Sexta, 03 de Setembro de 2010
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Reportagem

Mensagens da alma

O sonho nosso de cada dia pode ser a chave para se desvendar e solucionar algum problema existencial

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela, Daniel de Cerqueira, SXC, Arte: Paulo Werner, Ilustrações: Emídio Batista
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1) A adolescente está no meio da turma no colégio
2) Depois já adulta num bar, à noite, com outra pessoa
3) Entra sozinha no apartamento do ilustrador
4) Conversa com ele na janela da casa
5) Só os dois organizam uma festa

 

Estava ignorado, pula para a cena, termina em festa. Há final feliz nessas ilustrações, copiadas dos cinco sonhos sequenciados do seu autor em mais ou menos 15 dias. A vida dele ainda está para ser atuada, escrita, desenhada. Acredita que perdeu tempo recluso, estagnado na respiração funcional de cada dia, da circulação do sangue pelas veias. Vivia só, invisível, no meio de tanta gente na cidade de 2,4 milhões de pessoas em bairro de classe média de Belo Horizonte, isolado neste mundo interliga­do. Não conversava com ninguém, ouvia, via televisão. Há 20 anos não vai ao cinema. Mas foi o seu filme inconsciente, o da ilustração, que o puxou à consciência da vida. Procurou ajuda no grupo de sonhos, amparado por psicólogos. Decifrou que a mulher era a sociedade, tão desatenta ao que ocorre perto, a chamá-lo a se integrar à convivência. “A conclusão a que cheguei era para voltar, não descuidar da existência. Eu achava o isolamento natural”, diz o arquiteto Emídio Batista.

Sai aos poucos do seu invólucro, daquela naturalidade impensável para a maioria das pessoas nas grandes cidades ou até nos confins da terra. Era gago e agora não corta o diá­logo, vai direto no ajuntar cadenciado das palavras, nas frases. Até gosta de falar em público. “Eu só escutava e quando comecei a me expressar percebi que tinha vocabulário.” Mostra-se ao mundo. Nem parece que tem 50 anos. “É que só comia em casa, tudo natural”, argumenta. Está aí, tenta encontrar novamente, no compasso dos dias, sem pressa, seu espaço no meio da multidão. Agarra-se aos sonhos, constantes, de rio que derruba muro da casa, de turma de amigos, de biblioteca apinhada de livros com títulos referentes aos anos das últimas décadas. “Eles são simbólicos, sinceros. A gente não sonha à toa,” afirma Emídio Batista, que foi se assentar junto ao grupo desconfiado por achá-lo esotérico, aves­so a sua religião católica. Mas as sequências de imagens durante o sono foram mais fortes.


Emídio Batista: “A gente não sonha à toa”
Emídio Batista: “A gente não sonha à toa”

Sabe que não é remédio único para sair do isolamento. Só que se apega, agarra neles, os sonhos tão misteriosos para a humanidade, considerados fenômenos sobrenaturais em séculos antes de Cris­to, mensagens divinas em 16 livros da Bíblia, decifráveis por sábios. Caíram no sono comum no século 19, quando Charles Darwin observou que, não só homens, os animais também sonham. Ganha­ram a imaginação da humanidade ao serem sinalizados por Sigmund Freud como a estrada para o inconsciente, imagens de desejos reprimidos à luz do dia. Baixaram ao solo reles, pela medicina, como simples mecanismos biológicos de remoção de informações desnecessárias ao cérebro, de consolidação de memória. Pairam sobre as teorias.

A psicologia, o ilustrador Emí­dio, outros crédulos veem mais nestes filmes particulares produzidos todas as noites no cérebro dos cerca de 6,5 bilhões de habitantes ao redor da Terra lembrados ou não com o nascer do sol. Enxergam espelho fiel do avesso das pessoas, a alma, onde se po­dem ter conhecimento dos me­dos, desejos, misérias. Mostra­riam aquilo que a gente não quer ver. “O canal do sonho ajuda a resolver o do dia a dia”, diz o psicólogo José Luiz Ri­beiro de Car­valho. Sintonizados, decodificada sua linguagem, eles seriam bem mais do que imagem, som, história. “São remédio de lar­go espectro.” Serviriam para autoconhecimento, solução de problemas, de mazelas, da série de trans­tornos tão em alta nestes tempos e em arsenal de pílulas.

Melissa Boëchat: “Ver falhas pelo olhar inconsciente foi um grande passo”
Melissa Boëchat: “Ver falhas pelo olhar inconsciente foi um grande passo”

São vistos como medicamento que exige análise, compreensão, paciência, de ação demorada na obtenção de seus efeitos. Há o paciente diagnosticado com síndro­me de pânico. “Quando o remédio fracassa, vêm aqui”, diz o psiquiatra e psicanalista Antônio Be­neti. Começou a análise, perguntou por sonhos, conseguiu junto com ele, no seu contexto de vida, decifrar o medo que carregava desde quando nasceu. “É como o iceberg, que tem a ponta para cima da água: o que está na base é o inconsciente. O analista vai lá embaixo.” O sonho é uma dessas vias. “Eles são fundamentais. As pessoas estão cada vez mais sozinhas, fazendo parcerias com as drogas. Elas medicam o corpo, não a alma”, afirma Beneti.

Os sonhos seriam o outro lado: o da conscientização de estar neste mundo. “Sedados, nos esquecemos. Busca-se o sono sem sonho, o sono químico, o desligamento, a anestesia, que apenas cultiva nossa alienação de nós mesmos”, diz a psicanalista Cibele Ruas. Conversar com o inconsciente, ver o que ele mostra nos sonhos, tomar as rédeas da vida, se autoconhecer. Tarefa para toda a existência, em que eles também nos acompanham pelo menos duas ho­ras a cada noite, registram pesquisas científicas. Anotá-los, analisá-los. “Percebi o quanto me fazia bem este olhar para os sonhos. Mudou meu equilíbrio. Hoje tenho mais serenidade, facilidade para lidar com questões emocionais”, relata a relações públicas Renata Ferraz. Há cinco anos os escreve e os que chamam atenção, têm conexão com seu mundo, os leva para análise. “Sempre encontro sentido neles. Eles despertam o lado intuitivo.”

Antônio Beneti: “As drogas medicam o corpo, não a alma”
Antônio Beneti: “As drogas medicam o corpo, não a alma”

Faz parte a noite do seu dia a dia, aprendeu com isso, a ligar o filme registrado no cérebro à vida real. “Não existe sonho bobo. Há o que a gente não entendeu”, sentencia o psicólogo Fernando Rocha. Tra­balha com eles, vive deles: desde 1994 cataloga todos seus sonhos. Sempre os lê. “Quando os releio, me entendo melhor. É minha alma que fala.” Usa-os, o que diz ser cinema particular, e também para seus pacientes. Há o que tinha me­­do de avião e os sonhos conseguiram ser o antídoto a esse transtor­no. A cura veio da decodificação, do enfrentamento desse filme particular, recorrente, que foi se tornando ameno. “O sonho bem trabalhado, analisado dá diagnóstico ao profissional”, afirma Fer­nando Rocha.

O ilustrador Emídio, que come­ça a sair do seu isolamento, pa­ra onde foi levado por problemas emocionais, sabe disto. Agar­­ra-se a eles. “O sonho é conversa com o inconsciente”, afirma o psicólogo paulista Antônio
Car­los Alves de Araújo. Quem não se lembra deles, garantem os especialistas, são pes­­soas controladoras. Ajudam a sair do medo, mas há situações em que é necessário tratamento psiquiátrico e as que nem tanto. Limpam, clareiam situações desfocadas, mas que estão ali, à frente, e não se consegue ver. O namoro não ia bem, mas ela insistia em levar adiante. Teve um sonho, analisado com seu psicanalista, e que a levou a terminar o relacionamento. “Sua interpretação foi fundamental para que eu pudesse ver que muita coisa em minha vida não ia bem por insistência em comportamentos que me faziam mal”, diz a professora universitária Melissa Gonçalves Boëchat. Mudou a vida, refez hábitos, transformou-se, acredita, em uma pessoa comple­tamente diferente. “Poder ver inseguranças, falhas, pelo olhar do nosso inconsciente, foi um grande passo para vida mais feliz.”

Renata Ferraz: “Sempre encontro sentido nos sonhos”
Renata Ferraz: “Sempre encontro sentido nos sonhos”

Eles estão aí, todas as noites, para serem vistos, relembrados, remédio para muitos males, melhoria de vida, autoconhecimento, desde que analisados. Mais valorizados nas culturas antigas do que na contemporaneidade. Os sonhos longos e bem formados são aqueles que surgem durante fase especial do sono, chamada REM (do inglês rapid eye movement e em português movimento rápido dos olhos). “Neste período a musculatura está completamente relaxada, mas a atividade cerebral mensurada por exames especiais, como eletroencefalograma, é semelhante à de uma pessoa acordada”, explica o neurologista Luciano Magalhães Melo, do Hospital Paulistano.
 

Fernando Rocha: “Quando os releio, me entendo melhor”
Fernando Rocha: “Quando os releio, me entendo melhor”

De olhos fechados e o inconsciente a atiçar o cérebro com me­dos, angústias, situações do cotidiano. “Lem­branças e experiências vividas durante a vigília são misturadas e originam os sonhos”, afirma Luciano Melo, numa linguagem mais técnica. “Todo sonho tem alguma coisa com a nossa relação com o mundo. Representa desejos ou temores”, acrescenta o psicanalista Sérgio de Mat­tos, em pinceladas mais subjetivas. Pairam sobre tudo, até porque não se sabe por que sonhamos. Mas não custa nada se ater a eles.

“Preste atenção aos sonhos e experimente ser o ator e autor de uma vida oculta”, sugere Sérgio de Mattos. O ilustrador Emídio Batista quer atuar em sua existência com texto, fala, fazer parte de todas as cenas neste mundo. Deixar de ser só espectador da sociedade. Se ela foi até seus sonhos, acredita, retirá-lo do seu isolamento voluntário, com proposta de festa. Porque não? “Este ano vou ao cinema”, diz. Ver também o filme dos outros.

Filmes particulares

Confira os sonhos na antiguidade, psicanálise, psicologia e medicina

Sobrenatural

Eram considerados, antes de Cristo, fenômenos sobrenaturais, mensagens divinas. Na mitologia grega, há
os irmãos Morfeu, que trazia os sonhos aos homens, Icelus, aos animais, e Phantasos, a coisas inanimadas

Nu e cru

Eles são, à luz da medicina, estágio preparatório para que o cérebro possa render o suficiente no dia seguinte. Não passariam de processo fisiológico: a mente não para nem no sono. Há teorias que mostram serem os sonhos a consolidação da memória ou a remoção de informações desnecessárias e inúteis ao cérebro.  Todo mundo sonha: mamíferos e aves.

No inconsciente

Psicanalista Sigmund Freud sinaliza no início do século passado que os sonhos eram a estrada que conduz ao inconsciente.  As imagens vindas no sono seriam satisfação disfarçada daqueles desejos reprimidos de quando estamos acordados. Esse conceito abre-se com Carl Gustav Jung. Ele vê mais que desejos recalcados: compensação do espírito, da alma, da mente. Também o inconsciente coletivo em representações compartilhadas por todos, como a ocorrência de sonhos semelhantes em pessoas sem nenhum vínculo

Todo mundo sonha

- Estar caindo
- Ser perseguido
- Voar
- Desempenhar tarefa árdua na escola ou no trabalho
- Tentar e tentar novamente fazer algo

Famosos

- Óleo de Lorenzo

A busca incessante pela cura do filho Lorenzo empurrou Augusto Odone a descobrir medicamento que amenizasse a doença rara. Ele sonhou com o filho segurando e puxando duas correntes que simbolizam cadeias de carbono. Daí surgiu o óleo para tratar crianças com adrenoleucodistrofia e inspirou o filme Óleo de Lorenzo, em 1992

- Monstro da noite

O personagem Frankenstein surgiu do sonho da escritora inglesa Mary Shelley há quase 200 anos. Ela teria tido visão de um estudante dando vida a uma criatura

- Quadros do sono

O pintor Salvador Dali transpôs imagens dos sonhos para os quadros. Costumava privar-se de sono porque, quando estava cansado, cochilava e sonhava com obras concluídas. Acordava e colocava o que via nas telas

- Vampiros lucrativos

 A escritora Stephenie Meyer diz que a ideia de escrever sobre vampiros surgiu num sonho. Criou a saga Crepúsculo, com quatro títulos, que vendeu 80 milhões de exemplares mundo afora

- Costura rápida

A linha passava na extremidade acima da ponta. A máquina de costura não funcionaria assim. Elias Howe, no século 19, estava com esse dilema a horas quando resolveu dormir. Aí teria sonhado com tribo que o ameaçava com lanças de argolas logo abaixo da cabeça. Percebeu que a solução seria colocar o buraco próximo à ponta da agulha. Conseguiu agilizar a costura naquela época

Bíblicos

Na Bíblia há passagens sobre sonhos em 16 dos 66 livros. Confira algumas delas

- Faraó, do Egito, sonhou com sete vacas gordas e sete vacas magras. Depois com sete espigas cheias e sete miúdas. José, filho de Jacó, retirado do cárcere, decifrou que seriam sete anos de fartura e sete de penúria

- Rei Nabucodonosor teve sonho, que o deixou atormentado. Convocou sábios para dizer o que havia visto, decifrá-lo e, se isso não acontecesse, mandaria matar todos. O profeta Daniel rogou a Deus, descobriu o sonho: estátua com cabeça de ouro fino, peito e braços de prata, ventre e coxas de cobre, pernas de ferro e barro. Representavam os próximos reinos da Babilônia. Salvaram-se todos

- Anjo diz em sonho para José receber Maria como esposa porque ela esperava filho gerado pelo Espírito Santo. Deveria colocar nome de Jesus. Tem outro sonho, quando estava refugiado com Maria e o filho no Egito,  de que poderia voltar a Israel

- Reis magos tiveram revelação divina em sonhos para que voltassem, logo após visitar o menino Jesus, por outro


 
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