Sexta, 03 de Setembro de 2010
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Qualidade de Vida

Dias de silêncio

Setenta e duas horas sem proferir uma palavra em um sítio cercado pelo verde: momentos de introspecção em que o vazio do som nos faz ouvir a alma

Texto: Luciana Avelino | Fotos: Pedro Vilela
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Tranquilidade e belo visual: tudo é voltado para contemplação e reflexão

Agitação, clima de festa, tensão, expectativa. No final da tarde de 28 de junho, a atenção do Brasil e do mundo se voltava para o estádio sul-africano Ellis Park, em Joanesburgo. Milhões de pessoas acompanhavam eufóricas e ansiosas a partida Brasil e Chile pela TV. A vitória renderia a um dos dois países o passaporte para as quartas de final da Copa do Mundo. Mas, em Ravena, distrito de Sabará de apenas seis mil habitantes, nenhuma menção ao campeonato de futebol. Em uma bucólica propriedade encravada em montanhas, no Instituto Renascer da Consciência, o isolamento do mundo externo era justamente o ponto de partida para um grupo mergulhar em seus universos particulares.


Vinte e duas pessoas tinham deixado seus trabalhos e casas em Belo Horizonte, Brasília, Belém do Pará, Salvador e Fortaleza para participar de um retiro de silêncio. Em três dias inteiros, nada de TV, música, internet, celular, jornais, revistas, conversas, afazeres rotineiros, barulho de carros, buzinas e, muito menos, de vuvuzelas. Enquanto as estridentes e inconfundíveis cornetas deveriam estar ecoando nos ouvidos de todos os cantos, dava-se o início de inusitado ritual de emudecimento.
 

Interessada em descobrir as razões que levariam a tal imersão e em minha própria experiência pessoal, juntei-me ao grupo como participante. A ideia, teoricamente interessante a princípio, na prática, desdobrou-se em emoções diversas e surpreendentes ao longo de 72 horas. Em mim, o desafio desencadeou, sequencialmente, receio, estranheza, angústia, normalidade e leveza, culminando em bem-estar generalizado.

Ações conjuntas e momentos a sós de introspecção integram a programação
Ações conjuntas e momentos a sós de introspecção integram a programação

Antes da largada ao silêncio, a coordenadora do retiro, a psicóloga Aidda Pustilnick, levou os participantes a um reconhecimento de campo. A região é visualmente abençoada. Cercado de verde por todos os lados, o refúgio fica circundado por belos vales, impossibilitando a visão de terrenos vizinhos, gerando sensação de se estar protegido. Apelos não faltam para os exercícios sugeridos de introspecção. Há inúmeros redutos ambientados para contemplação. O paisagismo agregado, muito bem cuidado, mescla-se à beleza natural preservada. Um ecletismo místico-religioso se destaca em meio ao cenário. Budas, imagens de Jesus, santos e Iemanjá convivem em harmonia, sinalizando o respeito às cren­ças alheias. Placas com frases positivas, de aconchego emocional, reforçam o estímulo à reflexão.

As instalações, de estruturas sim­ples, são decoradas em estilo rústico-aconchegante. Tudo bási­co, porém de extrema organização, zelo. Trilhas pela mata, quedas d´á­gua, cachoeira, lagos, fontes e ambientações convidam a todo instante ao diálogo íntimo. Fora a ausência da fala humana e de ruídos civilizatórios, o silêncio local é absoluto. Só é quebrado pelos sinos que avisam ­o início das atividades, pássaros e galinhas de angola.  

No decorrer do processo de abstinência do falar, é incrível perceber que, realmente, o foco de atenção direciona-se, gradativamen­te, para nós mesmos. Uma ação completamente diferente de tudo que estamos acostumados a viver na rotina frenética e atribulada da vida. Pude confirmar que o silêncio, associado ao afastamento do mundo pessoal, realizado propositalmente no meio da semana, segundo tinha adiantado Aidda, são, mesmos, poderosos e infalíveis acessos para perceber-se, conhecer-se. Onde e quando, na nos­sa agenda, podemos nos dar ao lu­xo de apenas nos escutar plenamente? Ainda que viajemos para um sítio tranquilo, por exemplo, há sempre a tentação de conferir noticiários, assistir a mais um capítulo da novela, ler um livro, jogar conversa fora. No retiro, não há desvio de propósito. Você se torna o centro de tudo que faz, pensa. “Uma oportunidade de silenciar para se ouvir”, resumiu Aidda.
 

Diferente de outros encontros, nesta proposta não há interesse em relacionamento social. Não há apresentações de nomes, das respectivas profissões. As pessoas usam crachás com seus primeiros nomes e se tornam iguais na empreitada do autoconhecimento. Interessante que, mesmo sem emitir palavras, seja nas atividades comuns ou durante as refeições, as pessoas nitidamente conseguem demonstrar empatia, cumplicidade e até carinho a partir de olhares, sorrisos, gestos. Antes de servir, posicionam-se de pé em círculo em volta dos alimentos em agradecimento mental à refeição e aos responsáveis pela preparação. Uma pausa mais do que atropelada no dia a dia. A comida de menu vegetariano, inclusive, é um capítulo à parte. De tão saborosos e caprichosamente feitos pelos cozinheiros Orlando, Marta e Ivanir, os cardápios agradam muitíssimo bem até quem não está acostumado a se privar de carne, refrigerante e doce. As barras de chocolate e balas que levei para possíveis emergências, nem sequer foram tocadas. Gostei especialmente de uma pasta de ricota e de um pão integral. Além de comprar para levar para casa, solicitei as receitas.
 

Mas, ao contrário do que se possa imaginar, a dinâmica da greve de fala não tem nada de monotonia. Além das práticas diárias em conjunto – meditações, exercícios (mentais e emocionais) e dinâmicas –, os participantes têm obrigações a cumprir. São responsáveis pela arrumação dos quartos, da limpeza da casa que estão hospedados, da lavagem dos pratos, talheres, copos e xícaras que usam. Também participam de pequenos serviços, a partir de escalação prévia, como arrumar a cozinha, varrer o refeitório, lavar banheiros. No meu caso, fui convocada para dar uma força na limpeza de panelas e afins após um almoço. Anexo ao refeitório, há espaço com bancada com pias, escorredores de vasilhas e panos de prato para o mutirão. Quem deseja, ainda pode ficar à vontade para trabalhos manuais na horta e canteiros de flores e ervas medicinais. A intenção é que todos participem da manutenção do local e valorizem os serviços. 

Após as últimas explicações de Aidda para o início do silêncio, num grande salão decorado com almofadas coloridas usadas como assento, onde nos reuníamos duas vezes ao dia, senti uma pontada de receio. A partir dali, teria de me entregar ao silêncio absoluto. Até os cumprimentos orais seriam abolidos, enquanto dúvidas e maiores necessidades comunicadas pela escrita. Escrever, inclusive, seria tarefa contínua. Nosso único recurso de extravasamento. Um caderno para anotações pessoais iria nos acompanhar a todo lugar. Naquele momento, pensei o que estava fazendo ali, tive dúvidas se iria conseguir ficar sem falar e imaginei o que tanto teria para conversar comigo mesma. “Que medo”, soltei. Minha companheira ao lado, que já tinha vivenciado experiência similar, tentou animar-me. “Não pen­se, nem se prepare. Apenas viva. Permita-se. Você vai sair daqui outra”, dis­se pra mim, que mal sabia que um mundo à parte começaria a fervilhar interiormente. Foram momentos únicos, de intensa intimidade comigo mes­ma. Vivências tocantes, emocionantes. No fim do retiro, tinha uma bagagem emocional muito maior do que o desafio cumprido: meu recorde pessoal de silêncio. Durante a viagem de volta pra casa, fiquei sabendo do placar do jogo: Brasil 3, Chile 0. Mas, naquela altura, isso não tinha a menor importância. 

Primeiro dia

Logo na primeira meditação do dia, senti-me tocada. De certa forma, sei lá o porquê, associei o isolamento que vivenciava à situação que acredito que deva acontecer quando passamos não mais a viver fisicamente: incomunicáveis e sem acesso direto aos familiares e pessoas do convívio. Mantemos os sentimentos por eles, o elo emocional, mas temos outra realidade para tocar. Na hora do jantar, nossa primeira refeição em silêncio, senti um pouco de constrangimento. Aquilo de não falar nada, nem um “como está você?”, “o que está achando?”, ainda era muito estranho. No útimo encontro coletivo no salão, guiada por uma potente lanterna, fui para meu quarto, instalado em uma das sete casas coloridas, na sugestiva vila Serena, com acesso a partir de ladeira bem íngreme. Eram 21h30 e as atividades do dia estavam encerradas. A recomendação era dormir às 22h, já que às 7h da manhã seguinte, tínhamos de estar a postos para a primeira meditação do dia, antes do café da manhã. De forma surpreendente, a digestão dos temas abordados há pouco, em especial o conteúdo pra lá de básico em torno da frase “os momentos diários compõem pequenas alegrias” e minha condição de isolamento estimularam um choro sentido. Não resisti a ele. Devo ter ficado chorando por quase uma hora. Vi-me sozinha no quarto sem poder ligar para casa, dizer um simples boa-noite para meu marido e meu filho, perguntar como tinha sido o dia deles, dizer que os amava. Acredito que, naquele instante, o não-falar com os outros era suportável, mas abdicar de expressar minha saudade a eles transformou-se em agonia, tomando dimensão gigante. O vazio foi crescendo tanto que pensei na possibilidade de mandar uma mensagem escrita do telefone. Foi quando lembrei que do quarto não havia sinal de celular. Cometi então a pequena loucura de escrever ligeiras palavras sobre a falta deles e, de pijama, enrolada num cobertor, fui andando no escuro com uma lanterna nos arredores da vila na expectativa de sucesso de envio. Mesmo não conseguindo enviar a mensagem, só o fato de exteriorizar meus sentimentos pareceu me deixar mais tranquila. Percebi o quanto estava emotiva e pensei que talvez estivesse sendo dramática desnecessariamente. Coincidentemente, naquele dia havia eleito como reflexão meu relacionamento com eles.Tanta falta deles significaria o quanto são importantes? Juro que, se tivesse como ir embora naquele momento, correria pra casa para abraçá-los. Dormi entre uma lágrima e outra.

Segundo dia

Levantei da cama e me olhei no espelho, posicionado ao lado da bela oração de são Francisco de Assis: as olheiras estavam fundas. Porém, sentia-me menos ansiosa, mais calma. Depois da meditação conjunta e do café da manhã, fizemos exercícios para harmonizar o coração. O objetivo, mais nobre impossível, era ligá-lo ao cérebro frontal para estimular o amor fraterno. Prática que me fez refletir o quanto nossa relação com o outro pode ser melhorada, sempre. Fui percebendo que estava ficando mais à vontade com as experimentações emotivas. Após o exercício, dirigimo-nos a um gramado com figuras geométricas de concreto relativas à chamada energia sagrada, a fim de diluir emocionalmente questões que gostaríamos ponderar. Reflexões no local passaram a fazer parte do nosso ritual diário. Eram momentos de mente aberta, leveza, calmaria. Mais tarde, em uma caminhada sozinha, sentei à beira de um riacho e me deixei levar pelo barulho envolvente da água. Assentei numa pedra confortavelmente jeitosa e deixei meus pés imersos. A água geladérrima, figurativa­mente, fez-me pensar acerca da intensidade que se pode (deseja) imprimir ou não nas nossas ações. Engraçado, que a partir dali, tudo me levava a fazer paralelos com ações da minha vida. Naquele canto, recordei dos meus CDs de sons da natureza. No cenário natural, veio-me à cabeça o quanto de artificialismos nos cerca na cidade. Ao vivo e em cores, percebi o quanto já estava à vontade comigo mesma. Eu e minha mente não éramos mais estranhas uma da outra. O não-falar e a convivência centrada em mim já não tinham mais o peso do dia anterior. A próxima meditação já estava para começar, mas não consegui abandonar o lugar. O som da água me preenchia de certo modo e esvaziava minha cabeça de preocupações. Na saída, passei pela horta e, próxima dela, vi um canteiro com uma planta roxa e comprida. As mesmas que na minha infância cobriam o jardim da minha casa e que eu picava, misturava com terra e fazia de comida para as bonecas. Voltei no tempo em cenas de brincadeiras com minha irmã Vanessa, quando minha mãe, ainda  viva, transitava por perto. Lógico que fiquei ali relembrando o passado e, claro, chorando um pouco. Mais tarde, uma volta no labirinto apazigou relativamente a ausência dela e me fez lembrar o quanto sou agradecida por tê-la tido em minha vida.  No jantar, o silêncio já estava bem mais digerido, assim como minhas emoções.

Ecletismo místico-religioso e mensagens positivas reforçam a chamada para a interiorização
Ecletismo místico-religioso e mensagens positivas reforçam a chamada para a interiorização

Terceiro dia

Neste dia, levantei totalmente incorporada na privação da fala. Fui meditar, tendo a certeza de que o retiro tinha sido um presente. Já estava até com pena de ir embora. Minha volta estava marcada para a noite. No fim da manhã, tomei um banho de ervas no sollarium. Meia hora imersa numa banheira de água quente, flores e ervas, vendo o céu pelo telhado de vidro fez com que eu lavasse o corpo, a mente, o coração. Após ajeitar a cozinha com mais outras companheiras, fui dar uma volta pela mata, assumindo olhar centrado apenas
na observação.  Encarei tudo que via (pedras, árvores, insetos,  santos abrigados em oratórios) pelo foco dos detalhes e novidade, como talvez as crianças fazem. A diversidade das espécies e dos elementos me fez filosofar por que temos a mania de querer que as pessoas sejam iguais (ajam e pensem) como nós. Não poderíamos ser mais condescendentes? É absurdamente interessante o que pensamos quando estamos voltados unicamente para isso. Todos deveriam passar por experiência parecida. No fim da tarde, uma
fogueira nos aguardava. Iríamos fazer um ritual de queima de tudo aquilo que não gostávamos de nós, do que nos incomodava, devidamente registrado no papel ao longo do dia. Minhas três folhas foram jogadas com firmeza e alívio. Vê-las se consumindo em chamas rendeu-me boa sensação. Ao menos simbolicamente, estava livre da minha lista de imperfeições. Agora, era hora de colocar a mão, literalmente, na massa, na minha vida real. No começo da noite, dividimos nossas experiências, dando encerramento ao retiro. Voltei para Belo Horizonte agradecida e surpresa pelo quanto o silêncio pode falar.    


 
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