Sexta, 03 de Setembro de 2010
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Esp. Saúde e Estética I

Lazer 50 anos

Este feixe de luz, descoberto em 1960, provocou verdadeira revolução na medicina e em tratamentos estéticos. A outra boa notícia é que muito mais deve vir por aí

Texto: Fernando Torres | Fotos: Pedro Vilela, Wilton Junior/AE, SXC, Arte: Paulo Werner
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Do Blu-ray aos códigos de barra, o laser está presente em várias áreas da vida contemporânea. Na medicina, esse feixe de luz concentrado abrange múltiplas funções, como diagnóstico, monitoramento e tratamento de doenças crônicas, renovação celular, tratamentos estéticos e cirurgias sem cortes, com melhores resultados e efeitos colaterais mínimos. “São inúmeras possibilidades, desde a clínica geral até áreas específicas, a exemplo da dermatologia, cirurgia plástica, oftalmologia, ginecologia e pneumologia”, atesta o cirurgião plástico Claudio Roncatti, da Sociedade Brasileira do Laser em Medicina e Cirurgia.

Criado há exatos 50 anos pelo físico norte-americano Theodore Maiman para ser usado em experiências laboratoriais, o laser entrou na medicina pelas mãos do oftalmologista Charles Campbell, do Instituto de Oftalmologia do Centro Médico Presbiteriano da Columbia, EUA. Em 1961, ele utilizou o feixe de luz para operar um tumor maligno de retina. Por ser mais direcionável, ele provocou menos efeitos colaterais que os métodos tradicionais.


Angela Marçolla: “O laser tem efeito anti-inflamatório no pós cirúrgico”
Angela Marçolla: “O laser tem efeito anti-inflamatório no pós cirúrgico”

De lá pra cá, a tecnologia só se fortaleceu. Uma das principais evoluções aconteceu em 1995, com a difusão dos aparelhos de aplicação fototérmica de baixa e média potência, beneficiando especialmente a dermatologia e a estética. “Com 12 sessões, o laser consegue remover manchas provocadas pelo sol, cicatrizes, marcas de acne, ru­gas e tratar celulite e estrias”, diz a terapeuta estética Angela Mar­çol­la. Como isso é possível? “Ao transformar luz em calor, os raios alteram a estrutura do colágeno, promovendo fotorrejuvescimento e ate­nuando cicatrizes e pequenas lesões”, descreve Roncatti.

Os aparelhos fracionados (fraxel laser) também vieram somar à qualidade dos tratamentos, minimi­zando efeitos como vermelhidão. “A luz penetra em pontos reticulados, mas sem queimar a pele”, diz o cirurgião. Isso significa que o pacien­te pode sair da sessão a laser e ir diretamente para casa ou para o trabalho. Em alguns casos, pode até amenizar as marcas de procedimentos cirúrgicos. “Quando aplica­do uma semana depois da cirurgia, o laser tem efeito anti-inflamatório, impedindo a formação de queloides”, diz Angela.

Paulo Braga: aposentadoria dos óculos depois da cirurgia
Paulo Braga: aposentadoria dos óculos depois da cirurgia

No campo da dermatologia estética, uma das principais aplicações da laserterapia é a depilação. “O laser diodo e de alexandrita, compatíveis com todos os tipos de pele, conseguem por meio do calor destruir a melanina dos bulbos capilares, responsáveis pelo crescimento dos pelos. Isso acontece a partir de cinco sessões”, informa o dermatologista Samuel Taioba. A modelo Na­tália Gui­marães, 25, ex-miss Brasil e atual apresentadora do programa Hoje em Dia, da TV Record, já se submeteu a três sessões de laser nas axilas e pernas e aprovou o resultado. “Os pe­los voltam a crescer com o tempo, mas nascem muito mais fracos. Os das pernas estão praticamente sumin­do”, come­mora. O inconveniente do método é a dor, segundo Natália, maior que a depilação com cera. “Pa­ra driblar o incômodo, uso pomada anestésica 40 minutos antes da sessão”, ensina.

Mesmo sendo um procedimen­to estético, a depilação a laser deve ter acompanhamento e indicação de der­­matologista e ser realizada por um especialista capacitado. Se o apa­relho for mal utilizado, pode provocar queimaduras, manchas e cicatrizes. “Em geral, não há contrandicações, com exceção da área da sobrancelha, pois fica muito próxima ao globo ocular”, diz Taioba.

Natália Guimarães: método usado para depilação
Natália Guimarães: método usado para depilação

Mas nem só da beleza vive o laser. Na oftalmologia, o feixe de luz tem diversas aplicações. A mais co­mum é a cirurgia refrativa, indicada para miopia, hipermetropia e astigmatismo. “Entre cinco a 10 minutos, o laser nivela as camadas da córnea, corrigindo o grau do pacien­te. Dois dias depois, ele já está recuperado e não precisa mais usar óculos”, resume o oftalmologista Luiz Carlos Mo­linari, vice-presiden­te do Departamento de Oftal­mo­lo­gia da Associação Médica de Minas Gerais. Com a evolução dos tratamentos, as cirurgias refrativas es­tão se tornando personalizadas. “O médico faz uma programação no computador específica para cada paciente. É uma grande evolução”, diz Molinari.

Há oito anos, o advogado Paulo Braga, se submeteu à cirurgia refrativa e conseguiu corrigir os cinco graus de miopia e os três de astigmatismo. “Se soubesse que o resultado ia ser tão positivo, teria feito antes”, testemunha. Hoje, aos 45 anos, Braga enxerga perfeitamente e não tem mesmo 8
sintomas de vista cansada da idade. “Até agora não precisei fazer a cirurgia de compen­sação e nem utilizar óculos para leitura”, comemora o advogado.

Ainda na oftalmologia, o laser de argônio realiza a cirurgia de retinopatia diabética, complicação que po­de levar à perda total da visão. O mesmo aparelho também tem indicação para procedimentos de glaucoma. “Nesse caso, o feixe de luz faz um pequeno furo na íris para que o líquido intraocular circule mais facilmente.” Vale ressaltar que vários exames oftalmológicos também utilizam essa tecnologia, como o analisador de fibras nervosas, o topógrafo de papila e o microscópio confocal. O futuro próximo também pre­vê a utilização do laser para remoção de catarata. “O facolaser está em fase avançada de pesquisas e tenho expectativa de que em breve será aprovado para uso de rotina”, antevê Molinari.

Luiz Carlos Molinari: “É uma grande evolução”
Luiz Carlos Molinari: “É uma grande evolução”

Na urologia, o laser é tão poderoso a ponto de fragmentar cálculos renais menores e mais profundos, nos ureteres e rins. “O procedimento é feito por meio do ureteroscópio (espécie de endoscópio), com uma fibra ligada a um gerador de laser”, explica o urologista Rodri­go Quintela, especialista em tratamento de cálculo. Além de usar anestesia peridural, ser minimamente invasiva e não ter necessidade de internação, a cirurgia diminui as pedras a tamanhos microscópicos, evitando a dor durante a eliminação pela urina. Tumores da próstata que interferem na micção da urina (hiperplasia benigna) também podem ser tratados pela laserterapia, diminuindo drasticamente o nível de sangramento. “O laser GreenLight faz a vaporização da próstata, desidratando-a por meio da uretra. Dessa forma, o tamanho da glândula diminui e o paciente volta a urinar normalmente”, diz Quintela. Por ser relativamente nova – existe há três anos – a técnica só está disponível em Brasília e São Paulo.

Em nível experimental no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, a pneumologia também poderá se be­neficiar do laser frio ou terapêutico – de 1º C de temperatura – para tratamento de asma. As pesquisas indicam que os raios de luz podem auxiliar na regulação das substâncias inflamatórias do sistema imunológico. Isso poderá melhorar a qualidade de vida dos pacientes, com a diminuição das crises de fal­ta de ar e a redução do uso de bombinhas e corticoides. Porém, a So­ciedade Bra­sileira de Pneumologia e Tisio­lo­gia alerta: o laser para tratamento da asma ainda carece de comprovação científica e não é recomendado como tratamento de pri­meira linha. Os pacientes esperam com muita expectativa para se livrar dos inconvenientes da doen­ça. Se o aparelho for aprovado, será apenas mais uma das maravilhas do laser.

Efeitos do laser

- Fototérmico – Transforma a luz em calor, alterando a estrutura do tecido. Muito usado na dermatologia

- Fotoquímico – Modifica a estrutura química dos tecidos, curando doenças, tirando dores e eliminando tumores

- Fotomecânico – A luz se converte em força mecânica que explode os pigmentos. Usada para alteração de manchas e retirada de tatuagens monocromáticas

Fonte: Claudio Roncatti, médico da diretoria executiva da Sociedade Brasileira do Laser

Principais aplicações

- Pele: Atenua rugas, cicatrizes, manchas, vitiligo, varizes, estrias e alguns tipos de tatuagem. Palavra-chave: rejuvenescimento

- Pelos: Destrói os bulbos capilares definitivamente com um mínimo de cinco sessões

- Cabelos: Age como coadjuvante no tratamento para calvície, aumentando a circulação sanguínea e estimulando a produção de colágeno e elastina

- Olhos: Eficaz para a cirurgia refrativa (miopia, hipermetropia e astigmatismo), retinopatia diabética e glaucoma. Também é utilizado para exames de diagnóstico

- Ureteres e rins: Fragmenta microscopicamente cálculos renais em regiões mais profundas

- Próstata: Trata tumores benignos com menos sangramento

- Pulmões: Ainda em nível experimental, regulariza as substâncias do sistema imunológico envolvidas no processo de inflamação.

Em outubro, acontece o 7º Congresso da Sociedade Brasileira do Laser em Medicina e Cirurgia, em São Paulo­­


 
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