Quarta, 23 de Maio de 2012
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“Ser candidata não passava por minha cabeça”

A candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, está rindo à toa: algumas pesquisas já a apontam na dianteira na corrida pelo Planalto. Repaginada no visual e no trato com as pessoas, ela concedeu entrevista exclusiva à Viver Brasil e falou sobre mulher, vaidade, propostas de governo e reformas

Texto: Márcia Queirós e Terezinha Moreira | Fotos: Daniel de Cerqueira, Nélio Rodrigues, Pedro Vilela


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Presidente ou presidenta? “Isso fica a critério dos brasileiros”, responde a  can­di­­data do PT, Dilma Rous­seff, ao ser indagada sobre como gostaria de ser cha­mada caso venha a ser eleita a primeira chefe de estado do Brasil. Com a imagem renovada, cabelos cortados pelo badalado cabeleireiro Celso Kamura e pele bem tratada, a candidata concedeu entrevista exclusiva à revista Viver Brasil, depois de participar do Conexão Empresarial, evento que reuniu cerca de 350 pessoas em Tiradentes, de 10 a 13 de junho. Embora a figura da candidata nada lembre à da técnica conhecida pela falta de vaidade e de pulso firme, ela faz questão de enfatizar a im­portância do papel de gestora, como ministra chefe da Casa Civil, na condução do governo Lula. E não poupa ataques ao candidato tucano José Serra. “Os projetos ao qual ele (Serra) está prevendo a conti­nuidade, eu fiz. Esse é um motivo muito simples. Eu coordenei todos os projetos principais do governo do presidente Lula. Todos”, diz a candidata.

Qual o peso que Minas Gerais terá na campanha da senhora à Pre­si­dência da República?
A minha campanha reflete a diversidade do Brasil. O peso de Minas Gerais maior sou eu mesma. Eu sou mineira, eu nasci aqui. Eu tenho minhas raízes aqui. Minha mãe mora na Pampulha, em Belo Horizonte, mas está temporariamente em Brasília, por causa da minha campanha.

A popularidade do presidente Lula nunca esteve tão alta. E ele é o prin­cipal cabo eleitoral da senhora. Se ele não estivesse com mais de 80% de aprovação, a se­nho­ra acha que estaria num crescente nas pesquisas, como está acontecendo?
É difícil se discutir um se. Se eu não fosse para o governo, se eu não estivesse onde eu estava... é uma soma de fatos que é a realidade. Não tem como eu discutir o se. Você está falando para eu levantar a hipó­tese de a gente ter fracassado no governo. Mas como é que eu vou fazer isso? Nós ganhamos, fizemos um governo, suei tudo o que eu podia para fazer com que esse governo desse certo. A troco de que eu vou ficar criando para fazer uma imaginação contra mim mesma?

O que a senhora tem de proposta para as mulheres?
Eu não sei se você sabe, mas nós fizemos muitas coisas para as mulheres. Uma das mais importantes foi ter criado a Secretaria Nacional dos Direitos da Mulher e tenho especial atenção à Lei Maria da Penha, que transforma em crime a vio­lên­cia contra a mulher. É algo que a gente tem de não só fazer com que seja aplicada, mas repelir todas as tentativas, e elas exis­tem, de transformar a Lei Maria da Penha numa lei que não é aplicada. Então, uma das coisas em que vou me empenhar é que se aplique a Lei Maria da Penha. Além disso, quando se fala em política social é muito importante focar na mulher. O Bolsa Família, quem recebe é mulher. Por quê? Porque a gente sabe que jamais a mulher vai deixar o dinheiro para outras coisas, que não seja alimentar as crianças. Eu acho que esse papel que a mulher tem na agre­ga­ção da família é algo muito importante, prin­cipalmente em uma sociedade em que se vê certa dissolução dos laços familiares. Se você quer fazer política em favor dos homens e das crianças, atraia a mulher como sua parceira estra­tégica.

Mas pesquisas demonstram que o desempenho da senhora entre as mulheres é baixo.
Não sei se você viu a análise de um mineiro. Você conhece o Marcos Coimbra (diretor do Vox Populi)? O Marcos fala que esta é uma leitura errada da pes­quisa. Ele diz o seguinte: a mulher leva mais tempo para se informar do que o homem, por vários mo­ti­vos e, entre as mulheres informadas eu estou na frente. E, entre as que estão informadas que eu sou candidata, a comparação com o ho­mem da cam­panha mostra que ele está atrás.

Como fazer para ser mais bem-aceita entre as mulheres?
Uai, cada vez informando-as mais e espe­ran­do, porque também a mulher tem direito de não votar em mim. Cá pra nós, vivemos em uma demo­cracia. Eu peço para as mulheres o seguinte: tenho res­pei­to pela posição dela, mas peço a ela para ficar a­ber­ta, escutar meus projetos e minhas propostas.


“A mulher leva mais tempo para se informar do que o homem. Entre as mulheres informadas eu estou na frente”

A participação da mulher brasileira na política é bem pequena, ainda. Isso é cultural ou acon­tece porque elas não gostam do poder?
Eu prefiro achar que é cultural. Mas eu acho que isso vai mudar. Não faz sentido porque o que está mudando na socie­dade, no mundo do trabalho, não mudar no mundo da po­lítica. Esse dado que eu dei hoje (em palestra no Co­ne­xão Empresa­ri­al), que 53% dos empreendedores brasi­leiros são mu­lheres, sabe quanto era antes? Não eram mais de 30%. Então, temos avanços em todas as ativi­dades das mulheres, por que isso não vai se repetir na política?

A senhora e o José Serra prometem conti­nui­dade a alguns projetos do governo Lula. Em que se diferencia do candidato tucano?
Porque os projetos aos quais ele está prevendo a continuidade, eu fiz. Esse é um motivo muito simples. Eu coordenei todos os projetos principais do governo do presidente Lula. Todos. Eu fui cinco anos e meio a ministra-chefe da Casa Civil. Ele está dizendo que vai fazer uma coisa do qual ele foi oposição. Eu estou dizendo que eu vou continuar uma coisa de que eu participei na concepção. É diferente. Eu fiz.

O programa de governo da senhora prevê a criação do ministério das micro, pequenas e médias em­pre­sas. Qual será, na prá­tica, a função desse ministério?
Você sabe que tem um mi­nis­tério do agronegócio, que é o Ministério da Agricultura, tem o do Desen­volvimento Agrário, que é de agricultura familiar. E a agri­cultura familiar deu um salto no Brasil. Por quê? Porque foi focado, dirigido para ela, com políticas olhan­do para as suas ne­ces­sidades. Eu acredito que o pequeno e o microem­pre­endedor precisam tam­bém de uma política focada neles. A mortalidade de empresa pequena é muito alta e os tipos de problemas que elas têm não são os mes­mos. Às vezes, elas mor­rem por absoluta falta de crédito. E não é que sejam más pagadores. Não podem nunca dar um pas­sinho a mais porque não têm nenhum apoio, nenhum suporte. Todos os bancos de pequenos empréstimos no mundo são de baixa inadimplência, ou seja, o pequeno não é mau pagador. Ele não tem é oportunidade e há, pela ex­pe­riência passada no Brasil, uma cultura de que o pequeno não é confiável, de que o micro não é confiável. Mas é o contrário. Se você der oportunidade, ele agarra com as duas mãos. A inadimplência dos mais pobres não é alta. As pessoas são sérias, querem pagar, inclusive, elas querem ter o nome limpo. Então, precisa ter também uma forma de dar o crédito sem querer exigir papelada imensa. Tem de sim­plificar o mé­todo. Outra coisa que eu acho impor­tante é o se­guinte: em alguns casos pode ser feito como é na Itália. Lá, eles geram riqueza imensa nas pe­quenas propriedades ou quase artesanais, na excelência do trabalho. Aqui no Brasil, eles criam arranjos e redes. Como eles são pequenos, passam a ganhar em escala trabalhando em conjunto. Existem mil coisas para se tentar.

Entra governo sai governo, as reformas política e tributária sempre são debatidas, mas nunca saíram efetivamente do papel. Como fazer para aprovar essas reformas, que são necessárias para o desenvolvimento do país?
Todo mundo acha que logo depois da eleição o eleito ou a eleita – no caso, espero que seja a eleita – tem mais credibilidade imediata para fazer essa proposta porque acabou de ser eleito, o Congresso é novo. A­cho que no Brasil, hoje, é possível talvez conseguir que algumas reformas saiam imedia­tamente, como a desoneração dos in­ves­timentos, uma lei para a devolução imediata dos créditos. O que é mais difícil é acabar com a guerra fiscal e unificar os tributos. Por quê? Porque há um con­selho federativo e não tem estado ou município que queira perder. Então, se você não fizer acor­do, e nesse acordo não criar um fundo com­pen­satório, é muito difícil conseguir. Então, tem de saber que se consegue a reforma tri­bu­tária com o Brasil crescendo. Com o Brasil encolhendo nin­guém faz reforma.

O projeto Ficha Limpa, aprovado recentemente, partiu da sociedade. Acredita que só o Con­gresso, sem iniciativa popular, tem interesse em promover a reforma política?
Acho muito complicado que o próprio Congresso re­forme no final de seu mandato, mas no início é possível. Em um determinado momento, pode-se também, propor uma variante constituinte, mas ainda não tenho clareza sobre isso. Como fazer para aprovar? Nós mandamos duas vezes, com finan­ciamento público de campanha. Eu sou a favor de estrita liberdade partidária, de voto em lista. Mas não adianta nada você ser a favor, tem de construir um consenso e ver o que é o consenso possível.

Dilma, no dia da primeira comunhão, com as colegas do Colégio Sion
Dilma, no dia da primeira comunhão, com as colegas do Colégio Sion

O Lula tornou-se uma grande liderança inter­na­cional. A senhora acredita que o Brasil poderá perder a credi­bilidade e o respeito conquistados no exterior?
Depende de como será a política do sucessor do presidente Lula. Se for eu, vou seguir a política externa brasileira, que não é de submissão. Você não faz uma boa política externa falando mal dos menores. Não faz política externa diminuindo a A­mé­rica Latina, não dando importância ao Mercosul, atribuindo à Bolívia certas coisas indevidas. Não se faz assim. Outra questão é a seguinte: não dá para achar que só vale a pena ter relações com os Es­tados Unidos, a União Europeia e o Japão, como era antes. Isso é muito importante que a gente man­tenha, e sempre mantivemos. Aliás, tivemos boas relações com todos eles.

A senhora teve câncer linfático. Já está completamente curada?
Olha, minha filha, a melhor coisa que eu fiz foi descobrir aquilo naquele estágio inicial. Acho que as pessoas todas têm de se prevenir. Ao fazer seus exames, façam exames mais apurados. Eu, então, por causa daquilo, tive um tratamento – e todo tratamento é muito chato – você não tem sintoma. Eu nunca acreditei que tivesse com a doença. Só acreditei que eu estava doente depois que eu tomei a primeira químio. Aí você passa mal por causa de quatro químios e 20 sessões de rádio. Depois disso, eles fizeram todos os exames, aqueles que detectam qualquer possibilidade de célula cancerosa e não tinha nada. Fiz mais quatro exames depois desses e agora passei a fazer só de seis em seis meses. Fisicamente, eu recuperei tudo. Não sei como é para as outras pessoas, mas eu só me senti muito ruim durante a quimioterapia. Só lá que eu me senti muito ruim, passou. O cabelo cresceu. A coisa melhor que me aconteceu foi largar aquela peruca horrorosa.

A senhora mudou o visual recentemente, está mais vaidosa. Sempre foi assim ou é por causa da campanha?
Eu sou cíclica. Depende. Teve época que eu fui, de­pois parei, depois voltei. Todo mundo gosta de se arrumar e tal, mas se eu estou trabalhando mui­to, demais, tem hora que eu não dou tanta impor­tân­cia, mas eu aconselho todo mundo a procurar se vestir, se tratar, faz bem. Eu, às vezes, não faço não, mas eu sei a importância disso.

A senhora era a candidata natural do PT à Pre­sidência ou isso foi sendo construído ao longo destes anos participando do governo Lula?
Eu não construí nada. Eu fui instada  a ser a can­didata. Eu não estava cogitando isso. Às vezes, as coisas não passam em sua cabeça. Nesse caso, eu fui vendo a importância de ser (candidata). E, quando as pessoas con­versam, você conversa, você vai vendo como isso é importante para o Bra­sil, como é que o Brasil precisa dar conti­nui­da­de a este governo do presidente Lula. Havia uma certa naturalidade na minha indicação pelo pre­sidente por conta do que eu sabia do governo.

Qual é a posição da senhora sobre aborto, união civil entre homossexuais e des­crimina­lização da maconha?
Vou começar pela maconha. Eu, atualmente, por conta do crack e por conta do fato de que as coisas são comunicantes, dada ainda a fragilidade do combate ao crack, sou completamente contra a descrimi­na­lização da maconha. Sei perfeitamente que há uma grande diferença entre o crack e a maconha. Agora, acho que o grau de destruição que ele provoca, nós não podemos deixar ne­nhuma brecha. No que se refere ao aborto, eu sempre digo o seguinte: em 62 anos de vida, não conheço nenhuma mulher que gos­tasse e achasse o aborto uma coisa ótima. Todas as pessoas que eu conheci que tinha feito, ou relataram expe­riência, sempre me disseram que entraram cho­rando e saíram chorando. Algumas amigas minhas, inclusive. Eu acho que o aborto, no Brasil, é pre­visto em vários casos. Acho que, nestes casos em que é previsto, é obrigação do estado dar condi­ções para que as mulheres, princi­pal­mente das classes mais des­fa­vorecias, não sejam obrigadas a recorrer a agu­lhas de tricô ou a outros mecanismos. Acho que é uma questão de saú­de pública, não de foro íntimo porque no foro íntimo quem é que vai chegar e falar: ah, eu sou a favor do aborto? Ninguém é. É falso isso. É falso que as mulheres sejam a favor disso. Eu sou a favor da união civil, que é o re­co­nhe­ci­mento dos direitos dos parceiros a re­ce­berem heranças e a todas as questões civis.

Caso eleita, a senhora preferirá ser chamada de presidente ou de presidenta?
Isso eu deixo a seu critério.

Márcia Pontes viveu infância e adolescência com a petista
Márcia Pontes viveu infância e adolescência com a petista

Dilma em Belo Horizonte

Aulas de marxismo, reuniões na casa do bairro São Pedro e outras histórias na época das Alterosas

Dilma Rousseff enche a boca para dizer que é mineira. Não dispensa um doce da terra e sempre deixa escapar o típico uai. Para a oposição, a ênfase em declarar amor às montanhas seria interesse em conquistar votos em Minas, segun­do maior colégio eleitoral do país. Afinal, Dilma deixou Belo Horizonte aos 21 anos e passou a maior parte da vida no Rio Grande do Sul, onde se projetou co­mo gestora pública. A fim de conhecer o lado mineiro da presidenciável, a Viver Brasil ouviu pessoas que conviveram com Dilma em BH, onde nasceu, passou a infância e parte da juventude e despertou sua consciência política.

Filha do empresário búlgaro Pedro Rousseff e da carioca Dilma Jane Silva, criada em Uberaba, Dilminha, como é chamada pelos amigos, nasceu em 14 de dezembro de 1947 em uma família de classe média alta. Cursou o ginasial no Colégio Nossa Senhora de Sion, onde deixou várias amigas, com quem ainda mantém contato. Uma delas é a pedagoga Márcia Machado Pontes, que conviveu com a candidata boa parte da infância. Elas se conheceram na primeira série primária. Juntamente com as amigas Sô­nia Lacerda e Sara Bizoto da Silveira formavam um grupinho inseparável. Márcia e Dilma deixaram de estudar juntas quando a presidenciável foi para o Es­ta­dual Central, e Márcia se transferiu para o Izabela Hendrix. “Mas continuamos amigas”, diz a pedagoga. “Dilma era muito estudiosa, nunca tomou recuperação e, quan­do queríamos estudar de verdade, íamos para a casa dela”, lembra Márcia.

Apolo Heringer: aulas de marxismo para Dilma em BH
Apolo Heringer: aulas de marxismo para Dilma em BH

Outra característica de Dilma, segundo a amiga, é a paixão pela leitura. Gosto este estimulado pelo pai, que mantinha grande biblioteca em casa e, quando a filha tinha 12 anos, fez algo impensável para a época: comprou a coleção completa de Jorge Amado. “Ele tinha a cabeça bem à frente de seu tempo”, ressalta Márcia. “Lembro-me que lia os livros do Jorge Amado, emprestados pela Dilma, escondida da minha mãe. O escritor era  considerado in­decente para a época.” A convivência das duas era diária, sempre iam às festas e fizeram a primeira comunhão juntas. “Era uma relação muito familiar”, diz a pedagoga, que assegura que Dilma era muito séria e nunca foi namoradeira. A solidariedade é outra característica destacada por Márcia Pontes. “Ela é muito afetiva no trato com a gente. Acho que fica com jeito de durona só na televisão”, diverte-se.

Foi no Colégio Estadual Central que Dilma se engajou no movimento estudantil. Médico e coordenador do Projeto Manuelzão, que busca a revitalização da bacia do rio das Velhas, Apolo Heringer conta que conheceu Dilma em 1964. Nessa época, ele tinha 18 anos, era diretor estadual da organização Política Ope­rária (Polop) e Dilma cursava o ginasial. “Dava aulas de marxismo para pessoas recrutadas pela organização. Dilma era uma das alunas”, conta Heringer.

Ratton: reuniões e cerveja com Dilma no Pinguim
Ratton: reuniões e cerveja com Dilma no Pinguim

O ambientalista lembra que as aulas costumavam acontecer na casa dos Rousseff, na rua Major Lopes, no bairro São Pedro, onde conheceu os irmãos dela, Igor e Zana. “Dilma tinha uns 16, 17 anos, uma gracinha, simpática. Eu era apaixonado por ela, mas naquela época era muito tímido”, revela. Mais tarde, Dilma passou a integrar o Comando de Liber­tação Na­cional (Colina), organização dissidente da Polop que trabalhava com a formação política das massas e defendia a guerrilha. “Ela acompanhava o movimento estudantil, mas era mais engajada na militância das organizações de esquerda.  Era uma revolucionária dedicada ao movimento operário, onde dava cursos de marxismo”, lembra o consultor educacional João Batista dos Mares Guia. Ele, que também integrava o Colina, conta que conheceu Dilma no ambiente universitário. Ela cursava Ciên­cias Econômicas na UFMG e ele Sociologia. “Como militante, ela exercia de modo natural um papel proeminente em função da qualificação intelectual, conhecimento de marxismo e domínio da economia política. Um traço de sua personalidade são as convicções fortes e a autoconfiança. Ela tem senso de humor e  jamais é fechada ao diálogo”, afirma.

Mares Guia: “Dilma tem senso de humor e convicções fortes”
Mares Guia: “Dilma tem senso de humor e convicções fortes”

Outro companheiro do Colina, o cine­asta Helvécio Ratton tem como mai­o­­res lembranças de Dilma em BH a inteligência privilegiada, o companheiris­mo e o bom humor. “Estu­dávamos na mesma faculdade, participávamos de reu­niões, às vezes na casa dela, para onde íamos a pé. Depois, tomávamos cerveja no extinto bar Pinguim”, recorda-se Ratton.  Na época, segundo ele, o curso de Economia era predominantemente masculino, mas Dilma não se destacava somente por ser mulher, mas pela inteligência e posições fundamentadas. “Ela ajudava José Aníbal (hoje deputado federal pelo PSDB-SP) nas provas”, lembra.

A professora de História Maria Christina Ro­drigues também foi contemporânea de Dilma no movimen­to estudantil e nas organizações Polop e Colina. “Militávamos pelo retorno da democracia ao Brasil para instalação de um governo que possibilitasse igualdade ao povo brasileiro. A Dilma sempre foi uma pessoa determinada, firme em seus objetivos e de grande tenacidade nas ações”, relembra a amiga.

Neuza Ladeira: companheira de cela e de julgamento
Neuza Ladeira: companheira de cela e de julgamento

A dona de casa, poeta e artista plástica mineira Neuza Ladeira conheceu Dilma na cadeia, no Rio de Janeiro, no início da década de 70. Elas ficaram presas na mesma cela e foram julgadas ao mesmo tempo pela ditadura militar. “Logo que a conheci, achei-a muito carismática”, recorda Neuza, que, com muito bom humor, lembra-se também de um fato ocorrido durante o julgamento. “Eu era muito baixinha e o meu advogado se referiu a mim como esta liliputiana, o que arrancou uma gargalhada de Dilma, que alegrou a todos no tribunal.” Depois que as duas foram soltas, elas se encontraram em Belo Horizonte, na casa da Dilma. “Nos divertimos muito porque estávamos bastante alegres naquele dia”, diz Neuza, para quem a amiga, que hoje disputa o cargo mais importante do país, parecia molequinha e sempre foi uma mulher muito inteligente e perspicaz. Para Heringer, Dilma é muito mais mineira que gaúcha, pois fez toda a sua formação intelectual e política em Minas numa geração que marcou a história do país. “Será uma grande vitória do movimento de 1968 se Dilma for eleita”, diz o antigo guerrilheiro.


 
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