Parafraseando Roberto Carlos – se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi – a professora de inglês Marina Werneck, 70 anos, afirma: “Não só passei pela vida: vivi.” Esta frase está na biografia que concluiu recentemente, História da minha vida.
Não que a de Marina tenha sido pior que a de muitos outros brasileiros. Mas o modo sincero como expõe e compartilha passagens dolorosas, inclusive a falta de demonstrações de carinho da própria mãe, Dorinha, para com os filhos, aproxima dela os leitores. “Mamãe não se entregava quando eu tentava abraçá-la, beijá-la, demonstrar um pouco de carinho. Acredito que também eu não tenha sabido como agir. Nunca fui carinhosa em gestos, só em palavras e pensamentos.” E como isto é verdade para tanta gente!
Ao começar a própria história pela dos pais – Dora e Lindolpho – a autora deixa explícito como em suas origens familiares residem as premissas que adotou para a própria vida. Lindolpho, de origem tão humilde que aos 18 anos não tinha carteira de identidade, mas aos 23 formava-se na escola de engenharia. A mãe, que apesar de ser moça rica – filha do ginecologista e obstetra Hugo Furquim Werneck – trabalhava intensamente no sanatório da família e casou-se mesmo sendo o marido de posição socioeconômica e cultural tão diversa. E 10 anos mais velho. Assim, não é à toa que ela mesma diz que sempre suportou tudo bem. E que a frase que não sai de sua cabeça é “quero ser happy e não rico.”
Interessante notar que se enfrentou problemas de saúde, a começar por uma gravidez complicada aos 7 meses, problemas cardíacos, caso raro de doença hereditária – ela e dois filhos – aperto financeiro, Marina e o marido, Paulo, deixavam de comer carne para prover os seis filhos. Até o motorista do sanatório dos pais dela, ao perceber as dificuldades para alimentar bem a todos ajudava com litros de leite – conta tudo com certo humor. Nada de dramas, mas muita atitude, sempre. Inclusive quando teve medo de morrer em virtude de uma cirurgia: pediu ao marido que contratasse um fotógrafo para registrar toda a família. Era uma despesa extra, mas ficaria a lembrança.
Fez tratos com Deus para contar sua história, abriu butique, raptou o marido de um hospital, fez bodas de ouro. Aproveitar a vida. O que ela traz de bom e de difícil para, no final, ou melhor, em determinado momento, poder olhar para trás e ter o que contar. “Como aliviar a dor do que não foi vivido? É simples: iludindo-nos menos e vivendo mais.” Esta é a lição de Marina.