Quarta, 23 de Maio de 2012
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Família

Famílias Incestuosas

O pacto de silêncio é a grande barreira para se revelar os horrores que acontecem em núcleos familiares com a presença de pais abusadores. É uma realidade que não possui números, estatísticas ou rostos

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Alberto Wu, Arte Paulo Werner


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Uma família de classe média baixa moradora da região Noroeste de Belo Ho­rizonte. Sete filhos, o oitavo está a caminho. A mãe tem pouca ascendência sobre o grupo. O pai costuma levá-las ao parquinho. A cena seria corriqueira se não fosse um detalhe cruel: seis das crianças sofreram abuso sexual pelo pai, inclusive a caçula, de 1 ano e 4 meses. Entre as práticas, estava a de enfileirar os filhos nus e jogar-lhes jatos de água fria. Numa outra ponta, fruto de família abastada, está a americana Mackenzie Philips, 49 anos. Em 2009 lançou sua biografia, High on Arrival, contando que manteve, por 10 anos, relações sexuais com o pai, John Philips, líder, nos anos 60, da banda The Mamas & The Papas (é deles o hit Ca­lifórnia Dreamin). Mackenzie foi viciada em drogas, inclusive presa em 2008 por porte de heroína. Chegou a engravidar e abortar do próprio pai.

Ambos os casos, assim como um sem-número de outros, compõem o cenário das chamadas famílias incestuosas, onde impera uma regra: o silêncio. Ao contrário de casos em que pai, mãe, madrasta e padrasto que abusam da prole ou de enteados são denunciados à Jus­tiça pelo cônjuge, nos núcleos incestuosos forma-se pacto em torno do qual se constitui segredo tumular a respeito das relações eróticas estabelecidas.


Raimundo Lippi: feridas que não cicatrizam
Raimundo Lippi: feridas que não cicatrizam

“Muitas vezes não há denúncias porque as crianças são ameaçadas de que algo ruim aconteça, como o provedor ir embora e faltar alimento”, pontua o psiquiatra José Rai­mundo da Silva Lippi, coordenador do Am­bu­latório Es­pe­cial de Aco­lhi­men­to e Tratamento de Famílias Incestuosas (Amefi), do Hospital das Clínicas de BH, que faz abordagem única sobre o tema. “Este tipo de família é tabu e desperta o que chamamos de horror universal. Nelas, predomina o instinto e os membros perderam suas funções.”

Segundo a psicanalista Carolina Nassal Ribeiro, tais comportamentos desviantes trazem possibilidades diversas de danos emocionais para as crianças. Ela frisa a culpa que sentem os filhos. “O primeiro objeto de amor de uma criança é o pai/mãe. Ter o órgão tocado proporciona prazer. Quando crescem é que vão exercer a censura. Pode-se culminar no desenvolvimento de esquizofrenia e abuso de drogas.”

Não é para menos. As meninas são filhas ou amantes? Uma mãe não deveria proteger? E o pai, não é ele que representa a lei, o limite, o sim e o não? Além da definição de papéis estas crianças vão perdendo também a saúde, inclusive a mental. De a­cor­do com Lippi, vítimas de incesto têm o cérebro alterado em sua função e tamanho e observa-se comportamento de repetição.

“Em algum momento da vida esta mãe também foi brutalmente violentada e se uniu a este pai abusador na ilusão de ser amada”

Wolney Lopes, psicólogo especializado em sexologia

Atraso na linguagem e nas funções cognitivas, estresse, encoprese (descontrole dos esfíncteres por razões como medo e ansiedade). A partir da dificuldade em conter as fezes vem a negativa de comer: perda de peso, desnutrição e anemia. Tendência à marginalidade e prostituição são consequências que atingem filhos de famílias incestuosas. As meninas adquirem aparência que os especialistas chamam de vamp em virtude de sexualização precoce. Suicídio. “É preciso romper o silêncio”, aler­ta o psicólogo Wolney Lopes, espe­cializado em sexologia pela Escola de Medicina da USP.

Muitas vezes a própria mãe também não tem identidade, nunca diz não e aceita tudo. Ela somente pariu. Tal pai pode estar agindo por rancor de não ter sido amado no passado. “Pode ser uma retaliação, fazendo alguém sofrer o que ele sofreu”, explica Lopes. São muitas as perguntas e o caminho é tentar com­pre­ender as dinâmicas de cada família. “Em algum momento da vida esta mãe também foi brutalmente violentada e se uniu a este pai abusador na ilusão de ser amada.”

Mais: é preciso entender o incesto não só como violência física, mas do ponto de vista da saúde. Daí necessidade de tratamento. Falar, falar, falar é o primeiro caminho. Não há agressor sem agredido. Objeto de uso, sem vontade própria, quando começam a ser ouvidos – jamais inquiridos – elaborando seus pensamentos e emoções, vêm as primeiras manifestações de consciência sobre a violência: em desenhos, os pais e mães ganham chifres de capetas, órgãos sexuais avantajados. Aparecem figuras eróticas.

“A família vai percebendo sua realidade com outro olhar e cada membro busca se recompor em seus sentimentos, ações, em sua dignidade”, avalia a assistente social e terapeuta familiar Berenice Nascimento Souza. “A dor destas crianças após entrarem em processo terapêutico é a dor da alma. Não sabemos como enfrentarão isto no futuro.” Não há garantias. Surge a revolta: afinal, quem deveria proteger, abusa. De acordo com o psiquiatra Raimundo Lippi, são feridas que não cicatrizam. “Mas podem deixar de estar constantemente infeccionadas.”


 
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