Sexta, 03 de Setembro de 2010
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Esp. Saúde e Estética V

De olho no pé

Novo tratamento aplicado em três hospitais públicos de BH vem diminuindo significativamente o número de amputações causado pelo pé diabético

Texto: Cláudia Rezende | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Geraldo Coelho de Souza perdeu primeiro dois dedos, mas depois teve de tirar o pé

Abre-se uma ferida no pé, pequena, qua­se imperceptível. A pessoa não vê, não sente. Quando assusta, dedos e corpo do pé estão escuros, sinal de que algo está errado. Procura o médico. Há risco de amputação, mas quem sabe o dano pode ser evitado. Exis­tem tecnologias para is­so. A situação é comum entre pacientes com diabetes que têm o chamado pé diabético, complicação que ocorre quan­­do a glicose não está sob controle, diz a coordenadora do Depar­tamento de Endocrinologia da Santa Casa de Belo Horizonte, médica Maria Regina Calsolari. O final feliz para a his­tória, felizmente, tem se tornado mais frequente, resultado do empre­go de novos métodos no tratamento.

Um dos responsáveis pela metodologia é o cirurgião vascular Túlio Navarro. O serviço exis­te, hoje, em três hospitais da rede pública – Odilon Behrens, da prefeitura, e das Clínicas e Risoleta To­len­tino Neves, da UFMG. Ele conta que sempre houve poucos recursos para o atendimento do pé diabético, muita demanda e alto número de amputação. “A taxa de amputação é de 10% a 40%. Nos últimos três anos, com o desenvolvimen­to da medicina e a apli­cação de novos métodos, estamos chegando a 5%.”


Cirurgião Túlio Navarro: novas técnicas
Cirurgião Túlio Navarro: novas técnicas

Alívio e alegria para gente como a aposentada Ele­ni Nikolas Koutras, 49 anos. Há cerca de um ano, apareceu um pequeno machucado no pé. Foi-se aprofundando e, por fim, virou necrose. “Não gosto nem de pensar que poderia ficar sem o pé. Sabia do risco, mas preferi focar meu pensamento no resultado positivo”, diz. E não é que deu certo? Eleni ainda se recupera dos procedimentos, do longo tratamento a que teve que se submeter para salvar o pé – revascularização e desbridamento –, mas já consegue pisar e, em pouco tempo, poderá andar normalmente. Em março, ela teve que passar por outra cirurgia, ortopédica. Dessa vez, foi no pé esquerdo, também para tratar uma complicação que acomete pessoas com pé diabético, a artropatia de Charcot, que provoca reabsorção óssea. Procedimento bem-sucedido. Agora, é questão de tempo para que os dois voltem ao normal completamente.

De acordo com Túlio Navarro, o tratamento pode incluir a técnica chamada desbridamento, uma limpeza profunda das feridas para retirada do germe causador da infecção (o pé de Eleni Koutras ficou praticamente no osso), revascu­larização do membro, com técnicas como a cirurgia endovascular (feita por meio de angioplastias e implantes de stents, dispositivo que desobstrui a artéria) e avaliação mais adequada para realização de ponte de safena. Mas o médico observa que, tão importante quanto os novos métodos e equipamentos, é a formação de recursos humanos capacitados para realizar os procedimentos.

Navarro conta que a orientação para adoção das novas técnicas surgiu entre 2006 e 2007 em reunião de especialistas de diferentes países. Do encontro, saiu o documento Transatlantic In­ter­society Con­sensus (Tasc) para orientar a prática vascular em todo o mun­do. No entanto, os métodos previstos no texto ainda não são aplicados de forma geral. Em Minas Gerais, por exemplo, os três hospitais da rede pública que estão usando as técnicas são pioneiros e têm servido como referência para os outros.

Eleni Koutras: “Não gosto nem de pensar que poderia ficar sem o pé”
Eleni Koutras: “Não gosto nem de pensar que poderia ficar sem o pé”

Túlio Navarro destaca que o Tasc foi necessário porque, diante das situações de complicação nos pés, não havia consenso entre os profissionais. “Um médico indicava amputação, outro, somente o uso de medicamentos, e outro, cirurgia de desbridamento”, diz. Ape­sar de a aplicação dos novos métodos exigir investimento por parte das instituições hospitalares e governos, o médico ressalta que o gasto acaba saindo muito menor. “O paciente com pé diabético é um paciente caro. O gasto é o dobro porque tem toda a assistência dada depois para a pessoa com amputação.”

Na capital mineira, outro bom resultado alcançado com a união dos três hospitais no emprego da metodologia foi a redução na fila de espe­ra. O vice-diretor do Hospital Risoleta Ne­ves, Ricardo Castanheira Figueiredo, conta que, quando a UFMG assumiu a instituição, foram observadas que áreas na região me­tropolitana tinham maior demanda por serviço. A de atendimento ao pé diabético era uma delas – assim como a de cuidados para pacientes com AVC.

“Havia uma fila enorme para pé diabético. Acabamos com ela”, afir­ma. Hoje são atendidos cerca de dez pacientes por dia e realizadas, aproximadamente, cinco cirurgias de grande porte por sema­na, o que dá um total de 1,3 mil procedimentos por ano. No Hospital das Clínicas, em 2009, foram 400 cirurgias endovasculares de forma ge­ral. Em cada cem, de dois a três foram amputações, o que dá menos de 5%. No Odilon Behrens, em 2009, houve cerca de 250 pacientes, com taxa de amputação entre 4% e 5%. A partir de 2002, a instituição adquiriu novos equipamentos que ajudaram no tratamento, como arco cirúrgico digital e ultrassonografia vascular.

Voltarie Cesário: “É preciso muito cuidado”
Voltarie Cesário: “É preciso muito cuidado”

Às vezes, a amputação é inevitável, mas pode ser menos traumática. Com o comerciante Geraldo Coelho de Sousa, 73 anos, foi assim. Há cerca de 15 anos, descobriu que tinha diabetes e, há um ano, teve problema no pé direito e extraiu um dedo. No início de abril deste ano, nova complicação, desta vez, no pé esquerdo. “Quando vi, estava com o pé preteado”, conta. Foi preciso retirar mais um dedo de Geraldo de Sousa. A situação parecia estar controlada, mas o comerciante teve de passar por novo procedimento, mas para retirar todo o pé esquerdo devido a novas complicações. De acordo com a assessoria de imprensa do Risoleta Neves, o paciente foi cercado por todos os cuidados, mas não foi possível evitar a perda do pé. Conforme a assessoria, o dano poderia ter sido mais grave (amputação de toda a perna) ou antecipado se a assistência não tivesse sido empregada. A promessa de Geraldo de Sousa é de cuidar mais dos membros.

Uma unha encravada fez com que o vendedor Voltaire Cesário, 69 anos, diabético há 35 anos, desenvolvesse uma complicação e perdes­se um dedo no pé esquerdo. Em uma pequena reforma em casa, ficou sem sapatos fechado um dia. Foi o suficiente para o aparecimento de infecção no mes­mo pé. Mesmo procurando socorro rápido, não teve jeito. Mais um dedo foi retirado. “Tenho isso como escola para mim porque descuidei. Foi só um dia, mas descuidei. É preciso mui­to cuidado com o pé diabético”, destaca. Para ele, dois fatores contaram para o bom resultado de sua cirurgia – as técnicas médicas e a fé que tem em Deus. Dois meses depois da segunda cirurgia, Voltaire teve de voltar ao hospital para retirar mais um dedo do pé que estava com necrose.

Túlio Navarro observa que a prevenção é o melhor tratamento para quem tem o problema e para se evitarem amputações. Segundo ele, se fossem adotados programas preventivos no atendimento primário ao paciente, seria possível evitar o aparecimento de úlceras e gangrenas em um percentual entre 50% e 85% dos diabéticos.

Tratamento

Atenção primária

- Centros de saúde e serviços em hospitais como a Santa Casa

Como evitar complicações

- Ter bom controle glicêmico
- Comprar calçados à tarde, quando o pé está inchado, para adquirir o número adequado
- Cortar as unhas de modo que fiquem retas
- Não tirar cutícula
- Enxugar bem entre os dedos
- Passar hidratante nos pés, mas não entre os dedos
- Não usar sapatos de bico fino
- Não usar sapatos abertos
- Se tiver deformidades nos pés, como calos, mandar fazer o sapato
- Avisar ao médico se sentir qualquer anormalidade nos pés e pernas, como formigamento, dores, queimação, pontadas e câimbras
- Ir ao médico imediatamente se aparecer feridas nos pés

Fontes: Médicos Túlio Navarro e Maria Regina Calsolari

Pé diabético

Pacientes com a doença

- Entre 20% e 25% dos diabéticos
- 50% (se tiverem a doença há mais de 25 anos)

Taxa de amputação

- Métodos tradicionais: entre 10% e 40%
- Novos métodos: 5%

Hospitais da rede pública que aplicam o novo tratamento em BH

- Hospital das Clínicas
- Hospital Odilon Behrens
- Hospital Risoleta Tolentino Neves

Pacientes com diabetes podem de­senvolver o pé diabético por dois fatores – o neurológico e o vascular. Segundo a coordenadora do De­par­tamento de Endocrinologia da Santa Casa de Belo Horizonte, Maria Regina Calsolari, o neurológico é provocado pela glicose alta e leva à  insensibilidade nos pés. Assim, a pessoa pode se machucar e não perceber, desenvolvendo ferimentos maiores e gangrena. O fator vascular está ligado à má circulação, que pode ser um problema do indivíduo ou algo desenvolvido com a idade. Quanto maior o tempo de doença, maior o risco de a pessoa ter os dois problemas associados.

Fontes: ­Médicos Túlio Navarro e Maria Regina Calsolari


 
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