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CapaSinal de AlertaApesar de o AVC ser a doença que mais mata no Brasil, população desconhece os sintomas e hospitais carecem de equipes treinadas e unidades exclusivas
Texto: Márcia Queirós | Fotos: Daniel de Cerqueira, Nélio Rodrigues, Sidney Trovão e Victor Schwaner Arte: Paulo Werner
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Apesar do grande contingente de mortos ou com deficiências, o AVC ainda é negligenciado no Brasil. “O problema começa na população, que desconhece os sintomas. Devido a campanhas ao longo dos anos, a maioria sabe identificar sinais de infarto, como dor no peito irradiada para o braço, mas desconhece os do AVC”, compara o neurologista Romeu Vale Sant’Anna, vice-presidente da Sociedade Mineira de Neurologia. Segundo ele, pesquisas revelam que nove entre dez brasileiros não sabem como se manifesta o derrame. |
Derrame Cerebral, AVC ou AVE (Acidente Vascular Encefálico)O que é? A doença consiste na perda rápida da função neurológica provocada pelo entupimento (isquemia) ou rompimento de vasos sanguíneos cerebrais (hemorragia) Tipos de AVC Isquêmico Acontece em função da falta de circulação sanguínea em determinadas áreas do cérebro devido à obstrução vascular 85% dos AVCs são isquêmicos Hemorrágico Ocorre devido à ruptura de um vaso provocando sangramento no cérebro 15% dos AVCs são hemorrágico |
Conhecer os sintomas do AVC (veja quadro na página seguinte) é o primeiro passo para que o paciente escape com vida. “Quanto mais ágil o socorro e a assistência médica, menores as chances de morte e sequelas”, alerta o médico. No caso de AVC isquêmico – causado pela falta de circulação sanguínea no cérebro devido à obstrução vascular – medicações podem dar resultados, caso sejam ministradas no prazo máximo de quatro horas e meia a partir do início dos sintomas. Sant´Anna defende maior investimento em campanhas educativas entre a população para conhecimento dos sintomas e controle dos fatores de risco (confira quadro ao lado). Portadora de hipertensão, uma das principais causas de AVC, a médica e professora da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em Botucatu, no interior de São Paulo, Ana Glória Pontes, 58 anos, atribui sua recuperação ao socorro rápido. Ela dava aulas no curso de medicina, quando sentiu dormência, tremor na face e nos lábios. “Os alunos passaram a não entender o que eu falava, percebendo que eu não estava bem, e me levaram imediatamente para o Hospital das Clínicas, dentro da universidade, onde diagnosticaram a doença”, conta Ana Glória. Ela lamenta que nem todos costumam ter a mesma sorte, devido à distância das unidades de saúde, falta de conhecimento sobre os sintomas e demora para a chegada do socorro. Outro problema que faz engrossar o número de mortes e pacientes com sequelas é a carência de equipes treinadas para atender pessoas com AVC nos setores de emergência . “Muitos doentes chegam ao pronto-atendimento, principalmente nos hospitais públicos, e não existem profissionais habilitados para identificar o AVC. Ficam horas na sala de espera. Não recebem tratamento na fase aguda para desobstrução dos vasos, agravando o quadro”, denuncia Sheila Martins. No Brasil, de acordo com ela, apenas 61 hospitais são organizados com equipes treinadas e protocolos específicos para atendimento aos pacientes com AVC, sendo 31 deles públicos. |
A professora universitária aposentada Lilavate Izapovitz Romanalli, 63 anos, foi vítima dessa falta de capacitação hospitalar. Em 2006, depois de se sentir mal durante a prática de escalada na serra do Cipó, ela foi levada para um hospital público em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Senti uma dor violenta, como se tivesse um vulcão na minha cabeça. No hospital, fizeram apenas exame clínico, me deram um remédio para enxaqueca e pressão alta. Depois fui liberada a voltar para casa”, lembra Lilavate. O problema se agravou à noite, quando ela perdeu o controle motor e decidiu procurar socorro, pela manhã, no Hospital Biocor, em Nova Lima. “Lá, por meio do exame de tomografia, constataram que eu havia sofrido o AVC hemorrágico. Fui transferida imediatamente para UTI, onde me submeti à cirurgia. Devo a minha recuperação à proteção espiritual, pois se dependesse do primeiro atendimento não teria a mesma sorte”, acredita a professora. |
Principais Sintomas
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Mas, se a assistência é precária hoje, já foi muito pior há dois anos, quando a Rede Brasil iniciou a luta para implantação do atendimento exclusivo aos doentes de AVC em unidades de saúde. “Das 69 instituições hospitalares visitadas em 2008, encontramos apenas 35 com centros organizados, 14 delas públicos”, compara Sheila. Em Belo Horizonte, com população de mais de 2 milhões de habitantes, dois hospitais – o Risoleta Neves e o Odilon Bherens –, ambos da rede pública, possuem alas exclusivas para pacientes com AVC. A iniciativa de criar essas unidades partiu de um grupo de médicos dos dois hospitais, entre eles Romeu Vale Sant’Anna. Ele ressalta que ter unidades específicas para doentes de AVC não é uma exigência dos órgãos que regulamentam os serviços de saúde, mas estudos realizados a partir de 2003 e experiências implantadas em outros países apontam a importância dessas unidades para recuperação dos pacientes, redução dos custos com medicamentos e gastos da previdência. “Começamos a perceber o grande volume de pacientes com o problema e a necessidade de cuidados especiais. O AVC é uma doença prevalente, grave, em que os pacientes precisam de atenção multidisciplinar para recuperação total”, enumera Sant´Anna. Nas unidades, além de clínico, neurologista e técnicos de enfermagem, os pacientes contam com fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais. |
Sheila Martins também reforça a importância dessas unidades, comuns em países de Primeiro Mundo, mas ainda longe da realidade brasileira. “São importantes UTIs só para pacientes com AVC. O controle da pressão, da glicose e da temperatura deve ser mais rigoroso. A febre, por exemplo, não pode subir para evitar a pressão no cérebro. Às vezes é necessário retirar a calota craniana”, alerta Sheila Martins. Cuidados como esses colaboraram para que a médica Magali Luzia, que abre essa reportagem, conseguisse escapar com vida do AVC hemorrágico provocado pelo rompimento de uma das artérias (aneurisma). Magali, que é clínica geral, sofreu um AVC em 8 de outubro de 8 2009, quando atendia um paciente no setor de emergência do Hospital Felício Rocho, onde trabalha também o marido, o cardiologista Fábio Ávila Tofani. “Tive uma dor de cabeça forte e súbita e só me lembro de ter pedido ao paciente para chamar meu marido. Depois não me recordo de mais nada”, conta Magali que, por ter se sentido mal em uma emergência médica, teve socorro imediato. Depois de diagnosticado o AVC, ela passou 23 dias inconsciente na UTI. |
Fábio Ávila conta ter permanecido em vigília ao lado da mulher na UTI, onde, junto a colegas da unidade, colocou em prática todos os cuidados possíveis para a recuperação de um paciente de AVC. Um dos momentos mais difíceis foi quando Magali apresentou sinais de morte cerebral, e o único recurso era retirar a calota craniana para reduzir a pressão e inchaço no cérebro, fazendo com que o sangue voltasse a circular normalmente na região. “O procedimento exige ação e diagnóstico rápidos. Tivemos dez minutos para decidir. Depois da cirurgia, a pressão intracraniana caiu”, lembra o médico. No procedimento, os ossos do crânio são colocados no abdome, por meio de outra cirurgia, e, depois, recolocados na cabeça. Para conter a febre da mulher, Fábio usou até bolsas de gelo compradas na delicatessen de um posto de combustível. “A temperatura dela chegou a mais de 40 graus em uma noite. Pedi ao chefe da UTI permissão e cobri minha mulher com quatro bolsas de gelo”, lembra Fábio. E todos os esforços valeram a pena. “De tudo isso que vivemos acredito que ficou um legado. Quando chega um paciente com AVC nos hospitais, as pessoas acham que ele não terá recuperação ou sairá com sequelas. Mostramos que cuidados como controle rigoroso da febre e da pressão podem ser capazes de colaborar para um melhor desfecho”, diz Fábio. |
Depois de sair da UTI, onde fora acometida também por complicações de saúde como pneumonia e infecções decorrentes da longa permanência no local, Magali passou mais 34 dias internada em um apartamento do Felício Rocho, onde, assim como uma criança, reaprendeu a andar e a falar. “Ela saiu da UTI com o lado esquerdo sem se mover”, lembra Fábio. A reabilitação do paciente vítima do derrame, aliás, é outro capítulo que exige paciência e cuidados especiais. Segundo a fisioterapeuta Maria Sylvia Cardoso Kopke, o tempo de tratamento para reabilitação depende do local e extensão da lesão no cérebro. “No caso de lesões menores, pacientes costumam se reabilitar em poucos meses, mas os mais graves chegam a exigir três anos ou mais de acompanhamento. Enquanto houver sequela, é necessário tratamento”, diz a fisioterapeuta, lembrando que o trabalho é interdisciplinar, exigindo também a participação de profissionais como psicólogos e terapeutas ocupacionais. |
A dona de casa Danielle Vias Lages, 26 anos, sabe muito bem o que é essa luta para voltar à ativa. Aos 21, ela sofreu um AVC isquêmico quando fazia exercícios na academia de ginástica. Depois de passar 15 dias em coma na UTI do hospital, acordou sem andar e falar. “Foram dois anos de luta para reabilitação, com muita fisioterapia. Passei muito tempo dependendo da ajuda das pessoas. Hoje, manco um pouco, minha fala às vezes altera e meu braço direito não mexe nada, mas aprendi a usar o outro lado. Faço trabalho doméstico com a mão esquerda sem ajuda de ninguém”, comemora a moça, hoje no segundo casamento e se preparando para engravidar. O leiloeiro Marco Antônio Ferreira Lopes, 55 anos, dono do Palácio dos Leilões, em Belo Horizonte, também trava uma batalha para se reabilitar. Atleta e com hábitos de alimentação saudáveis, Lopes surpreendeu a família e os amigos ao sofrer um ataque isquêmico quando jogava peteca. “Corremos com o Marco imediatamente para o hospital. Ele passou o Natal na UTI, perdeu a fala e os movimentos do lado”, conta a mulher, Luciene Amantéa Ferreira. Hoje o leiloeiro retorna à vida normal. Há sete meses, faz duas horas diárias de fonoaudiologia e outras duas de fisioterapia, além de hidroterapia e terapia ocupacional. Esta última para reaprender a usar a mão direita. “Quero ficar sem nenhuma sequela”, revela Lopes.“Ele já voltou a trabalhar. Aos poucos a fala está voltando cada vez mais clara. Os dedos da mão direita também voltam a se mexer. Não demora ele volta a praticar peteca”, espera a mulher Luciene. |
Fatores de Risco
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