Quarta, 23 de Maio de 2012
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Cultura

Paparazzi? Desde 1916

Publicações especializadas em tratar da vida de celebridades surgiram lá trás, no início do século 20, nos moldes hollywoodianos

Texto: Raquel Ayres | Fotos: divulgação, Alexandre C. Mota


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Quando Rodolfo Valentino morreu, as edições com fotos do ator se esgotaram

nova Gisele; Ana Paula Junqueira, a musa do jet set se separa do bilionário Johan Eliasch; Adriane corre risco de ter parto prematuro são manchetes das revistas Caras, Istoé Gente e Quem Acontece do mês de junho. Esta última, inclusive, está em pendengas judiciais com a apresentadora Ana Maria Braga (programa Mais Você – Rede Globo). Segundo ela, a matéria que a revista veiculou em 23 de junho a respeito de seu romance com o professor de dança Renato Zóia é mentirosa.

Ah, a vida, das celebridades! Amores secretos e uns nem tanto, roupas de grife, seus hábitos de vida – são presenças constantes nas festas da sociedade, nas primeiras filas das fashion weeks, e ainda vão ao supermercado, carregam os filhos no colo e passeiam com os totós, sempre com bolsinhas Louis Vuitton a tiracolo. Exercitam-se na praia, frequentam teatros e exposições. Em suas cabeças, os cortes e colorações que acabaram de nascer na Europa e foram para Hollywood aportam primeiro. Puro luxo esta vida de estrela. 


Capa da edição nº 262 da Cinearte, publicada em 1931
Capa da edição nº 262 da Cinearte, publicada em 1931

Mas se você acha que a exposição disto tudo é recente, consequência dos 15 minutos de fama que cabe a cada um e da proliferação dos veículos ditos de fofocas, engana-se redondamente. Quem esteve na 5ª Mostra de Cinema de Ouro Preto – Cineop –, em junho, pode saber que vem dos anos 20 a criação de uma das primeiras revistas a tratar da vida dos famosos no Brasil: a Cinearte, editada de 1926 a 1942. “A inspiração é a Photoplay norte-americana (1916), pioneira em perceber o interesse do público pela vida de atores e atrizes e a propagar a cultura do estrelismo. O modelo é Hollywood”, afirma o crítico e doutor em Estudos Cinematográficos pela New York University, João Luiz Vieira.

Sob o comando de Adhemar Gonzaga (criador da companhia de cinema brasileiro, Cinédia, em 1930), Cinearte vai alavancar a produção cinematográfica nacional e internacional e um de seus pilares é a beleza: do corpo, dos trajes, das residências (lembra-lhe algo?).“Ann Harding estava encantadora e sua beleza loura, avaramente escondida pelas lentes das câmeras, contrastava lindamente com vestido de seda turquesa, com gola rendada em forma de V profundo.”Não faltavam fotos de Greta Garbo, de Alda Rios, Cláudio Montenegro e Lelita Rosa, atriz da produção nacional Lábios sem Beijos. Ensaio fotográfico realizado por grandes nomes, como o diretor Edgard Brasil.

Alice Gonzaga: “Não havia moça que não desejasse ser artista de cinema”
Alice Gonzaga: “Não havia moça que não desejasse ser artista de cinema”

Peles impecáveis, cabelos perfeitos. Propagandas do creme Rugol e maquiagem Max Factor (novamente, não lhe parece familiar?).“Roupas e sapatos em detalhes. A Cinearte era uma revista extremamente visual. Apre­sentava os artistas em suas casas e também vestidos para pré-estreias. Numa delas, no cine Marabá, em São Paulo, para o lançamento de um filme da Vera Cruz, as fotos trazem atrizes de vison, como nos Estados Unidos”, comenta Vieira.

Em suas páginas estão a atriz e diretora Carmen Santos de maiô na praia e as primeiras imagens de Oscarito. “Não havia moça que não desejasse ser artista de cinema – como hoje querem ser de TV – e não comprasse Cinearte”, lembra Alice Gonzaga, filha de Adhemar e hoje diretora da Cinédia. “Minha mãe, Didi Viana, que estava come­çando no cinema, recebia média de 2 mil cartas por mês quando aparecia na revista.” Ela lembra que a publicação tanto tinha seção de crítica cinematográfica quanto dedicada a roupas. E quan­do Rodolfo Valentino morreu, seus diretores organizaram uma missa de sétimo dia em homenagem ao astro. “As edições com foto dele saíam da gráfica direto para o lar­go da Carioca e esgotavam logo.” A revista tinha representantes em Hollywood. E dá-lhe fotos de cá e lá.

“É o momento em que se divulga o belo, pois o Brasil está que­rendo acertar o passo com a modernidade”, explica a doutora em História Suzana de Souza Ferreira. E dá-lhe chamadas: Que vestidos! Que ambientes! É verdade que a Cinearte é o primeiro espaço de discussão a respeito do pensamento cinematográfico, “se­ja brasileiro ou demais cinematografias”, lembra Suzana. Mas ao ter o referencial norte-americano co­mo guia, acabou também sendo a tataravó das mídias citadas no início da matéria e aparentada da espanhola !Hola!, da People e de tantas mais, que trazem, tintim por tintim o que queremos e até o que nem queremos tanto saber sobre nossos atores, atrizes, modelos, candidatos a BBBs e um sem-número de célebres preferidos. Basta virar a página seguinte.


 
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