Recém-saída do programa Saia Justa (GNT), a artista plástica, escritora e filósofa gaúcha Marcia Tiburi, 40 anos, roda o país para divulgar seu O Manto, livro que encerra a Trilogia Íntima, dos quais fazem parte A Mulher de Costas e Magnólia. Mestre e doutora em filosofia, Tiburi ganhou fama ao discutir o assunto de forma jovial, clara e didática, tanto no Saia quanto em programas como o Café Filosófico (TV Cultura), nos 13 livros que lançou e em artigos que publicou em revistas especializadas. Para Marcia Tiburi escrever é algo forte, que se torna uma espécie de cura existencial. Ela desmitifica a filosofia como experiência de pensamento e diz que as crianças são filósofos natos, desde que os adultos lhes permitam serem livres. Atualmente, finaliza duas obras, previstas para lançamento em 2011.
O Manto é o livro que sonhou em escrever. Por que a obra tem essa força de realização?
Primeiro, pela questão menos importante, porque ele finaliza a trilogia. Por último, porque ele foi um projeto imaginário que me deu muitas emoções e que, como experimento estilístico, foi um processo difícil de composição que, por incrível que possa parecer, foi também muito divertido. O Manto é a narrativa do estado da minha imaginação nestes sete anos de composição.
Ferreira Gullar é contra o senso comum que diz que escrever é sofrer. Ele diz que o faz sem ideologias ou sentimentalismos do ofício, apenas cumpre um trabalho. Pra você, escrever é difícil?
Talvez sofrer e escrever, assim como sofrer e amar, seja ideia do senso comum mesmo. Mas eu sofro sim, não de modo sentimentalista, mas de modo vivo, como corpo em ação. Sofro – no sentido de pathos, de estar tomada, apaixonada, submetida a – porque me envolvo demais com as minhas narrativas. Se Gullar diz que “cumpre um trabalho”, sinto muito dizer, mas não é o meu caso. Escrevo como cura existencial, como ação de sobrevivência humana. Podem me achar trágica ou dramática, mas é isso mesmo.
Depois de cinco anos no Saia Justa, você deixa o programa junto com Maitê Proença e Betty Lago. Como foi a experiência de trabalhar na TV?
Adorei e faria de novo. Mas estou gostando das minhas férias da TV. Se elas forem pra sempre também vou gostar. Mas faria TV de novo.
Do trabalho na TV, você foi levantando dados para um livro, o Olho de Vidro, previsto para 2011. É uma volta aos bastidores televisivos ou o livro terá outro viés?
É um livro crítico. Um livro que analisa a política da imagem. Mas não é um livro sobre conteúdo de TV, é um livro sobre a forma e as teorias sobre o olhar televisivo.
A filosofia é um tabu para as grandes massas ou outros lançamentos do gênero, livres de academicismos, aproximam o leitor comum do tema?
Escrevi vários livros acadêmicos e quando decidi pelo Filosofia em Comum eu penso que dei um passo simples, mas ousado sobre uma concepção de filosofia que deve entrar na discussão da filosofia no Brasil. A minha ideia é que filosofia não é história do pensamento, nem ciência, mas uma experiência de pensamento. A ideia de que filosofia deve ser acessível é estranha, pois se trata de experimentar aquilo que cada um tem, a potência de pensar sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor. Envolve, claro, uma potência de linguagem para a qual podemos nos preparar.
Você entrará no mundo do realismo fantástico, com seu próximo livro, A Fábula do Imperador Chinês, sobre uma paleontóloga que se casa com um imperador empalhado. A história é surreal. Qual foi seu ponto de partida para o livro?
Poderia ser realismo fantástico, mas é bem mais simples. Depois da trilogia estou em outras aventuras. Não posso antecipar muito. Espero que saia também em 2011.
Como mãe e filósofa, poderia dizer que as crianças são filósofos natos?
São sim. Basta permitir. Em 2010 será publicado pela Record o meu livro Filosofia Brincante que fiz com o Fernando Chui. Acho que entendemos o espírito da infância.
Quais são seus planos futuros?
Volto a Belo Horizonte em outubro e novembro para mediar os encontros A Filosofia e o Autoconhecimento – Diálogos com Marcia Tiburi, pelo projeto Sempre um Papo. Atualmente, finalizo o livro ficcional A fábula do Imperador Chinês.