Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Esporte

Treino para a vida toda

A Viver Brasil foi saber como os três grandes clubes da capital mineira formam seus jogadores da base, menos na parte técnica e mais como ser humano

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Sérgio Amzalak


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Deveriam ser exemplo. Não só correr atrás da bola, fazer gols, defender, le- var seu time à vitória. Nos últimos tempos invadiram campo adverso, que nunca deveriam ser deles, copiados, admirados, idolatrados em terra de futebol: o das delegacias de polícia. Vagner Love apareceu em filmagem escoltado por homens armados em baile funk no subúrbio do Rio de Janeiro, Adriano responde a inquérito sobre suposta doação de dinheiro a traficantes. O goleiro Bruno Fernandes preso, acusado de participação no sumiço da modelo Eliza Samudio. O atacante Denis Marques, no final do mês passado, envolveu-se em acidente com sua possante caminhonete em Maceió, Alagoas, e a polícia afirma que estava embriagado. Aumentam, realçam as ocorrências fora do gramado. As penalidades nos limites do que deveriam ser de suas atuações, duras ou não, protestadas pela torcida, aclamadas pelos adversários não os param do lado de cá da vida dos normais. Estariam acima do bem e do mal, elevados a esse patamar pela fama, celebridade, dinheiro. Puxá-los à base, à grama desgastada de quem luta para subir na vida, à custa de esforço, baixar a bola, eis o grande jogo dos clubes daqui para frente. Até porque são eles os que mais perdem financeiramente com tudo isso. O contrato do Flamengo com o goleiro Bruno, comprado do fundo de investimentos MSI, ligado ao Corinthians, por 4 milhões de euros (9,2 milhões de reais), virou pó. Qual time com essa denúncia de crime bárbaro, mesmo não desvendado, vai querer ficar com ele, de imagem desgastada? São patrimônios dos clubes, que os enriquecem por longo período ou dão prejuízos imediatos. Fomos lá, às categorias de base dos times mineiros ver como formam seus quase 200 meninos, ensinam a honrar suas camisas dentro e extra-área dos gramados, e por onde passou o garoto Bruno Fernandes das Dores de Souza há seis anos.


Guilherme Silva: “Agora eu pulo da cama, não mato mais aula”
Guilherme Silva: “Agora eu pulo da cama, não mato mais aula”

 

Garantem que a disciplina é tudo. Talento, só, ofusca no apagar dos holofotes do estádio. “Se não cumprir as normas, os regulamentos, pode ser bom no campo, mas aqui não fica”, sentencia Maurílio Aurélio Passini, coordenador técnico da categoria de base do América. É preciso ir à escola em Santa Luzia, onde fica o centro de treinamento, não entrar de camiseta no refeitório, ter horário para usar computador. Bem no limite de suas casas, que não deixa fazer o que bem quer. Foi a preguiça de acordar cedo, de enfrentar o frio naquele canto da cidade, para ir ao colégio que qua- se expulsou o paulista Guilherme Rodrigues Alcântara da Silva, de Marília, de lá. Veio a advertência e ele teve de mudar. “Agora eu pulo cedo da cama, não mato mais aula”, afirma ele, que já jogou também na Portuguesa. Atém-se a ser bom atleta, driblar o sono, a preguiça e encarar as regras, ficar, conseguir vaga no profissional, como todos ali e em outros clubes.

Guilherme Oliveira: “Sempre quis ser jogador de futebol”
Guilherme Oliveira: “Sempre quis ser jogador de futebol”

O mineiro Guilherme Henrique Martins de Oliveira, de Timóteo, saltou do pré-infantil para o infantil, segue à risca o que se pede, estuda na 8a série, treina e só brinca de videogame no computador nos dias de folga. “Sempre quis ser jogador.” Não vai perder a chance de permanecer lá, a oportunidade de se mostrar em campo, ser disciplinado, entrar nesse mundo estrelado, mas sem tirar as chuteiras da grama. “Além de ser bom profissional, o clube se preocupa que a gente tenha caráter”, diz o capixaba Miguel Uliana Gonçalves, mais de dois anos e meio com a camisa americana. Prepara para fazer vestibular, na área de esporte, e ver as chances que terá no futebol e na vida.

Maurílio Passini: “Tenho certeza de que não haverá ladrão”
Maurílio Passini: “Tenho certeza de que não haverá ladrão”

O jogo só começou, ainda há muito pela frente. Os dirigentes acreditam que deram o ponta-pé. “Entre os 60 meninos que vivem aqui, tenho certeza de que não haverá ladrão, traficante, pela maneira como a gente cuida deles”, afirma Passini. Espera-se, torce por isso lá, nos outros clubes, pelo exemplo e rendimento que vem desses garotos bem preparados, treinados. Está aí o caso do lateral-direito Danilo, menino do América, transferido para o Santos por 2 milhões de reais, referentes à multa rescisória, estabelecida pela lei. Valor de prêmio lotérico aos normais, comum dentro do campo. Fora o direito de 5% se ele for para time estrangeiro e, caso aprovada alteração na Lei Pelé, até 5% em mudanças pelos nacionais.

Todos ganham. “É investimento em longo prazo. É como um filho, bem for- mado ele dá retorno”, diz Roger Galvão, diretor de futebol de base do Cruzeiro. Cuida com limites de pai, extralinha do campo, dos 120 garotos. Multa os que atrasam aos treinos, faltam à escola, atendam telefone no refeitório, desrespeitam funcionários. Cada indisciplina, uma sentença, que varia de 10 a 50 reais. Dinheiro guardado na caixinha e depois usado em melhorias para eles próprios. “A gente tenta moldá-los para que cheguem bem ao profissional. Se não tiverem conduta social, disciplinar, bom rendimento escolar, não fica aqui.” Há fila para entrar: dos 19 mil interessados, apontados por olheiros, só 17 são escolhidos por ano. Túnel estreito, para poucos, mas que requerem cuidados para não saírem da linha. “Meu filho já era disciplinado, tem meta de ser jogador”, afirma José Geraldo Pereira Arsênio, pai de Caio, jogador do Cruzeiro há três anos e da seleção brasileira sub-14. Sabe o que quer, mas pensou em sair porque ia pouco à casa da família em Caxambu, no Sul de Minas. Conseguiu ir com mais frequência.

Roger Galvão: “Se não tiver conduta disciplinar, não fica”
Roger Galvão: “Se não tiver conduta disciplinar, não fica”

Vivem, estudam lá, têm ajuda psicológica, prevista em lei. Saem somente com autorização da diretoria e da família. “Sempre pensei em ser jogador, quero ir para a Europa”, fala Gabriel Dias, de Ipatinga, no Vale do Aço. “Lá dão mais valor ao jogador”, emenda Tiago Rodrigues, de Itatiaiuçu, da região Central, ele que jogou no Benfica, de Portugal. Desistiu e voltou ao Cruzeiro há sete meses. Seleção brasileira não ocupa o primeiro lugar de seus sonhos. Acham que na Europa vão ganhar mais dinheiro para ajudar a família, ter sucesso. Repete-se com os outros meninos, não há como mudar essa certeza pronta para eles, disseminada, infiltrada. O caso do goleiro Bruno? “O sucesso fez a cabeça dele”, avalia Gabriel Dias.

Tiago Rodrigues: dinheiro para ajudar a família
Tiago Rodrigues: dinheiro para ajudar a família

Bruno rejeitado pela categoria de base do Cruzeiro, aceito pelo Atlético, que não auto- rizou a entrada da reportagem na Cidade do Galo, em Vespasiano, nem entrevistas, e hoje mais profissionalizado como os outros, que investem nessa faixa. “A estrutura é boa, tem regras. Os meninos estudam em escola de Vespasiano”, informa Diego Junio Tavares, do Júnior, do lado de lá dos muros. Mas ele não frequenta colégio, parou de ir às aulas do ensino médio, em 2007. Agora, quer voltar. “A primeira coisa que tem que fazer é estudar. O futebol é uma carreira curta”, argumenta José Leonardo Tavares, pai de Diego. Mais encurtada ainda se houver jogadas maldosas, intencionadas ou não, na vida de cá, dos cidadãos normais sujeitos às leis. Se sentirem os melhores, acima do bem e do mal, se não honrarem a camisa fora dos gra- mados. Os dirigentes das categorias de base esperam que não. Torcem para ganhar este jogo.

DENTRO DA LEI

  • A Lei Pelé determina contrato com meninos de 16 anos, que não pode ser superior a cinco anos. O time passa a ter direitos sobre ele durante este período
  • Se for transferido para o exterior, o time formador receberá 5% a cada mudança de clube lá fora
  • Esta norma deve constar também de alteração da Lei Pelé, em tramitação no Congresso. Se for aprovada, os clubes formadores terão direito a até 5% de todas as transferências dentro do Brasil: 1% do valor a cada ano investido no jogador de 14 a 17 anose0,5%nosde18e19anos
  • A legislação determina que os clubes têm de dar assistência médica, odontológica, psicológica, seguro de vida, ajuda de custo para transporte. Reservar horário para colégio e exigir aproveitamento escolar
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