Sexta, 03 de Setembro de 2010
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Respostas no Santa Matilde

Bairro de Ribeirão das Neves onde o goleiro Bruno passou a infância e adolescência vira centro de atenção da imprensa por alguns dias na busca por elementos que possam explicar, de uma forma ou de outra, o crime pelo qual o antigo arqueiro do Flamengo é acusado

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela/ Felipe O'neill/Agência o Dia/ AE
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Bairro Santa Matilde, em Ribeirão das Neves: atração à imprensa

A vida parecia que não tinha sido boa com ele. Abandonado pelos pais, criado pela avó naquele ajuntamento árido de casebres em ruelas íngremes, sem perspectivas de sobressair-se. Mas havia campo de futebol no meio do morro. Cresceu ali, na disputa com outros meninos, venceu, agarrou a bola da vez, ocupou seu espaço neste campo iluminado, como tantos sonham e poucos conseguem. Tornou-se goleiro de grande clube, ganhou dinheiro, fama, o mundo. Sempre voltava ao lugar onde havia se criado, de helicóptero, de carros de luxo. Mas distraiu-se nesta vida tão diferente da infância e enraizada lá, deixou a bola entrar no gol, viu-se envolvido no desaparecimento da sua ex-amante Eliza Sa­mudio, que o acusara de forçá-la a abortar seu filho. Depois preso na penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, a quase 50 quilômetros de distância de sua Ribeirão das Neves, do bairro Santa Matilde, a protetora dos talentos.


Vista do Buracão: primeiros passos para o sucesso do goleiro
Vista do Buracão: primeiros passos para o sucesso do goleiro

Nessa Ribeirão das Neves, lugar em que Bruno Fernandes das Dores de Souza viveu até seis anos atrás e onde a imprensa de todo o país se aportou à procura do que poderia tê-lo levado a se meter em crime tão cruel, como apurado pela polícia, de mandar matar a ex-amante e profanar o corpo. O seu Santa Matilde veio à superfície, ganhou repercussão, virou atração desse episódio macabro.  “Toda hora tem gente na minha porta. Não aguento mais esse assédio”, dizia Lidiane Rodrigues, irmã de Dayanne, casada com Bruno, dois dias após a sua prisão. Mas a porta estava aberta a quem quisesse chegar à casa do goleiro, em que ela, grávida, mora com seus quatro filhos, depois da ida de Bruno para o Rio de Janeiro. “Pode entrar, a Lidiane está aí”, anunciava antes Feliciano Rodrigues, morador do Santa Matilde, há 50 anos.
 

Casa onde Bruno Fernandes de Souza morou na infância
Casa onde Bruno Fernandes de Souza morou na infância

Conhece Bruno desde pequeno a correr por aquelas ruelas, no cam­po de futebol natural do Buracão. “Ele é excelente, vinha sempre aqui, mesmo depois que foi para o Fla­mengo. Andava assim igual à gen­te”, contava Feliciano, de bermuda, camiseta, descalço quando guiava  pela vila uma equipe de TV. É, os moradores se dividiam para atender aos jornalistas, levá-los ao Buracão. “O campo é logo ali embaixo. Eu vou com vocês, não precisa ter medo, aqui não há violência”, dizia José Luiz, nosso guia recém-conquistado à frente do boteco, perto da ex-casa do goleiro. Não havia receio em descer pela ladeira e encontrar lá embaixo turma de garotos, alguns que tinham jogado com a camisa do time do 100% de Bruno, com o desenho da morte e os dizeres “Só os fortes prevalecem”, ou a do adversário. “Ele é gente boa”, reforçava Carlos Joaby Bernadino, ao lado de En­derson Soares de Macedo. Os dois jogaram com o goleiro, ali em Ri­bei­rão das Neves, no final do ano, não em times grandes como sonham e ainda não tiveram oportunidade co­mo Bruno, que vivia com eles, passou pelo Cruzeiro, se tornou titular no Atlético, treinou no Corinthians e se firmou como guardião das traves do Flamengo até o início de julho, quando foi parar atrás das grades em Contagem.
 

Camisa do 100%, time de Bruno, com Carlos Joaby e Enderson Soares (ao fundo)
Camisa do 100%, time de Bruno, com Carlos Joaby e Enderson Soares (ao fundo)

Ele, abandonado pelos pais, am­bos transgressores: a mãe Sandra de Cássia de Oliveira tentara matar uma mulher, o pai Maurílio Fer­nan­des de Souza fora acusado de furto. “Aqui não tem violência. Estou chateado porque a imprensa fala que é favela, mas não é, é o bairro Santa Matilde”, afirmava nosso guia José Luiz. Logo agora com a prisão de Bruno, o ídolo do lugar, que dava cestas básicas ao pessoal mais carente. “Ele trazia também bola do Flamengo, era tranquilo”, dizia José Simões Oliveira. Mas há vozes destoantes sobre o atleta, essas no anonimato. “Sempre foi polêmico, arrumava confusões, brigava muito aqui em Neves.” “Vivia envolvido com mulheres, bebida”, afirmava outro. Mesmo depois do casamento com Dayanne, a irmã de Lidiane, em 2004, também criada no Santa Matilde, conhecido, a contragosto de José Luiz, de Favelinha.
 

Garotos jogam futebol: poucos conseguem se sobressair
Garotos jogam futebol: poucos conseguem se sobressair

Veio de lá, conheceu a mãe Sandra num programa de TV em 2006. O pai, que Bruno havia se reencontrado quando tinha 18 anos e já era jogador, morrera em 2002. Mas considerava a avó Estela a verdadeira mãe. Assim viveu no mundo da fama, do dinheiro farto, de entrevistas polêmicas, como a que defendeu o jogador Adriano por ter batido na mulher, até ser envolvido no desaparecimento da ex-modelo e ouvir do povo, quando estava sendo preso, que era burro. “O erro dele foi a incapacidade de tomar decisões acertadas, equilibradas. Nem havia alguém por perto para aconselhá-lo”, diz o psiquiatra forense Martim Vicente Vitova Junqueira. Essa capacidade que vem do berço, da estrutura familiar, da educação, de influências externas, de cenas vistas no dia a dia. “Se o Bruno tivesse isto tomaria outra decisão, não a que está sendo acusado. Pelo que vi, ele tinha pensamento simplório e era até natural agredir mulher, como afirmou na entrevista.”

Foi-se a vida boa, como poucos têm e menos ainda seus vizinhos do Santa Matilde. “Ele exercia fascínio sobre as pessoas, porque a profissão lhe trouxe dinheiro, fama e, consequentemente, poder”, analisa a psicóloga Vânia Maciel. Pas­sou o triunfo vindo da defesa no gol, agora tem que provar inocência, en­frentar outros juízes, lutar para ressurgir, não abandonar os filhos, limpar sua imagem. A Favelinha retornou à normalidade. “Agora já não vem mais ninguém aqui. Graças a Deus”, dizia Lidiane sete dias após a prisão do jogador na porta de sua casa. Esqueceram de lá. O bairro San­ta Matilde segue o seu cotidia­no de sempre, com o campo de futebol no meio do morro a lembrar Bruno Fernandes das Dores Souza.

Da pobreza à riqueza ao presídio

Confira a trajetória de Bruno Fernandes, em 25 anos, da infância no campo do Buracão, em Ribeirão das Neves, gramados de estádios até a Nelson Hungria

- Nasce no dia 23 de dezembro de 1984. Dois anos depois os pais Maurílio Fernandes das Dores de Souza e Sandra Cássia de Oliveira mudam para Teresina, no Piauí, e deixam o filho com a avó paterna Estela Santana Trigueiro

- Aos 12 anos começa a jogar futebol no Venda Nova, tem passagem rápida pelo Cruzeiro, volta a Ribeirão das Neves como treinador de goleiros e depois entra para as divisões de base do Atlético

- Em 2005 torna-se titular no Galo. Sua atuação atrai o fundo de investimentos MSI, ligado ao Corinthians. Treina três meses no time paulista, mas não joga. Época em que reencontra a mãe num programa de TV

- É emprestado ao Flamengo. Firma-se no gol, tem papel decisivo em 2007 e 2009, quando defende pênaltis que garantem a vitória do time rubro-negro no campeonato carioca. O Flamengo compra seus direitos

- Em maio do ano passado, numa festa de jogadores no Rio, tem relações sexuais com a modelo Eliza Samudio, quando ainda era casado com Dayanne Rodrigues, que conheceu na infância e tem duas filhas

- Três meses depois Eliza divulga que está grávida de Bruno Fernandes e entra na Justiça com ação de reconhecimento de paternidade. Em outubro, denuncia à polícia ter sido agredida pelo goleiro

- Em abril deste ano, com o filho de três meses, a modelo pede para fazer o teste de DNA e cobra pensão. Bruno se recusa. Um mês depois, ela liga para a sua advogada Anne Faraco e diz que o goleiro se dispôs e fazer o exame e viajaria com ele para Minas

- Desaparece e a polícia começa a investigar Bruno no final de junho. No início de julho, o menor J.R, de
17 anos, e Sérgio Rosa, primos do goleiro, relatam que Eliza foi mantida em cárcere, espancada, depois sufocada até perder a vida e partes de seu corpo jogados a cães ferozes

- Bruno se entrega à polícia do Rio de Janeiro em 7 de julho. No dia seguinte é transferido para Belo Horizonte e 

- O Flamengo suspende seu contrato. Ele deixa de receber o salário de 200 mil reais por mês. Empresa de material esportivo também rompe contratos de publicidade


 
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