Sexta, 03 de Setembro de 2010
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Economia

Negócios da China

O mundo inteiro se rende aos produtos chineses, que há muito ganharam em qualidade, e empresas mineiras seguem a onda aumentando, a cada ano, o mix de produtos importados

Texto: Terezinha Moreira | Fotos: Daniel de Cerqueira, Pedro Vilela, Arte: Paulo Werner
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Você está em Paris, Nova Iorque, Londres, Madri, Roma, Berlim, enfim, em alguma outra cidade e quer comprar presentes para seus familiares e amigos. Claro, a preferência é por itens produzidos no país onde você está. Tarefa fácil, não? Seria, sim, bastante simples antes da invasão dos produtos made in China em todo o mundo. E não estamos falando apenas de bugigangas, mas de produtos de grife também, como Armani, Apple, Prada, Lacoste, Colcci, Ellus, Richards, Ralph Lauren, Nike. Todas estas empresas fabricam seus produtos na China e vendem em boa parte do mundo. As etiquetas trazem o famoso made in China, e, ao contrário do que muita gente pensa, esses produtos não perderam em qua­lidade. Quando o assunto são souvenirs, a situação fica ainda mais complicada. Dificil­men­te você achará miniaturas da torre Eiffel ou da estátua da Liber­da­de que não sejam made in China

Mas esse fenômeno não assolou apenas os mercados de outros países. A China tornou-se excelente op­ção de produção para muitas empre­sas brasileiras de diversos segmentos, que importam produtos com especificações técnicas que atendem à sua demanda e à legislação brasileira. A importação de produtos para serem etiquetados no Brasil é uma prática comum no país há vários anos e é uma operação que vem ganhando terreno por aqui. Tudo isto devido aos vários pontos favoráveis da China, por exemplo, trabalhar sete dias por semana. “Isso faz muita diferença de dias a mais de trabalho em um ano”, observa a gerente executiva de Ne­go­ciações Internacionais da Con­fe­de­ração Nacional da Indústria (CNI), Soraya Rosar. Ela enumera ainda, como vantagens dos produtos chineses, o câmbio controlado pelo governo e a mão de obra, que ainda é mais barata do que no Ocidente, embora esta realidade esteja mudando em algumas cidades maiores, como Xangai, à medida que os produtos ficam mais sofisticados.

Todas estas vantagens atraíram a Suggar Eletrodomésticos, que há quatro anos importa produtos made in China. “Só me arrependo de não ter iniciado as importações antes porque meus concorrentes as começaram mais cedo”, lamenta o presiden­te da empresa, Lúcio Costa. Além das vantagens comerciais, o empresário afirma que os produtos importados são todos de origem tecnológica europeia e norte-americana. “Não compramos apenas produtos, compramos tecnologia também, que vem embutida, e isso significa grande economia de custos com pesquisas, design, equipamentos, moldes e máquinas”, salienta Costa. O único trabalho da empresa com os produtos chineses é o envio das embalagens, manual de instrução, código de barras e relação das assistências técnicas autorizadas. Como forma de garantir a qualidade dos produtos que importa, a Suggar mantém seis funcionários naquele país, que conferem, fiscalizam, auditam e testam os produtos. “É uma economia violenta de tempo e de capital de investimento”, atesta Lúcio Costa.

Até abril do ano passado, o empresário conta que importava 66 produtos e agora, são 151, ou seja, 64% dos negócios da Suggar. “Lamento não criar mais empregos para os brasileiros, mas acho que isso é temporário, pois os trabalhadores chineses estão começando a reivindicar melhores condições de trabalho e salários. No entanto, creio que a reviravolta por lá seja mais difícil por causa do regime comunista”, opina Lúcio Costa. Pode até ser que leve um bom tempo para a realidade trabalhista da China mudar radicalmente, mas até lá, será fato que o país já terá se agigantado ainda mais no mercado mundial com seus produtos. “Os chineses fizeram um programa parecido com o do Japão no pós-guerra: importavam produtos de baixa qualidade, faziam cópias de má qualidade. Mas a China tem saído des­sa realidade e está não só copian­do produtos, mas agregando valor”, observa Soraya Rosar. Ela diz que a China tem forte classe média, grupo enorme de milionários, o que faz muita diferença, pois as exigências em termos de qualidade, por estes consumidores, são bem maiores.


Lúcio Costa: “Só me arrependo de não ter iniciado as importações antes”
Lúcio Costa: “Só me arrependo de não ter iniciado as importações antes”

A opção por produtos de ponta, com maior valor agregado, fez com que a China transferisse para Vietnã e Malásia a produção de itens de menor valor e, consequentemente, de qualidade inferior. Mas isso não foi sempre assim. A China, assim como os Tigres Asiáticos, passou pelas mesmas fases de crescimento em momentos e velocidades diferentes. Os Tigres Asiáticos e o Japão iniciaram os investimentos na China antes de o resto do mundo voltar os olhos para aquele país. Hong-Kong, Japão e Taiwan passaram pela mesma condição da China, com produtos de qualidade duvidosa, mas já superaram esta fase. “Hoje, todos esses países são referência no mun­do em tecnologia”, observa o especialista em estratégia, marketing e novos negócios, Jony Lan.

Além de ser responsável por bons produtos a China ainda mantém fatores competitivos, como os subsídios do governo e o estímulo à exportação. Outro fator que chama a atenção é o forte investimento do governo chinês na educação. Por isto, a gerente executiva de Negociações In­ternacionais da CNI aposta que a abertura da China para o comércio exterior veio para ficar. “A tendência é de que os chineses sofistiquem cada vez mais sua participação no comércio internacional”, opina Soraya Rosar. Se não é possível competir com os chineses, a opção de algumas empresas foi mesmo unir-se a eles. A Loja Elétrica resolveu iniciar importações daquele país há dez anos. De acordo com o gerente de vendas da empresa, Herbert Go­mes Pá­dua, foi estabelecida parceria com a SBV Group, da China, que desenvolve produtos para a companhia mineira. Todos os itens são produzidos por empresas chinesas. “Os produtos são desenvolvidos com as normas técnicas brasileiras e especificações da Loja Elétrica”, diz Pádua.

Hebert Pádua, da Loja Elétrica: “A lucratividade é alta”
Hebert Pádua, da Loja Elétrica: “A lucratividade é alta”

Ao todo, 400, dos 30 mil itens comercializados pela Loja Elétrica, com sua marca, são produzidos na China. Incluindo os custos de importação, os produtos comprados lá ficam de 30% a 40% mais baratos do que se fossem produzidos no Brasil. A SBV Group mantém pessoal na China, responsável pela inspeção e controle de qualidade dos produtos. Os itens representam 1,5% do to­tal do faturamento da empresa. “Pode até parecer pouco, mas a lucrativida­de é alta”, garante Pádua. Devido às vantagens oferecidas pelas mercadorias chinesas, a tendência, segun­do ele, é de aumentar as importações.

Os produtos chineses também conquistaram a Tambasa Atacadista, que negocia com o país desde 1995, com a importação de ferragens e ferramentas, totalizando 350 produtos. Segundo o diretor comercial da empresa, Gerson Bartolomeu Filho, a op­ção foi por causa do menor preço. “Mas, observamos ao longo desse tempo, a melhora na qualidade dos produtos chineses”, ressalta. A opção da Tambasa foi também uma forma de a empresa reduzir os espaços para seus concorrentes. Gerson diz que, por todas as vantagens dos produtos chineses, a tendência é de que a empresa aumente o mix de produtos vindos daquele país.

Gerson Bartolomeu: opção pelo preço, mas vê melhora na qualidade dos produtos
Gerson Bartolomeu: opção pelo preço, mas vê melhora na qualidade dos produtos

São opções assim que fazem com que tudo na China tenha grandes proporções. Jony Lan diz que o que é construído lá é gigantesco, não por exagero da política comunista, mas pela visão de que o país continuará crescendo. “Enquanto o Brasil sofre com o sucateamento do transporte baseado em rodovias, a China expande linhas de metrôs, trens e portos. Tudo isso torna o país atrativo ao investimento e faz com que a produção mundial se aloque lá. A consequência disso nós já sabemos: crescimento contínuo e mais rápido do que qualquer outro país”, pondera. E isto não está ocorrendo gratuitamente. Segundo Lan, a China tem investido muito nos últimos anos no desenvolvimento do consumo interno, o que a tornará ainda mais forte economicamente. Além disso, o país é um dos maiores fornecedores de produtos industrializados. Em outras palavras, a China tem mercado interno e externo em abundância. O avanço dos chineses na exportação somente poderá ser contido se algum outro país conseguir se tornar economicamente mais viável e, ao mesmo tempo, ter mão de obra barata, infraestrutura, tecnologia própria e mercado consumidor. “Se não aparecer nenhum concorrente com estas características, a China continuará despontando como meca de fornecimento de produtos no mundo por no mínimo, mais 10 anos, sem tendência de mudança no longo prazo”, finaliza Jony Lan.

Participação da China nas importações brasileiras

- 2000: 2,19% do mercado
- 1º trimestre 2009: 12,84%
- 1º trimestre 2010: 13,71%

A China é o segundo maior fornecedor do Brasil. É superada apenas pelos Estados Unidos, cuja participação nas compras externas brasileiras é de 14,8%


Fonte: CNI


 
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