Nas últimas décadas, temos assistido a uma proliferação de notícias que vinculam a juventude bem-nascida ao cenário de crimes violentos de toda ordem: assaltos, tráfico de drogas, homicídios dolosos e culposos. Isso muda o cenário da violência antes atribuído às classes menos favorecidas como consequência de uma associação entre miséria e crime.
Estudantes universitários sequestram, matam e ainda decapitam suas vítimas. Jovem atropela e mata sem prestar socorro e, pior, corrompe a polícia com o apoio do próprio pai, que participa da barganha e da tentativa de dissimulação do crime. Grupos de jovens atacam empregada doméstica e ainda tentam delirantemente se justificar: “Achamos que fosse uma prostituta”. Esses fatos tão chocantes sendo testemunhados com certa banalização pela sociedade não estariam ganhando ares de normalidade, de naturalidade? O ato prolongado de ver a violência na mídia não estaria provocando uma perda de sensibilidade, uma indiferença social e política? Podemos constatar que da comoção ao esquecimento é um pulo.
A questão é difícil e complexa. Alguns teóricos consideram o sistema econômico disseminado pela globalização como algo que deixa o indivíduo muito só em sua performance, o que pode gerar tanto uma competição selvagem e exacerbada como também frustração, impotência, falta de sentido e de valores para viver. Além disso, as transformações da família contemporânea, principalmente a dissolução gradativa do nome-do-pai, são aspectos relevantes na composição desse cenário.
Em psicanálise, o nome-do-pai representa aquele que exerce a autoridade, que faz a lei valer, que coloca limites para os sujeitos. A função paterna é que possibilita à criança ser inserida nas leis da cultura e da linguagem, em direção ao vínculo social. E a família é considerada instância primária dessa socialização e da subjetivação, portanto, tem um papel fundamental na produção e na transmissão de valores, comportamentos e práticas que regem a vida social.
No entanto, o que se observa hoje é que, tanto nas famílias que mantêm o modelo tradicional quanto nas novas configurações familiares, há um enfraquecimento da função paterna. Existe uma com-fusão no estabelecimento de regras, de limites, ficando os papéis de pais e filhos muitas vezes indiferenciados. Além disso, na tentativa de cumprir as exigências do mercado de trabalho, pais e mães ficam a maior parte do tempo fora de casa e se veem obrigados a, de certa maneira, terceirizar a educação para babás, escolas e até mesmo para a televisão e a internet.
O exercício da autoridade, diferente do autoritarismo que é um abuso de poder, pressupõe que o respeito aos limites constituem-se em uma ética: a ética que implica responder pelos próprios atos. Mas parece que, com tantas transformações, a importância da figura de autoridade na formação de um indivíduo perdeu lugar para a compensação através da permissividade – o sujeito hoje sente que pode tudo.
A considerar pelos resultados que temos colhido hoje em dia, há que se repensar a educação. A partir da afirmação da ética, do respeito e do amor, vislumbramos a possibilidade de um certo refinamento, de uma lapidação na formação do caráter de um ser humano. Talvez nas relações entre pais e filhos, essa afirmação da ética tenha de vir primeiro.