Quarta, 23 de Maio de 2012
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Aventura

No meio do caminho havia uma carroça

Texto: Angélica de Castro | Fotos:


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“O cavalo se assustou com o barulho das motos que vinha em direção contrária e nos avançou. Eu consegui desviar. Ele bateu a cabeça no meu bagageiro, destruindo-o; quando olhei para trás estava meu companheiro e uma menina caídos no chão, um cavalo morto e pedaços de moto por todo lado. Voltei e fiquei chocado com  cena que vi.” 

Assim terminou a travessia do continente africano pelo aventureiro Rodrigo Fiúza, que em abril iniciou a viagem com a meta de chegar à África do Sul para o primeiro jogo da seleção brasileira. E começou outra: conseguir salvar o braço do amigo e cinegrafista Carlos Lima. “Uma van que passou pelo local fez o primeiro transporte dos dois feridos. A garota, que era de uma tribo, teve o pulmão perfurado e Carlos Lima, algumas fraturas expostas. De um vilarejo há 10 km do acidente até Adis Abeba, capital da Etiópia,  foi outra aventura. “As estradas lá são feitas para pessoas e animais andarem. É muito precária e a ambulância ia a 130 km/h buzinando e eu atrás de moto. Quando ela atropelou o burro de uma tribo, o motorista parou. As pessoas gritavam, discutiam em um dialeto local. Eles queriam quebrar a ambulância”, relembra Rodrigo que conseguiu prosseguir viagem após prometer arcar com o animal. Mais dois indígenas subiram na van para garantir que ele cumprisse a promessa.

Em Adis, Fiúza descobriu que não haviam mais recursos do que na vila. Sem atendimento médico, medicamento e material para qualquer procedimento no hospital, Rodrigo precisou buscar profissional em outra região. Enquanto os enfermeiros faziam o atendimento a Carlos, o aventureiro foi levado para a delegacia para prestar esclarecimentos e teve os documentos apreendidos. Nesse meio tempo, Carlos, que perdia sangue há algumas horas, passou por uma cirurgia para colocação dos ossos do antebraço no lugar sem anestesia.

Para que Carlos pudesse voltar ao Brasil onde passou por uma cirurgia para colocação de pinos no braço e na mão, Rodrigo se responsabilizou pelo acidente. Só uma semana depois, com a menina fora de perigo, é que veio a liberação para deixar o país. Não sem antes um julgamento tribal. “Um oficial da lei me acompanhou, mas me avisou que ali ele era apenas o intérprete. Como não entendia o que falavam, acho que fui prejudicado” relembra o aventureiro que foi condenado a pagar uma indenização no valor de 5 mil dólares. 

De volta a Belo Horizonte, Fiúza afirma que o projeto teve êxito, mas diferente do planejado. “Eu soube lidar com a situação, resolver pendências difíceis. Na Etiópia é muito fácil morrer. Qualquer coisa que eu tivesse feito errado… Na África o humano é primitivo, é difícil para ele acompanhar o raciocínio da gente.” Outro choque para Rodrigo é a falta de infraestrutura, alimentos e a pobreza. 

Nos quase 40 dias atravessando o deserto do Saara ele e Cláudio Lima não viram nuvens no céu. “É um ambiente muito inóspito. Às vezes a gente parava e, após rodar por horas, não via nada, ninguém. Na capital do Sudão eu peguei 51 graus Celsius.”  O tempo quente tornou a viagem ainda mais difícil. O equipamento e a roupa utilizados para proteção aumentaram ainda mais a sensação térmica. Outra dificuldade foi a alimentação. Biscoito foi a base alimentar da dupla por ser o único alimento industrializado que encontravam. “A base alimentar dali é pão árabe e feijão e em alguns lugares arroz com carne de cordeiro”. E não há higiene no preparo. Um exemplo disso foi a cena presenciada pelo aventureiro na aduana que fica entre o Sudão e a Etiópia. “Cheguei na hora do almoço e o guarda disse que eu tinha que esperar. Senti-me dentro do filme Diamante de Sangue: guardas com uniformes rasgados, magros, segurando armas. Enquanto conversava com um deles, outro veio com um balde cheio de arroz com carne de cordeiro. Uns 10 guardas avançaram no balde, comendo com a mão.”

Iniciada na Grã-Bretanha, a expedição cruzou 5 países do continente africano: Tunísia, Líbia, Egito, Sudão e Etiópia. O descaso com os direitos humanos marcou todo o trajeto após a travessia do mar Mediterrâneo. Mas nem assim Rodrigo Fiúza desiste das aventuras: “Acho que tenho algo especial. Em todas as expedições, esta foi primeira com um acidente e a primeira acompanhado”, diz Fiúza, que já se prepara para desbravar a Amazônia em 2011.


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