Aos 58 anos, José Lúcio Mendes já dedicou quase duas décadas de sua vida a uma causa genuinamente brasileira. Presidente do Centro Brasileiro de Referência da Cachaça, ele promove desde 1998 a Expocachaça, feira anual que atrai produtores e apreciadores da bebida. Em 2010, pela primeira vez, o evento tem dose extra. A primeira edição aconteceu no início de junho, no Expominas. A segunda – que ganhou nome de Expocachaça Dose Dupla – será realizada de 14 a 17 outubro, na Serraria Souza Pinto. Mendes comemora realizações, como a sofisticação da bebida, mais ainda há muito a conquistar no setor, que sofre com a informalidade e a alta tributação.
Por que decidiu envolver ações para valorização da cachaça?
Atuava como restauranter em 1992, quando percebi a pouca valorização da cachaça. A bebida era marginalizada, ligada a um produto de categoria inferior, com garrafas improvisadas. Em 1996, viajei para a França em missão técnica para conhecer o cenário da produção de vinho e champanhe. Queria dar status, valorizar a nossa bebida também.
E tem conseguido?
Em 1998, realizei a primeira Expocachaça. Nesses anos, chegamos a um nível de sofisticação do produto. Houve investimento nas embalagens, temos até a taça de cristal da cachaça. A bebida ganhou reconhecimento que atribuo muito à Expocachaça. Hoje temos confrarias da bebida, academias, cursos de análise sensorial e um superior de cachaça, em Salinas, único do país. Restaurantes sofisticados oferecem carta da bebida. Cresceu também o número de cachaçarias, já são 90 no Brasil.
Quais os principais obstáculos enfrentados pelo setor?
A cachaça é o terceiro destilado mais consumido do mundo. Além disso, 86% do consumo de destilado no Brasil é de cachaça. Embora seja reconhecida como bebida nacional e seja Patrimônio Cultural de Minas, ela sofre com a falta de investimentos públicos e privados. É um dos segmentos que tem uma das mais altas cargas tributárias. Temos 83% do preço do produto na prateleira de impostos. São 40 mil produtores de cachaça no Brasil, mas 85% deles trabalham na informalidade.
O que ainda é preciso ser feito?
Aí entra a responsabilidade das entidades ligados ao setor trabalharem de forma organizada. Estudar junto ao governo políticas para a formalização do segmento, criação de cooperativas, redução da carga tributária e facilitação do acesso dos pequenos produtores a créditos. O México, por exemplo, tem um setor muito mais organizado, onde governo e iniciativa privada sentam à mesma mesa para discutir as políticas para produção da tequila. O que nós queremos é exatamente isso.
Outros projetos para 2010?
Estou em fase da captação de patrocínios, via Lei Rouanet, para a publicação do livro Cachaça, O Espírito Brasileiro . O setor é carente de registros. Na obra, conto um pouco da história da cachaça e retrato personagens que contribuíram para valorização da bebida, como a artista plástica Lótus Lobo, que colecionadora de rótulos da década de 30 e 40, e o médico Paulo Monteiro, que tem mais de 9 mil rótulos. Foi um trabalho instigante de pesquisa e resgate cultural.