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Personagens
A música está de luto
A cena musical perde, de forma precoce, o saxofonista José Eymard, que se diferenciava não só pelo talento, mas como também pela forma serena e amiga com que levava a vida
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Daniel de Cerqueira, Victor Schwaner
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Algumas frases soam como lugar comum, tipo “ele vai fazer falta”. Mas como não recorrer a ela se é exatamente a impressão que deixa o falecimento do saxofonista José Eymard (filho dos saudosos Elza e o advogado Decio Lopes de Oliveira), no dia 28 de maio, em decorrência de um AVC? Triste como toda morte o é, a de Zeimar, como o próprio irmão Roberto Oliveira o chamava, não seria diferente. Mas para falar deste mineiro que nasceu em Belo Horizonte e passou a infância em Montes Claros, nada de tristezas. Ao que os amigos se referem é sempre sua forte ligação com a música; e mais ainda, seu modo sereno de viver. Era por meio do saxofone que José Eymard expressava toda suavidade de sua personalidade.
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Paulo Ramos: “Ele era uma pessoa diferenciada” |
Primeiro aluno a se inscrever no curso de música da Fundação de Educação Artística, lá nos idos dos anos 80, o rapaz José Eymard começou a estudar flauta doce e violão. Mais tarde passou para o saxofone. “Ele foi se tornando cada vez mais próximo de nós. Começou a dar aulas e não pensava em outra coisa que não fosse a música. Era dedicado”, diz a pianista e diretora da Fundação, Berenice Menegale. “O Zé gostava de tocar. Fosse em shows, bar ou aeroporto, fazia tudo com a mesma disposição.”
Não é exagero dizer que a trajetória musical de José Eymard – que estava prestes a lançar o 3º CD, Duo, ele no sax e piano tocado pelo amigo Clóvis Aguiar – começou por volta dos 8 anos de idade, na Praça Osvaldo Cruz, , em Montes Claros, onde morou num sobrado com a família. Logo ao lado estava o amigo Paulo Ramos, hoje, produtor cultural, 60 anos. “Falávamos pelo telemuro”, brinca Ramos. O assunto: música, música, música. O menino Zé estudava repertório clássico. Na casa de Paulo ouviam-se cantores populares. “Eu tinha uma radiola azul, nela escutávamos bossa nova e Beatles.O álbum Abbey Road, assim como a música O Barquinho, nos uniu. Sempre que saíamos ele estava assobiando esta canção.”
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Berenice Menegale: “O Zé gostava de tocar” |
Para estudar, vieram para Belo Horizonte. A Cantina do Lucas e o bar Saloon, ambos no centro, eram ponto de encontro da chamada Máfia do Pequi, numa alusão ao fruto de Montes Claros. “Falar bem de morto é pleonasmo, mas o Zé era uma pessoa diferenciada, sim”, comenta Ramos. Entre as músicas que tiveram especial significado na amizade de mais de 50 anos estava o samba de Ismael Silva: Antonico. Era também um código que usavam para dizer que alguém precisava de ajuda. E lá ia o Zé ajudar.
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Danusa Soares: “A música do Zé primeiro passava pelo coração |
“Foi uma época de descobertas”, recorda o músico Toninho Horta, também amigo de longa data de Eymard. “Ele era um músico exemplar e deixou legado muito bonito. Seu sax romântico e caloroso fez muita gente se apaixonar.” Bela, penetrante e doce. Assim foi, na opinião de Horta, a música de José Eymard. O repertório instrumental era o que mais os agradava: Tamba Trio, Os Copa 5, solos de sax de Moacir Santos e a flauta de Meireles. De Tom Jobim, a canção Amor em paz. “Éramos felizes tendo o Zé como amigo.”
“O Zé foi meu primeiro professor. E foi a pessoa que melhor me explicou sobre a técnica de tocar”, revela o saxofonista Cléber Alves, graduado pela Universidade de Stuttgart (Alemanha). Conheceram-se na Escola de Música de Minas, de Wagner Tiso e Milton Nascimento, também nos anos 80. Segundo Alves, José Eymard esteve ligado a muitos acontecimentos musicais importantes, a exemplo do projeto musical Fim de Tarde. “O tempo dele era diferente. Sobre esta vida apressada, ele tinha outra visão.”
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José Eymard com o Dj Eduardo Aun: parceria |
Bem o sabe a companheira durante 17 anos, a professora universitária Danusa Dias Soares, mãe do filho de 3 anos do casal, João Soares Oliveira. “A música do Zé primeiro passava pelo coração. Depois pelo sax”, reflete Danusa. Onde quer que estivesse tocando, assim que a mulher entrava, começava As times goes by, tema do filme Casablanca de especial significado para ambos. Romântico, um cavalheiro. Assim Danusa define o marido, com quem, segundo ela, aprendeu a ter com a arte outra relação: a de modo de viver. “Às vezes era difícil ser mulher de músico. Queria ir a uma festa e ele não podia me acompanhar porque trabalhava à noite. Mas o Zé, com sua delicadeza, conseguiu suprir todos estes momentos de ausência. Ensinou-me que precisamos de muito pouco para sermos felizes.”
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