Sexta, 03 de Setembro de 2010
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Esp. Saúde e Estética II

Câncer na mira

No Brasil, são apenas três destas máquinas de radioterapia. Uma delas está em BH e o resultado é uma melhora considerável no tratamento

Texto: Cláudia Rezende | Fotos: Pedro Vilela
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Valéria Marinho, durante radioterapia: tranquilidade após atendimento

O emprego da tecnologia na saúde tem proporcionado avanços significativos para os pacientes. Uma das áreas em que o recurso vem sendo utilizado amplamente é no combate aos diversos tipos de câncer. Exemplo disso é a elekta sy­nergy, máquina utilizada na radioterapia e que permite tratamento preciso para quem necessita. O equipamento hoje ainda é uma raridade. Para se ter ideia, em Minas Gerais, existe apenas um, no hospital Mater Dei. Em todo o país, são três. Isso porque ele é caro (cerca de 2 milhões de dólares, aproximadamente 3,6 milhões de reais), tem custo alto de manutenção e exige profissionais treinados para manuseá-lo.

O investimento, no entanto, va­le a pena, conforme o radioterapeu­ta Ernane Bronzatti, coordenador do Serviço de Radioterapia do Ma­ter Dei, devido aos ganhos que proporciona ao paciente. Vale tanto que o hospital acaba de adquirir um segundo aparelho, que vai começar a operar em agosto. “Nos­sa preocupação em colocar outro equi­pamento no hospital é para que não exista prejuízo ao paciente se um parar de funcionar”, observa. Segundo ele, as duas máquinas tra­tam todos os tipos de câncer com a mesma eficiência. A diferença é que a nova é versão 2010 e a outra está na instituição há dois anos.

Mas o que a elekta synergy tem de tão especial? A resposta vem do médico. “Ela melhora o tratamento em radioterapia, que tem sempre o mesmo tipo de radiação. O que evolui é a forma como se manda a radiação. Com a máquina, vai para lo­cais mais precisos”, diz. Em resumo: a elekta synergy permite que os pro­fissionais possam acertar o al­vo – ou seja, o tumor – com mais exatidão.


Ernane Bronzatti: tratamento amplia índice de cura
Ernane Bronzatti: tratamento amplia índice de cura

Entre as modalidades de tratamento que a máquina disponibiliza está a Image Guided Radiation The­rapy (IGRT) ou a radioterapia guiada por imagem. Com ela, é possível acompanhar o movimento interno do corpo do paciente – por exemplo, o provocado pela respiração – pa­ra mandar a radiação na hora cer­­ta. Isso para evitar que o feixe se desloque na hora em que se dá a movimentação e acabe atingindo partes que não precisam recebê-lo.

Outra possibilidade da máquina é a Intesity-Modulated Radiation The­rapy (IMRT), a radioterapia de intensidade modulada. Esse recur­so faz com que apenas o câncer seja selecionado para receber a radiação. Assim, os órgãos em volta não são atingidos. Por uma rede de computadores, o médico pode sa­ber exatamente onde está o tumor a ser combatido. Ele fica destacado em cor diferente das demais partes do corpo. “Se o tumor for redon­­do, a radiação vai no formato redondo, se for quadrado, vai no quadrado.” Outra modalidade de tratamen­to permitida pela elekta synergy é o Total Skin Irradiation (TSI). É um procedimento aplicado especificamente para um tipo de linfoma que dá na pele, o cutâneo de células T. Com o equipamento, toda a pele do paciente pode receber a radiação.

De acordo com Ernane Bron­zatti, o emprego de tantas técnicas se converte em benefícios importantes aos pacientes. Por exemplo, redução dos efeitos colaterais, já que o grande problema da radioterapia é o de derrubar aquilo que não precisa, ou seja, células saudáveis. Como tem mais precisão, deixa de atingir áreas em perfeito estado. O médico observa que esse avanço já está presente em ou­tros tratamentos e, agora, está chegando à radioterapia. “A quimioterapia já é mais alvo-dirigida.” Outro ganho para o paciente, conforme Bronzatti, é a melhora no índice de terapia. Como o aparelho permite mais precisão, é possível colocar uma dose mais alta no tratamento, ampliando os índices de cura. “Esse é um grande ganho que o equipamento traz, principalmente nos casos de cânceres de mama, de próstata e cranianos”, diz. As ses­sões são feitas em salas inauguradas em 2007, construídas especialmente para o serviço de radioterapia. Segundo o médico, é a sétima construção no mundo feita em aço e chumbo para a finalidade.

Coordenador do Serviço de Oncologia do Mater Dei, Bruno Ferrari, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica Regional Minas Gerais, assinala a importância desses avanços no tratamento oncológico. Segundo ele, a assistência, hoje, é favorecida por métodos diagnósticos mais sensíveis, que permitem a detecção precoce do câncer, por drogas avançadas – mais específicas para cada caso e menos tóxicas – e pelo aten­dimento multidisciplinar. Segundo ele, no processo de combate à doença, a radioterapia é “extremamente importante”. “Há áreas do corpo que não se consegue atingir com medicamentos nem com cirurgia, mas a radioterapia consegue chegar lá”, afirma. Como exemplo, ele cita partes do cérebro, que podem ser tratadas com radiação e sem deixar sequelas.

Ludmila Siqueira: “Nossa visão do paciente não é como um tumor, mas pessoa inteira”
Ludmila Siqueira: “Nossa visão do paciente não é como um tumor, mas pessoa inteira”

A funcionária pública Valéria Pereira Álvares Marinho, 50 anos, fez o tratamento de combate a um câncer de mama inicial na elekta synergy. Ela foi encaminhada para o Mater Dei pelo médico que a atende. “Vim para cá sem saber que tinha esses recursos. Quando cheguei, fiquei impressionada”, conta. Segundo ela, saber que está sendo cuidada com recursos de ponta a deixa mais tranquila. “Nos sentimos melhor com as explicações dos médicos, o atendimento, e ao saber que não vai atingir os órgãos vitais.”

De acordo com a radioterapeuta Ludmila de Oliveira Siqueira, que integra o serviço de Radioterapia do Mater Dei, é perceptível a melhora no ânimo dos pacientes. “Eles chegam apavorados, mas, depois, se acalmam com a conversa, ficam mais tranquilos e seguros com o suporte que vão ter”, afirma. Segundo ela, uma preocupação dos profissionais é oferecer abordagem individualizada e completa para os que precisam de assistência. Para isso, existe equipe multidisciplinar – composta por fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas, por exemplo – para atuar na condução do tratamento. “Nossa visão do paciente não é como um tumor, mas como uma pessoa inteira. Por isso, cada situação é abordada de maneira bem personalizada.”

Segundo Bronzatti, a ideia do serviço é criar uma humanização maior no tratamento do câncer. Al­gumas iniciativas voltadas para is­so – simples, mas que produzem efeito importante – são a colocação de imagens de peixes coloridos nadando na água no teto da sala de radioterapia e música ambiente. Enquanto a pessoa recebe a radiação, pode relaxar um pouco olhando para os desenhos. Além disso, cada paciente tem um cartão. Quando ele chega para a sessão, passa-o em uma máquina iden­tificadora que abre a porta do armário onde está o roupão da pessoa – para que ela se troque enquanto espera – e já avisa o médico de que há alguém.

Dentro das inovações tecnológicas do hospital, está outro equipamento importante, a máquina de bracterapia, única da América Latina. Segundo Bronzatti, ela permite ação também precisa contra tumores, principalmente quando se trata de câncer de próstata. Com agulhas, o tratamento é colocado exatamente nos locais em que é necessário. Segundo o radioterapeuta, o emprego do aparelho evita que o paciente tenha de fazer cirurgia de próstata, o que reduz a taxa de impotência sexual após os procedimentos.

Incidência do câncer

Novos casos em 2010

Belo Horizonte

Homens: 3.500
Mulheres: 4.330

Minas Gerais

Homens: 22.840
Mulheres: 23.790

Brasil

Homens: 236 mil
Mulheres: 553 mil

Cânceres mais comuns:

Homens: Próstata, pulmão e intestino
Mulheres: Mama, intestino, colo do útero e pulmão


 
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