação de todo torcedor que entra e monitoramento. Aumento no número de seguranças e, finalmente, punição severa para baderneiros, proibindo sua ida aos estádios.

Que impactos a gestão esportiva pode trazer para os times brasileiros?
É um ciclo virtuoso. Quanto mais o torcedor desembolsa, mais receita cria-se para o clube. Com mais receitas, pagam-se melhores salários e atraem-se as estrelas. Time estrelado é time campeão, o que atrai patrocínio. Volto ao torcedor, que tem um time campeão e sente-se satisfeito, volta ao estádio e recomeça o ciclo. Um exemplo é o Real Madri, que a partir da década de 90 passou a investir em grandes jogadores e, consequentemente, atrair patrocinadores do porte da Boeing e Audi. 

Que impactos a Copa de 2014 vai proporcionar ao Brasil?
Uma pesquisa mostrou que o retorno para a Alemanha (2006), que considero a Copa mais bem sucedida financeiramente, trouxe custo-benefício de 10 dólares retornados para cada 1 investido. Em nosso caso, retorno imediato em turismo e estrutura hoteleira para recepcionar visitantes estrangeiros, imprensa internacional e delegações, até o legado de infraestrutura. Os investimentos diretos do governo, neste setor, serão da ordem de 7,4 bilhões de dólares com crescimento estimado de 2,17% do PIB. Esperamos receber 600 mil turistas estrangeiros. O Brasil estará exposto ao mundo como referência em belezas naturais e muitas de suas cidades se tornarão mais conhecidas como destino turístico. 


 
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