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PsiqueO medo por trás do divãpsiquiatras, psicólogos e psicanalistas falam de como se portar diante de situações extremas onde pessoas agressivas extrapolam a relação médico/paciente
Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Victor Schwaner
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Não há dúvida de que este é um tema difícil de ser abordado e que, dependendo da revelação feita pelo psiquiatra, ele pode acabar se tornando alvo de novos riscos para o desempenho de sua profissão. Em razão disso, alguns profissionais entrevis- tados preferiram usar nomes fictícios para relatar suas histórias. É o caso de Marco Aurélio (*). Ele conta que na primeira semana de residência médica em um hospital psiquiátrico, ao entrar na enfermaria, recebeu um soco no rosto desferido por uma paciente em crise e que resultou na quebra de seus óculos. Marco Aurélio disse que, desde então, ficou mais atento. “Somos instruídos por nossos preceptores a atender urgências sentados de lado, com a cadeira de costas para a porta, caso seja necessária uma fuga estratégica. Isso já me salvou de algumas cadeiradas de pacientes agressivos”, assevera. O médico, porém, já passou por situações piores, tendo sido, inclusive, ameaçado de morte por um paciente e seus familiares, que queriam que ele fraudasse um laudo para obtenção de benefício previdenciário. “Foi uma situação delicada que me causou medo”, desabafa. O psiquiatra Paulo Henrique (*) teve mais sorte que o colega de profissão. Nunca foi ameaçado, entretanto, também já foi vítima de agressão por parte de paciente que queria ser internado a todo custo, mesmo sem haver indicação para tal. “Estava de plantão no hospital. O paciente se mostrou tranquilo durante toda a consulta e disse que queria ser internado para não conviver com a mãe. Diante da negativa, ele se levantou da cadeira e, subitamente, me deu uma gravata no pescoço, com toda a força. Fui solto com ajuda dos seguranças do hospital”, relata. Mesmo assim, o médico enfatiza que pacientes que agridem médicos são casos raríssimos. “Trabalho em serviço de urgência há oito anos, e isso só aconteceu uma vez.” Pessoas que sofrem de transtornos ligados ao grupo das psicoses, podem, eventualmente, cismar que estão sendo perseguidas. O algoz, nesse caso, pode ser qualquer um, até mesmo o psiquiatra. Foi o que aconteceu com o médico Antônio Augusto (*). “Certa vez, tive um paciente que começou a achar que eu o perseguia e, por isso, ele falava que queria me matar. Era uma crença fixa que nem mesmo o uso de medicamento foi capaz de resolver. Preferi passar o caso para outro colega. Quando o psiquiatra percebe que o paciente tem essa tendência, é necessário manter um vínculo terapêutico mais frouxo.” Antônio Augusto também já sofreu na pele as agruras decorrentes da profissão. Ele conta que trabalhava em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) – rede de serviços substitutivos criada pelo governo federal para, progressivamente, substituir os hospitais psiquiátricos – quando, de repente, recebeu um soco de um paciente. “Na ocasião, não me machuquei muito, pois caí dentro de um armário. A pessoa em questão sofria de esquizofrenia e também fazia uso de drogas, que potencializam os efeitos da doença mental.” Mas como fica a questão do sigilo médico quando o paciente oferece risco real de agressão ou ameaça à vida do médico ou de algum familiar ou amigo? Quem responde é o psiquiatra Javert Rodrigues. “Numa situação desta gravidade, não existe como manter de pé a relação médico-paciente, que é a condição básica, necessária e fundamental para que um tratamento possa desenrolar-se. O Código de Ética Médica diz ser direito do médico poder romper e não continuar o tratamento.” |