Quinta, 09 de Fevereiro de 2012
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Diversão

A Rua é de Praxe

Após o acidente que vitimou Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães, no Rio, fomos às ruas de Belo Horizonte saber onde os skatistas praticam o esporte na cidade. A conclusão foi a de que, por falta de locais adequados, o perigo no asfalto é iminente

Texto: Cláudia Rezende | Fotos: Pedro Vilela, Sergio Amzalak, SXC


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Para eles, a aventura é sobre uma pequena prancha apoiada por quatro rodinhas. Adrenalina é o que buscam a cada rampa que enfrentam, obstáculos que pulam ou ladeira que descem. E não tem lugar. Qualquer hora é hora de andar de skate, mesmo que o espaço precise ser dividido com carros, bicicletas e pedestres. Em Belo Horizonte, não são muitas opções oficiais para os praticantes do esporte. Isso faz com que parte deles opte pelas ruas, disputando espaços com carros, motos, bicicletas e pedestres. Há os que vão para as avenidas por gosto mesmo, por serem mais livre, como dizem. Mais livre, mas mais perigoso e propício a acidentes como o que matou Rafael Mascarenhas,  filho da atriz Cissa Guimarães, no dia 20 de julho, no Rio de Janeiro.


Cléber Bicho: “Acho rua muito perigoso. Você tem que disputar com carro”
Cléber Bicho: “Acho rua muito perigoso. Você tem que disputar com carro”

Não existe um cadastro completo das pistas de skate de Belo Horizonte. A Secretaria Municipal de 8
Esportes informou que não possui o levantamento porque, em muitos casos, elas são construídas em obras públicas e não são comunicadas. A Fundação de Parques Municipais possui uma lista, mas apenas das que estão dentro dos parques. São oito no total – duas na região Centro-Sul, duas na Nordeste, uma no Barreiro, uma em Venda Nova, uma na Norte e uma na Noroeste.

A do Parque das Mangabeiras, no Centro-Sul da cidade, é uma das mais novas e frequentadas da capital. Lá, encontra-se diversidade de skatistas – desde os pequeninos que vão com as mães até   dultos, passando por adolescentes. Um deles é Erik Jorge Rios Cruz, 13 anos, na pista com o amigo Andrews Bettcher. Os dois estavam devidamente equipados, com capacete, joelheiras e cotoveleiras, para atravessar as rampas e banks da pista, mas não é sempre assim.

Cleiber Alessandro, o Bin:  “A prática é baixa porque falta incentivo”
Cleiber Alessandro, o Bin: “A prática é baixa porque falta incentivo”

“Na rua, eu não ando com acessório (de segurança) de jeito nenhum”, revela Érik, que tenta justificar por quê. “Não sei explicar, mas não vou por nada.” O amigo também não gostava de usar o equipamento, mas mudou de ideia. “Eu uso desde que eu caí no asfalto e quase rachei a cabeça”, diz  Andrews. Ele também já passou por outra experiência ruim. “Uma vez o carro atropelou o meu pé quando eu estava remando com o skate. O motorista parou, mas eu não quis ir ao hospital. Doeu um pouco”, conta. Apesar dos riscos que sabem que correm, os dois adolescentes contam que gostam de andar na rua. “A pista aqui é muito longe da minha casa”, diz Érik, que mora na Pampulha. Para Andrews, que vive na região Noroeste, as pistas também ficam distantes. Ele conta que, para ir às áreas apropriadas, atravessa a avenida Pedro II remando, ou seja, levando o skate com um pé sobre ele e outro no asfalto, dando impulso. Na rua, dizem, qualquer lugar é bom para praticar o esporte.

Victor Lobo Miranda, 15 anos, que pratica há cerca de um ano diz que gosta mais da modalidade downhill, aquela em que os skatistas descem ladeiras. Na rua, os locais que mais gosta para andar são vias na serra do Rola Moça, avenida Bandeirantes e Alphaville (Nova Lima). “É perigoso, mas é só tomar cuidado. Os streeteiros não gostam muito de usar os equipamentos porque eles incomodam”, afirma. Quanto a acidentes com os aventureiros, não existe registro de número de casos na BHTrans nem na Polícia Militar.

Dalma Araújo, com o filho João: segurança
Dalma Araújo, com o filho João: segurança

É possível vê-los andando de skate nas principais avenidas, como Afonso Pena, Pedro II, Tereza Cristina, Nossa Senhora do Carmo – que, aliás, fica próxima de um reduto de skates por causa da pista particular na rua Grão Mogol, a Blunt – ou em praças. A preferida dos skatistas é a praça 7, principalmente à noite. A área é um dos pontos preferidos do skatista Flávio Gomes, 32 anos, o Truta NZ. Ele conta que vai sempre nas noites de terça e quinta-feira, depois que o comércio fecha. “Fico até mais ou menos meia-noite ou até a hora que eu aguentar.” Outra praça procurada pelos skatistas é a Hugo Werneck, na área hospitalar, região Leste da cidade.

Praticante do skate por amor, como diz, Flávio acredita que Belo Horizonte ainda é muito carente de espaços adequados. Ele já se envolveu em várias mobilizações para construção de áreas para os praticantes – uma delas foi a do parque das Mangabeiras. Hoje, defende a criação de pista embaixo do viaduto de Santa Tereza, na região central. “Deveria ter pelo menos umas quatro em cada regional da cidade. É até uma forma de lazer para a galera, de prevenção da criminalidade”, acredita. Para Flávio, a cidade está em alta com skate, com cerca de mil praticantes. Ele até organiza eventos, como o que vai ocorrer no dia 26 de setembro, o Campeonato de Bowl Jam Sessions Bank Mangabeiras, dentro do parque. 

Flávio Gomes em manobras radicais
Flávio Gomes em manobras radicais

Mesmo tendo poucas opções em Belo Horizonte para o skate – oito parques, avenidas e uma pista particular –, quem é veterano não abre mão de praticar em locais apropriados. É o caso de Cléber Estevam, 33 anos, o Cléber Bicho. Ele é profissional e anda de skate há 23 anos. “Acho rua muito perigoso. Você tem de disputar espaço com carro. Mas tem muita gente que prefere a rua. Geralmente, quem vai para a rua não gosta de usar os acessórios”.

Um dos locais preferidos de Cléber para a prática, além da pista que mantém em casa, é o bowl do Anchieta, que fica dentro do parque Julien Rien. A pista é adequada para a modalidade vertical, da qual ele participa, já que é possível fazer manobras de 90 graus. Também profissional, Cleiber Alessandro Silva, 37 anos, o Bin, lamenta a falta de incentivos no Brasil. “Apesar de ser esporte que está crescendo, a prática é baixa porque falta incentivo”, diz. Como praticante da modalidade vertical, ele costuma ir ao bowl do Anchieta, que, afirma, é o único espaço adequado para a categoria na cidade. Às vezes, anda na rua, mas não gosta muito por ser adequada para outra modalidade, o street. “Todas as ruas são boas para andar de skate. Nas planas, dá para fazer manobras.”

Apesar de ser o espaço voltado para uma categoria específica de skatismo, a rua é um lugar impensável para os filhos, na opinião das mães. Uma delas é a socióloga Dalma Veiga Araújo, que incentiva o filho João, 8 anos, na prática do esporte e o leva para andar no parque das Mangabeiras, sempre com os equipamentos de segurança. E na rua, você deixaria ele andar? Antes de a pergunta ser concluída, um não enfático. “Não deixaria. Ele mesmo não tem vontade de andar na rua. Deixei-o ver a reportagem sobre o acidente (que matou Rafael Mascarenhas). Acho perigoso”, diz. João demonstra não querer se arriscar na rua. “Passou no jornal o menino que foi atropelado”, diz.

MODALIDADES

STREET
- Surgiu entre o final da década de 1970 e começo de1980 nos Estados Unidos. Tem a maior quantidade de adeptos no mundo e no Brasil, com 95% dos praticantes. Consiste em praticar o skate em obstáculos que podem ser encontrados nas cidades, como bancos, corrimões, muretas, escadas, rampas de garagem e paredes com inclinação entre 30º e 80º. Também é praticado em skateparks (pistas de skate), onde existem rampas que simulam a arquitetura urbana

VERTICAL
- Praticada em pistas com no mínimo 3,5 m de altura, podendo ser de concreto ou madeira, em half pipes (meio tubo, com formato parecendo um U) ou bowls (bacia), havendo entre o coping (cano de ferro) e a parede em curva (transição) uma parede com vertical (90º, ou seja, reta). Conta com poucos adeptos pela necessidade de o praticante possuir experiência e alto nível técnico

BANKS
- Uma variação dos bowls, mas não possui vertical e tem altura geralmente de até 2,5 m. É uma das modalidades mais democráticas do skate, pois é praticada por adeptos de street, vertical, mini-ramp, longboard, downhill e por crianças, jovens e adultos

MINI-RAMP
- É uma variação dos half-pipes, mas não possui vertical e tem altura geralmente de até 2,5 m. Como o banks, é uma das modalidades mais democráticas do skate. Há quase duas décadas, é o segundo tipo de rampa mais construído no Brasil, perdendo apenas para as de street

FREESTYLE
- O estilo livre é a segunda modalidade mais antiga, com cerca de 40 anos. Consiste em realizar manobras consecutivas e sem colocar o pé no chão, em lugares planos. É uma das modalidades mais baratas de organizar campeonatos por não precisar de rampas

DOWNHILL-SPEED
- Praticada em ladeiras de vários comprimentos. O skatista tem de descê-las o mais rápido possível. É a modalidade mais antiga do skate. Também é conhecida como downhill stand-up (descer colinas de pé) para diferenciar do street luge, os carrinhos de rolimã. É uma das modalidades que mais cresce no mundo. Também é uma das mais baratas de organizar campeonatos por não precisar de rampas

DOWNHILL-SLIDE
- Também é praticado em ladeiras, mas a intenção é descer dando slides (tipos de cavalo de pau) de diversas formas e estendendo as manobras o máximo possível. Teve seu auge no Brasil durante a década de 1980. Como o freestyle e o downhill-speed, é uma das modalidades mais baratas de organizar campeonatos

SLALON
- Utiliza um skate diferente, mais estreito e menor. O skatista deve passar por vários cones alinhados fazendo ziguezague, tentando ser o mais rápido e não derrubando os cones

LONGBOARD
- Modalidade que usa skate maior que o convencional, com 40 polegadas (cerca de um metro) no mínimo. O praticante faz as modalidades street, banks, mini-ramp, downhill-speed, downhill-slide e até vertical

MOUNTAINBOARD
- Usa skate diferente do convencional, adaptado para qualquer tipo de terreno, principalmente para andar na terra e grama e descer barrancos. Os skates têm mais de 40 polegadas, eixos largos e rodas grandes em formato de pneu

DADOS DO ESPORTE

  • Mais de 300 competidores profissionais no Brasil
  • Cerca  de 10 mil competidores de base e de veteranos
  • As mulheres são 3% do contingente de skatistas
  • No Brasil, quase 3,2 milhões de domicílios têm pelo menos um morador que possui skate
  • 1.024 era o número de pistas nos 27 estados brasileiros em 2006

Fonte: Confederação Brasileira de Skate (CBSK)

Para andar de skate

Públicas

  • Parque Vila Pinho, bairros Vila Pinho/Santa Cecília, Barreiro
  • Parque Julien Rien, bairro Anchieta, Centro-Sul
  • Parque das Mangabeiras, Centro-Sul
  • Parque Ismael de Oliveira Fábregas, bairro Nova Floresta, Nordeste
  • Parque Professor Guilherme Lage, bairro São Paulo, Nordeste
  • Parque Maria do Socorro Moreira, bairro Carlos Prates, Noroeste
  • Parque Nossa Senhora da Piedade, bairro Aarão Reis, Norte
  • Parque do bairro Jardim Leblon, Venda Nova

     

Na rua

  • Praça Sete, centro, Centro-Sul
  • Praça Hugo Werneck, área hospitalar, Centro-Sul
     

 
Particular

  • Blunt Skate Park, bairro Sion, Centro-Sul

Fonte: Fundação de Parques Municipais e skatistas


 
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