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FamíliaFamílias IncestuosasO pacto de silêncio é a grande barreira para se revelar os horrores que acontecem em núcleos familiares com a presença de pais abusadores. É uma realidade que não possui números, estatísticas ou rostos
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Alberto Wu, Arte Paulo Werner
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“Muitas vezes não há denúncias porque as crianças são ameaçadas de que algo ruim aconteça, como o provedor ir embora e faltar alimento”, pontua o psiquiatra José Raimundo da Silva Lippi, coordenador do Ambulatório Especial de Acolhimento e Tratamento de Famílias Incestuosas (Amefi), do Hospital das Clínicas de BH, que faz abordagem única sobre o tema. “Este tipo de família é tabu e desperta o que chamamos de horror universal. Nelas, predomina o instinto e os membros perderam suas funções.” Segundo a psicanalista Carolina Nassal Ribeiro, tais comportamentos desviantes trazem possibilidades diversas de danos emocionais para as crianças. Ela frisa a culpa que sentem os filhos. “O primeiro objeto de amor de uma criança é o pai/mãe. Ter o órgão tocado proporciona prazer. Quando crescem é que vão exercer a censura. Pode-se culminar no desenvolvimento de esquizofrenia e abuso de drogas.” Não é para menos. As meninas são filhas ou amantes? Uma mãe não deveria proteger? E o pai, não é ele que representa a lei, o limite, o sim e o não? Além da definição de papéis estas crianças vão perdendo também a saúde, inclusive a mental. De acordo com Lippi, vítimas de incesto têm o cérebro alterado em sua função e tamanho e observa-se comportamento de repetição. |
“Em algum momento da vida esta mãe também foi brutalmente violentada e se uniu a este pai abusador na ilusão de ser amada” Wolney Lopes, psicólogo especializado em sexologia |
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Atraso na linguagem e nas funções cognitivas, estresse, encoprese (descontrole dos esfíncteres por razões como medo e ansiedade). A partir da dificuldade em conter as fezes vem a negativa de comer: perda de peso, desnutrição e anemia. Tendência à marginalidade e prostituição são consequências que atingem filhos de famílias incestuosas. As meninas adquirem aparência que os especialistas chamam de vamp em virtude de sexualização precoce. Suicídio. “É preciso romper o silêncio”, alerta o psicólogo Wolney Lopes, especializado em sexologia pela Escola de Medicina da USP. Muitas vezes a própria mãe também não tem identidade, nunca diz não e aceita tudo. Ela somente pariu. Tal pai pode estar agindo por rancor de não ter sido amado no passado. “Pode ser uma retaliação, fazendo alguém sofrer o que ele sofreu”, explica Lopes. São muitas as perguntas e o caminho é tentar compreender as dinâmicas de cada família. “Em algum momento da vida esta mãe também foi brutalmente violentada e se uniu a este pai abusador na ilusão de ser amada.” Mais: é preciso entender o incesto não só como violência física, mas do ponto de vista da saúde. Daí necessidade de tratamento. Falar, falar, falar é o primeiro caminho. Não há agressor sem agredido. Objeto de uso, sem vontade própria, quando começam a ser ouvidos – jamais inquiridos – elaborando seus pensamentos e emoções, vêm as primeiras manifestações de consciência sobre a violência: em desenhos, os pais e mães ganham chifres de capetas, órgãos sexuais avantajados. Aparecem figuras eróticas. “A família vai percebendo sua realidade com outro olhar e cada membro busca se recompor em seus sentimentos, ações, em sua dignidade”, avalia a assistente social e terapeuta familiar Berenice Nascimento Souza. “A dor destas crianças após entrarem em processo terapêutico é a dor da alma. Não sabemos como enfrentarão isto no futuro.” Não há garantias. Surge a revolta: afinal, quem deveria proteger, abusa. De acordo com o psiquiatra Raimundo Lippi, são feridas que não cicatrizam. “Mas podem deixar de estar constantemente infeccionadas.” |