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Esp. Saúde e Estética VDe olho no péNovo tratamento aplicado em três hospitais públicos de BH vem diminuindo significativamente o número de amputações causado pelo pé diabético
Texto: Cláudia Rezende | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Alívio e alegria para gente como a aposentada Eleni Nikolas Koutras, 49 anos. Há cerca de um ano, apareceu um pequeno machucado no pé. Foi-se aprofundando e, por fim, virou necrose. “Não gosto nem de pensar que poderia ficar sem o pé. Sabia do risco, mas preferi focar meu pensamento no resultado positivo”, diz. E não é que deu certo? Eleni ainda se recupera dos procedimentos, do longo tratamento a que teve que se submeter para salvar o pé – revascularização e desbridamento –, mas já consegue pisar e, em pouco tempo, poderá andar normalmente. Em março, ela teve que passar por outra cirurgia, ortopédica. Dessa vez, foi no pé esquerdo, também para tratar uma complicação que acomete pessoas com pé diabético, a artropatia de Charcot, que provoca reabsorção óssea. Procedimento bem-sucedido. Agora, é questão de tempo para que os dois voltem ao normal completamente. De acordo com Túlio Navarro, o tratamento pode incluir a técnica chamada desbridamento, uma limpeza profunda das feridas para retirada do germe causador da infecção (o pé de Eleni Koutras ficou praticamente no osso), revascularização do membro, com técnicas como a cirurgia endovascular (feita por meio de angioplastias e implantes de stents, dispositivo que desobstrui a artéria) e avaliação mais adequada para realização de ponte de safena. Mas o médico observa que, tão importante quanto os novos métodos e equipamentos, é a formação de recursos humanos capacitados para realizar os procedimentos. Navarro conta que a orientação para adoção das novas técnicas surgiu entre 2006 e 2007 em reunião de especialistas de diferentes países. Do encontro, saiu o documento Transatlantic Intersociety Consensus (Tasc) para orientar a prática vascular em todo o mundo. No entanto, os métodos previstos no texto ainda não são aplicados de forma geral. Em Minas Gerais, por exemplo, os três hospitais da rede pública que estão usando as técnicas são pioneiros e têm servido como referência para os outros. |
Túlio Navarro destaca que o Tasc foi necessário porque, diante das situações de complicação nos pés, não havia consenso entre os profissionais. “Um médico indicava amputação, outro, somente o uso de medicamentos, e outro, cirurgia de desbridamento”, diz. Apesar de a aplicação dos novos métodos exigir investimento por parte das instituições hospitalares e governos, o médico ressalta que o gasto acaba saindo muito menor. “O paciente com pé diabético é um paciente caro. O gasto é o dobro porque tem toda a assistência dada depois para a pessoa com amputação.” Na capital mineira, outro bom resultado alcançado com a união dos três hospitais no emprego da metodologia foi a redução na fila de espera. O vice-diretor do Hospital Risoleta Neves, Ricardo Castanheira Figueiredo, conta que, quando a UFMG assumiu a instituição, foram observadas que áreas na região metropolitana tinham maior demanda por serviço. A de atendimento ao pé diabético era uma delas – assim como a de cuidados para pacientes com AVC. “Havia uma fila enorme para pé diabético. Acabamos com ela”, afirma. Hoje são atendidos cerca de dez pacientes por dia e realizadas, aproximadamente, cinco cirurgias de grande porte por semana, o que dá um total de 1,3 mil procedimentos por ano. No Hospital das Clínicas, em 2009, foram 400 cirurgias endovasculares de forma geral. Em cada cem, de dois a três foram amputações, o que dá menos de 5%. No Odilon Behrens, em 2009, houve cerca de 250 pacientes, com taxa de amputação entre 4% e 5%. A partir de 2002, a instituição adquiriu novos equipamentos que ajudaram no tratamento, como arco cirúrgico digital e ultrassonografia vascular. |
Às vezes, a amputação é inevitável, mas pode ser menos traumática. Com o comerciante Geraldo Coelho de Sousa, 73 anos, foi assim. Há cerca de 15 anos, descobriu que tinha diabetes e, há um ano, teve problema no pé direito e extraiu um dedo. No início de abril deste ano, nova complicação, desta vez, no pé esquerdo. “Quando vi, estava com o pé preteado”, conta. Foi preciso retirar mais um dedo de Geraldo de Sousa. A situação parecia estar controlada, mas o comerciante teve de passar por novo procedimento, mas para retirar todo o pé esquerdo devido a novas complicações. De acordo com a assessoria de imprensa do Risoleta Neves, o paciente foi cercado por todos os cuidados, mas não foi possível evitar a perda do pé. Conforme a assessoria, o dano poderia ter sido mais grave (amputação de toda a perna) ou antecipado se a assistência não tivesse sido empregada. A promessa de Geraldo de Sousa é de cuidar mais dos membros. Uma unha encravada fez com que o vendedor Voltaire Cesário, 69 anos, diabético há 35 anos, desenvolvesse uma complicação e perdesse um dedo no pé esquerdo. Em uma pequena reforma em casa, ficou sem sapatos fechado um dia. Foi o suficiente para o aparecimento de infecção no mesmo pé. Mesmo procurando socorro rápido, não teve jeito. Mais um dedo foi retirado. “Tenho isso como escola para mim porque descuidei. Foi só um dia, mas descuidei. É preciso muito cuidado com o pé diabético”, destaca. Para ele, dois fatores contaram para o bom resultado de sua cirurgia – as técnicas médicas e a fé que tem em Deus. Dois meses depois da segunda cirurgia, Voltaire teve de voltar ao hospital para retirar mais um dedo do pé que estava com necrose. Túlio Navarro observa que a prevenção é o melhor tratamento para quem tem o problema e para se evitarem amputações. Segundo ele, se fossem adotados programas preventivos no atendimento primário ao paciente, seria possível evitar o aparecimento de úlceras e gangrenas em um percentual entre 50% e 85% dos diabéticos. |
TratamentoAtenção primária - Centros de saúde e serviços em hospitais como a Santa Casa Como evitar complicações
- Ter bom controle glicêmico Fontes: Médicos Túlio Navarro e Maria Regina Calsolari |
Pé diabéticoPacientes com a doença
- Entre 20% e 25% dos diabéticos Taxa de amputação
- Métodos tradicionais: entre 10% e 40% Hospitais da rede pública que aplicam o novo tratamento em BH
- Hospital das Clínicas Pacientes com diabetes podem desenvolver o pé diabético por dois fatores – o neurológico e o vascular. Segundo a coordenadora do Departamento de Endocrinologia da Santa Casa de Belo Horizonte, Maria Regina Calsolari, o neurológico é provocado pela glicose alta e leva à insensibilidade nos pés. Assim, a pessoa pode se machucar e não perceber, desenvolvendo ferimentos maiores e gangrena. O fator vascular está ligado à má circulação, que pode ser um problema do indivíduo ou algo desenvolvido com a idade. Quanto maior o tempo de doença, maior o risco de a pessoa ter os dois problemas associados. Fontes: Médicos Túlio Navarro e Maria Regina Calsolari |