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EconomiaUm Funil no CaminhoO Brasil cresce e o problema reaparece: até quando teremos o desenvolvimento interrompido por falta de investimento em infraestrutura?
Texto: Angelina Petrowska | Fotos: Cristiano Mariz, Daniel de Cerqueira, Robson Fernandjes/ AE Arte: Paulo Werner
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O volume de investimentos em infraestrutura no Brasil caiu de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB), nos anos 70, para 2,1%, na década atual. Nada bom. Entre as consequências, o sucateamento de vários setores agora fortemente pressionados por conta do aquecimento da economia – como o portuário, sempre congestionado nos picos de safra. Para manter o crescimento médio de 5,5% ao ano projetado pelo Governo Federal para a próxima década, o país terá que abrir os cofres e dobrar o volume de recursos aplicados. É o que mostra estudo do banco americano Morgan Stanley ao qual a Viver Brasil teve acesso. Se nada mudar, alerta o documento, em pouco tempo o avanço do PIB será barrado pelos gargalos em portos, ferrovias, aeroportos, rodovias e na fragilidade do setor enérgico. Os ventos que sopraram até agora são bastante animadores. No primeiro trimestre deste ano, a economia brasileira cresceu 2,7% na comparação com o último trimestre de 2009. Com esse resultado, perdemos apenas para a China. Em relação ao mesmo período de 2009, o crescimento bateu na casa dos 9%, maior alta da série histórica registrada pelo IBGE desde 1995. Se continuar assim, até o fim do ano o PIB (soma de todas as riquezas produzidas pelo país) atualizado será de 11,2%. No ano passado, o PIB da China cresceu 8,7% e, no 1º trimestre de 2010, 11,9%. A questão é: o Brasil consegue manter esse ritmo acelerado de crescimento? |
Responsável pelo estudo, o economista Marcelo Carvalho acredita que sim. Desde que haja equilíbrio da equação crescimento x infraestrutura. O diretor do Morgan Stanley reforça que o percentual de 2,1% de investimento público é suficiente apenas para sustentar a infraestrutura já existente (no caso do Brasil, precária), não deixando margem para avanços, o que tem reflexos diretos na economia interna. Boa parte da competitividade dos produtos nacionais, lembra o economista, fica pelo caminho, por causa dos entraves logísticos. O escoamento da produção é um grande problema. Pesquisa rodoviária feita pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) no final do ano passado mostra que apenas 32% das rodovias pavimentadas do Brasil estão em estado considerado ótimo ou bom. Por causa disso, no longo trajeto entre o local de produção e os mercados de consumo ou portos para exportação, boa parte se perde, elevando os custos finais. No Brasil, o custo de transporte corresponde a cerca de 30% do preço dos produtos. Por conta da falta de investimento nos últimos anos, os terminais portuários, por sua vez, não conseguiram acompanhar a expansão da produção nacional. Que o digam as longas filas nos portos no período de pico da safra de soja produzida no Centro-Oeste brasileiro. Sem dragagem dos canais marítimos e sem expansão ou melhoria do acesso terrestre, os portos ficaram sem capacidade de atender à demanda cada vez maior. “A carência de investimentos tem provocado distorções graves para a produção nacional”, diz Marcelo Carvalho. |
Documento elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e encaminhado aos candidatos à Presidência da República mostra a preocupação do setor com a necessidade de elevação dos investimentos em infraestrutura nos próximos anos. Segundo o estudo, a meta de crescer em média 5,5% nos próximos anos exige aumento correspondente na taxa total de investimentos para 22% do PIB. Entre os parceiros do Bric – bloco econômico formado por Brasil, Rússia, Índia e China - o Brasil tem a menor relação de investimento total (público e privado) em relação ao PIB. No ano passado, marcado pela lenta recuperação após a crise econômica mundial, a China registrou taxa de investimento de 43%; a Índia, 34%, e a Rússia, 20%. No Brasil, essa relação havia despencado para 16,7% do PIB -próximo da média dos últimos anos (17%).
“O que foi feito até agora cobre o déficit acumulado, principalmente em transporte e saneamento básico”, avalia o gerente de infraestrutura da CNI, Wagner Cardoso. “É preciso não somente aumentar o volume de recursos públicos, como forma de atrair também a iniciativa privada, mas, principalmente, melhorar a gestão desses recursos”, emenda o empresário. |
Boa parte do investimento previsto está vinculada ao PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na avaliação dos especialistas, o PAC, eventos esportivos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 (que terão o Brasil como sede), além dos aportes necessários para assegurar acesso ao petróleo na camada do pré-sal, serão os impulsionadores de grandes obras – e do desenvolvimento. Só em Minas Gerais, a Confederação Nacional de Transporte lista 61 intervenções que devem ser realizadas a curto e médio prazos, entre elas a ampliação do aeroporto de Confins e do metrô. Pelo planejamento feito pelo BNDES, serão 33 bilhões de reais para melhoria do transporte rodoviário, 29 bilhões para ferrovias, 14 bilhões para o sistema portuário e 92 bilhões para o setor energético. Estratificado por evento, serão 30 bilhões de reais para as Olimpíadas, 105 bilhões para a Copa do Mundo (dos quais seis bilhões direcionados para a construção ou modernização de estádios, com expectativa de geração de 20 mil empregos diretos, além de nove bilhões de reais para ampliação e reforma de aeroportos) e o restante para investimento em infraestrutura urbana. Para o consultor de empresas Geraldo Salomão, todo cuidado é pouco para evitar que o crescimento acelerado da economia nacional não se torne um voo de galinha (ou seja, até levanta do chão, mas o pouso é bem rápido), o que pode resultar em arrefecimento da inflação. “O consumo das famílias está alto por causa do aumento do poder de compra e isso pode levar a uma situação em que não haja produtos e serviços suficientes para atender a uma demanda crescente. Se isso ocorrer, vai gerar inflação porque os produtos disponíveis serão vendidos por preços maiores”, diz o consultor. “Sem estrada para transportar a produção agrícola, por exemplo, a custo compatível, isso leva a aumento de custos, à perda de competitividade. Aí, produtos de outros países chegam aqui com preço mais barato, o que é muito ruim para o nosso mercado”, acrescenta o especialista. |
Na avaliação de Salomão, além do investimento em ferrovias ou estradas, é fundamental aporte maciço de recursos em educação como forma de evitar agravamento de um dos problemas já enfrentados por vários setores: a falta de mão de obra especializada. “Cada percentual de crescimento projetado requer a contratação de milhares de profissionais. Sem os investimentos necessários, o crescimento acelerado pode se tornar um tiro no pé”, alerta. O economista Juliano Lima, professor da Fundação Dom Cabral, considera que o setor público deve ser o direcionador dos investimentos a serem feitos. Lembra que o PAC foi o principal indutor das obras que ajudaram a recuperar o atraso quando o assunto é infraestrutura, mas frisa que a execução das obras não acompanhou a demanda. Das obras previstas na primeira etapa do PAC (de 2007 a 2010), apenas 46% foram concluídas. Na avaliação de Juliano Lima, porém, não adianta o governo federal destinar uma fatia maior do orçamento para novas obras se não houver a eliminação de barreiras como o desperdício de gastos, a falta de marcos regulatórios e a burocracia – apontada, por exemplo, como um dos principais problemas enfrentados para o incremento do setor energético. No governo, esse assunto chegou a render até mesmo a saída da então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, hoje candidata do PV à Presidência da República. Marina sofreu forte pressão da petista Dilma Rousseff, na época ministra da Casa Civil e hoje adversária da candidata verde na briga pelo Palácio do Planalto. Foi acusada de barrar a concessão de licenciamento ambiental para os projetos de construção de usinas hidrelétricas previstos no PAC. Questionado sobre temores de que a economia esteja excessivamente acelerada, sem o devido lastro em infraestrutura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou, recentemente, que ainda há espaço para crescimento. “A minha tese é muito singela: eu não quero que o Brasil fique crescendo no efeito sanfona, num ano cresça 10% e no outro 2%, num ano cresça 11% e no 3%. Se a gente crescer a 5% ou 6% ao ano durante vários anos, de forma sustentável, esse país estará sendo vítima de uma revolução produtiva extraordinária que vai gerar mais venda de jornais, mais emprego para vocês e tudo vai melhorar para nós”. É possível? Bem, a torcida é grande... |
RELAÇÃO PIB/INVESTIMENTO EM INFRAESTRUTURA
Anos 1970 5,4% |
COMPARAÇÃO DA TAXA MÉDIA DE INVESTIMENTO TOTAL (PÚBLICO E PRIVADO) EM RELAÇÃO AO PIB
BRASIL 17% |
PONTOS POSITIVOS PARA INVESTIMENTOS FUTUROS
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INVESTIMENTOS MAPEADOS PELO BNDES |