A obesidade, uma pandemia mundial, é o principal objeto de estudos da fisiologista Danusa Dias Soares. Formada em Educação Física, mestre e doutora em Fisiologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ela se dedica a orientar série de pesquisas sobre este fantasma que já atinge 14% da população brasileira. “Até uma década e meia, pensava-se que a gordura era um tecido para armazenar energia. A obesidade hoje é entendida como um processo inflamatório”, alerta a pesquisadora, que defende maior investimento do poder público em aulas de educação física nas escolas e estímulo a uma alimentação mais saudável.
O que as pesquisas avançaram em relação à obesidade?
Não se conhecia tanto do tecido adiposo quanto se conhece hoje. Até uma década e meia, pensava-se que a gordura era um tecido para armazenar energia. A partir de 1994, descobriu-se que o tecido adiposo produzia uma série de substâncias no nosso corpo, entre eles a lepitina, com consequências deletérias para nosso organismo. A obesidade hoje é entendida como um processo inflamatório.
Que substâncias são essas?
Dentre essas substâncias está a proteína PAI -1, que inibe a capacidade fibrinolítica, levando ao surgimento de doenças arterioscleróticas e tromboses. A pessoa fica mais sujeita a formar mais trombos e placas de gorduras, que levam a doenças como infartos e tromboses. Quando engordamos, o tecido adiposo começa a secretar também substâncias do nosso sistema imunológico.
Com o aumento da obesidade entre crianças e jovens, o risco de doenças também aumenta nessa faixa etária?
Oriento uma tese de doutorado na UFMG, sobre as consequências do sobrepeso e obesidade para as crianças e adolescentes. Problemas de saúde que se pensava só apareciam na fase adulta e meia idade, hoje migraram para a infância. Aquilo que se esperava que fosse acontecer quando tivesse 30, 40 anos ou mais está acontecendo aos 12 ,13 anos de idade. Algumas crianças já apresentam o diabetes tipo II, que antes só aparecia depois dos 40.
Como pesquisadora e professora de educação física, o que acha que deve ser feito para conter esse quadro de obesidade?
Nas escolas públicas, por exemplo, o governo diminuiu muito o número de aulas de educação física. Isso reflete na saúde.
Devido à falta de professores ou infraestrutura?
Acho que seja devido à ausência de uma política pública que fossem capazes de mostrar a importância dessa aula. Pensa-se muito a educação física nos aspectos lúdicos, sociais, pedagógicos, a formação do ser humano, que é muito importante, mas, às vezes, negligencia-se o papel da educação física na promoção da saúde também. A pesquisa que oriento na Escola de Medicina mostra que em escolas públicas só as aulas de educação física não foram capazes de conter a obesidade entre as crianças. Nós acompanhamos um grupo de alunos durante um ano.
Na alimentação, qual é o maior vilão da obesidade?
As pessoas, sobretudo as que não querem engordar, preocupam-se muito com a gordura na alimentação. Claro que tem de se preocupar, mas um dos maiores vilões nesse processo inflamatório da obesidade é a sacarose, o açúcar. A dieta com muita sacarose é inflamatória. Nas duas pesquisas que temos em andamento, para induzir a obesidade e o processo inflamatório nos ratos, a gente dá leite condensado. Em nove semanas, nós temos animais obesos e inflamados.