Quarta, 23 de Maio de 2012
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A candidata Dilma Rousseff pode se tornar a primeira mulher a presidir o Brasil, seguindo o mesmo caminho de nossos vizinhos Argentina e Chile

Texto: Flavio Penna | Fotos: Roberto Stuckert


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O Brasil já foi governado por uma mulher. Por três vezes, durante viagens de seu pai, d. Pedro II, a princesa Isabel assumiu a regência do Brasil. Na última, de 1887 a 1888, marcou seu nome na história do país, assinando a Lei Áurea, que acabou com a escravidão. No ano seguinte deixava o solo brasileiro para viver seu exílio, junto com a família, na Europa, onde morreu. De lá para cá fomos governados por marechais, generais, ditadores, democratas, juntas militares, vices que assumiram a Presidência, todos homens. Nunca, nem temporariamente, por uma mulher. Esta história pode mudar a partir do ano que vem. São grandes as chances do país, pela primeira vez, eleger uma mulher para a Presidência da República, como já fizeram, por exemplo, Argentina e Chile.

Para nós, brasileiros, esta questão ainda soa tão estranho que discutimos até mesmo se devemos dizer a presidente ou a presidenta, embora os dicionários registrem as duas formas. Tudo, porém, dependerá da eleita, quando isto acontecer. Cristina Kichner, por exemplo, faz questão de ser a presidenta da Argentina, forma que acha mais feminina. Das mulheres que disputarão as eleições de outubro no Brasil, a com maiores chances de vitória é, sem dúvida, a petista Dilma Rousseff, candidata indicada pelo presidente Lula, que a escolheu pessoalmente, entre vários outros pretendentes, todos homens.

A indicação pode ser até algo emblemática. Depois de um metalúrgico, que representa a ascensão das classes sociais, uma mulher, representando não apenas a maioria de nossa população, mas a conquista de espaço, pelo sexo feminino, na nossa sociedade. Esta pode ser uma visão dos analistas, mas quem conhece de perto a pré-candidata Dilma Rousseff garante que a escolha de Lula foi baseada mesmo na competência. “Eu não tenho a menor dúvida – diz Walfrido Mares Guia, ex-ministro de Lula – que ela é, de longe, a pessoa mais preparada para dirigir o país hoje. Sua vivência na Casa Civil e no comando de programas  importantes do governo também no Ministério de Minas e Energia, deu a ela uma visão total do país.”

A mineira Dilma Vana, filha do búlgaro Pedro Rousseff e da fluminense Dilma Jane Silva, nasceu em Belo Hori­zonte, onde ainda mora parte de sua família. Teve dois irmãos, Igor e Zana Lúcia, que morreu em 1976, e um meio irmão, filho do primeiro casamento de seu pai, Lubner, que viveu e morreu na Bulgária, em 2007. Foi ainda em Belo Horizonte que Dilma se envolveu com política, entrando pa­ra organizações clandestinas que lutavam contra a ditadura militar. Teve atuação destacada até 16 de janeiro de 1970, quando foi presa armada, casualmente, numa operação policial que visava prender outros militantes de esquerda. Condenada, cumpriu sua pena e se afastou das atividades políticas, que só viria retomar em Porto Alegre onde, junto com seu segundo marido, Carlos Araújo, que também participara da resistência, aju­dou a fundar o PDT de Leonel Brizola. “Eu não vou esconder o que eu fui, nem tenho uma avaliação negativa. Tenho visão bastante rea­lista daquele período. Eu tinha 22 anos, o mundo era outro, o Brasil era outro”, diz Dilma sobre sua intensa militância em organizações clandestinas de luta armada.

Economista formada pela Uni­ver­sidade Federal do Rio Grande do Sul – ela foi expulsa da Universidade Federal de Minas Gerais por suas atividades políticas – a hoje pré-candidata a presidente, por sua proximidade com as lideranças pedetistas, acabou se impondo e recebendo convite para ser secretária municipal de Fa­zenda de Porto Alegre, na administração de Alceu Colares. Com ele acabou indo para o governo do estado para ocupar a secretaria de Minas e Energia, cargo em que permaneceu no governo de Olívio Dutra.

Considerada politicamente à esquerda do PDT, Dilma Rousseff se negou a deixar o cargo de secretária, junto com outros companheiros, quando PDT e PT entraram em confronto no Rio Grande do Sul. Continuou secretária e assinou a ficha, tornando-se uma petista em 2001. Foi, já como membro do partido, que ela participou da equipe de transição do presidente Lula, em 2002. Por sua atuação na formulação de proposta para o setor, acabou sendo convidada por ele para o Ministério de Minas e Energia. “Tive a oportunidade de me aproximar dela e, então, de acompanhar mais de perto o espetacular trabalho que desenvolveu naquele ministério, até ser chamada para a Casa Civil”, diz Walfrido Mares Guia.

Walfrido destaca em Dilma administradora em especial a capacidade de buscar resultados. Ela, na Casa Civil, e como coordenadora da PAC, teve papel de coordenação entre os ministérios e foi implacável na cobrança de resultados. Esta atuação firme e até enérgica, em algumas situações, acabou gerando a fama de ser durona e ter gênio difícil que vazou dos ministérios e correu pela imprensa. “Acho interessante o fato de que se uma mulher exerce um cargo com alguma autoridade, sempre é tachada de dura, rígida, dama de ferro ou qualquer outra coisa similar.  Difícil não é meu gênio, é o trabalho que desenvolvo”, rebateu Dilma, certa ocasião.

O ex-ministro do Turismo e da Articulação Política do governo de Lula, Walfrido Mares Guia, discorda dos que acusam Dilma de ser dura, intransigente até no exercício do trabalho de coordenação. Para ele, a ex-ministra é uma pessoa que é firme em suas convicções, mas que tem a virtude de saber ouvir e, se convencida, mudar. “Ela tem a capacidade de pegar as coisas no ar e tem uma visão do todo impressionante. Tem sim suas convicções, mas aceita com naturalidade as ponderações.” No perfil da ex-ministra que escreveu para a revista Época, publicado em dezembro de 2009, quando ela recebeu a indicação de um dos cem brasileiros mais influentes, Fernando Pimentel, que foi seu companheiro de militância armada e hoje é um dos coordenadores de sua campanha eleitoral, realçou exatamente este traço de sua personalidade. “Ela é uma mulher persistente, de muita compe­tência técnica, coragem pessoal e compromissos com o país. Sabe articular ações entre os mais diversos setores da sociedade e tem uma capacidade invulgar de análise e síntese, além de uma grande sensibilidade social.”

Se tem o reconhecimento do presidente Lula, que vê em sua capacidade de gerenciamento um fator extremamente positivo para o governo, e do vice-presidente José Alencar, que enxerga nela um temperamento forte, dedicação e seriedade, a ex-ministra ainda enfrenta algumas desconfianças, até de aliados, devido à pouca experiência política. Mares Guia garante que os que assim pensam estão enganados. “Eu tive a oportunidade de participar de várias reuniões da ministra com os partidos da base de sustentação do presidente Lula. Ela se mostrou extremamente competente nestes contatos, ouvindo com paciência, explicando situações, expondo programas. Ela está perfeitamente preparada politicamente. Afinal, conviveu muito de perto com Lula e isto, convenhamos, equivale a um curso de doutorado. Ela está muito bem preparada para comandar o país”.

 

“Tive a oportunidade de me aproximar dela e acompanhar de perto o espetacular trabalho que desenvolveu no Ministério de Minas e Energia”, Walfrido Mares Guia


 
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