O câncer de mama é o tumor mais comum entre as mulheres. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a cada ano surjam cerca de 1 milhão de casos. Só o Brasil registra 48 mil novas ocorrências e 10 mil óbitos anualmente, conforme dados do Ministério da Saúde. Mas o aspecto mais preocupante é que, ao contrário do que acontece em países desenvolvidos, os níveis de incidência e mortalidade aumentam por aqui. Levantamento feito pelo Hospital do Câncer, em São Paulo, aponta que, até 2003, o número de mulheres diagnosticadas com tumor nas mamas era de 5% a 7% do total de pacientes. Em 2004, o índice subiu para 17%.
“No Brasil, as mulheres de baixa renda têm mais dificuldade de acesso aos métodos de detecção precoce, como a mamografia, e ao tratamento cirúrgico, quimioterápico e medicamentoso”, justifica o oncologista André Murad, coordenador do Serviço de Oncologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Centro Avançado de Tratamento Oncológico (Cenatron) do Hospital Lifecenter. Outros fatores que colocam o câncer de mama no topo da lista são obesidade, sedentarismo, dieta rica em gordura e proteína animais, consumo de bebidas alcoólicas, menstruação precoce e menopausa tardia. “A terapia de reposição hormonal também é um fator de risco considerável para o surgimento da doença. Os EUA registraram redução de 7% no número de casos depois que os médicos reforçaram a relação desse tratamento com a incidência do tumor”, afirma Murad.
Se houve avanço da doença, há boas notícias no que diz respeito ao tratamento. “A maior parte dos casos tem cirurgias menos invasivas, evitando a mutilação da mama e o desconforto da paciente”, diz Murad. Isso graças à técnica do linfonodo sentinela, que propicia a avaliação de apenas um gânglio linfático, evitando a dissecação cirúrgica da axila; e o uso da quimioterapia pré-operatória ou neoadjuvante, que reduz tumores grandes. Também já é possível avaliar o perfil genético dos tumores por meio da biologia molecular e planejar o tratamento individualmente. Segundo Murad, “a técnica permite determinar com precisão as pacientes que mais se beneficiam da quimioterapia adjuvante ou complementar e em quais o tratamento é desnecessário, evitando o uso indevido e os efeitos colaterais”.
Os medicamentos inteligentes (também chamados de alvo-específicos) são outra boa notícia no avanço dos tratamentos. “O mecanismo é totalmente diferente das drogas convencionais, agindo exclusivamente nas células cancerígenas e poupando as normais”, aponta Murad. Dessa forma, a paciente tem alto índice de tolerância à quimioterapia, sem efeitos como queda de cabelo, náuseas e anemia. Um desses remédios é o anticorpo trastuzumabe, que inibe o crescimento de células que passaram pela mutação genética do gene Her2/neu. “Muitas vezes, ele é combinado à terapia tradicional, reduzindo em 30% o nível de mortalidade.”
Por fim, em termos de drogas, o Congresso da Sociedade Americana de Ongologia, realizado em junho, em Chicago (EUA), apresentou a eribulina, droga derivada do extrato natural da esponja marinha Halichondria okadai. “Estudos feitos no Japão, EUA e Europa mostram que ela aumenta em até 25% a expectativa de vida”, diz Murad. A perspectiva é de que o medicamento chegue ao Brasil em 2011.
O combate ao câncer de mama inclui um olhar especial para as pacientes de alto risco – mulheres com predisposição hereditária ou que já tiveram algum tipo de lesão pré-maligna. “O pico de manifestação dos tumores genéticos (15% dos casos) acontece entre os 35 anos e não acima dos 50”, diferencia Murad. Nesses casos, o diagnóstico não é por meio de mamografia, mas sim de exames de identificação de mutação dos genes BRCA-1 e BRCA-2, disponíveis em laboratórios especializados. “Caso haja confirmação, a mulher deve se submeter à cirurgia de retirada do ovário e, em alguns casos, também de remoção das mamas. O procedimento previne em 40% a 50% o tumor”, orienta Murad. Em alguns casos, a paciente poderá vir a utilizar medicamentos quimiopreventivos, como o tamoxifeno e o raloxifeno.