Difícil definir o compositor, letrista, músico e cantor Toquinho em poucas palavras. O que dizer de um artista que é e foi referenciado por gente como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Milton Nascimento, João Bosco, Ivan Lins, Andrea Bocelli e tantos outros feras dos palcos? Ele sagrou seu nome na Bossa Nova e tem produção invejável: em 46 anos de carreira, foram mais de 6 mil shows e 85 discos gravados. O diminutivo restringe-se apenas ao apelido de infância, afinal, tudo é mega quando se avalia a carreira do artista. Parte do repertório Toquinho mostra aos convidados do Conexão Empresarial, em Tiradentes. Ele adianta que o show será uma retrospectiva da carreira, alguns solos de violão e histórias que o acompanham nessa trajetória musical. Toquinho se apresenta com Vanda Breder (dividindo algumas canções), Ivâni Sabino (baixo) e Lilian Carmona (bateria).
Já se apresentou em Tiradentes? O que acha dessa cidade histórica? E do público mineiro?
Não só minha carreira, mas minha vida pessoal está muito ligada a Minas Gerais. A mãe de meus filhos é de Belo Horizonte. Meu casamento foi realizado aí. Tenho me apresentado constantemente em diversas cidades mineiras e sou recebido sempre com carinho e calor humano pelo público. Acho que é a primeira vez que estarei em Tiradentes, uma das cidades que tem sua história ligada à do Brasil.
Você transita bem tanto no palco quanto nos bastidores. Já produziu e dirigiu até espetáculos musicais. O que é mais difícil: tocar ou dirigir talentos?
A experiência que tive em 1964 na direção musical de Liberdade, Liberdade, cujo elenco contava com Paulo Autran, além de Raul Cortez e Thereza Raquel, deu-se no início de minha carreira, época em que eu aceitava fazer de tudo, sempre gostei de enfrentar fortes desafios. Depois, fui aprendendo com Vinicius a comandar um espetáculo de palco, lidar com os músicos, equalizar os valores artísticos. Com mais de 6 mil shows e 85 discos gravados, sinto-me inteiramente à vontade e confiante para exercer ambas as funções com muita segurança. O importante é o prazer em fazer as coisas.
Milton, do MPB4, enalteceu seu perfil único de alavancar qualquer artista, sem se sobressair, sem firulas, nem vaidades artísticas. O que é fundamental para se formar uma parceria?
É fundamental em primeiro lugar a amizade, a confiança mútua. Depois, o equilíbrio do peso artístico da parceria. Os talentos têm de se confrontar, mas não absorver um ao outro. Há que ressaltar as qualidades do artista sem alimentar vaidades, agregando valor e sucesso ao artista, como diz o Miltinho. Enfim, a humildade é indispensável.
Da década de amizade e parceria com o Vinicius, deve haver mil histórias, mil recordações. Gostaria que citasse um momento emocionante que vivenciou com o poeta e uma música que define essa amizade.
Durante os 10 anos de parceria, foram muitos momentos emocionantes que têm relação com a concretização de canções, encontro com pessoas, trabalhos em shows e discos. Quando terminamos a música O filho que eu quero ter, Vinicius chorava feito criança. O disco gravado com Ornella Vanoni na Itália foi marcante em nossa parceria. O show do Canecão, em 1977, que incluía também Tom Jobim e Miúcha, é inesquecível. Um show memorável!
É quase uma vida toda de parceria e amizade com o Chico Buarque (desde os 17 anos). O que ele – o amigo, não o artista – representa para você?
Chico é o amigo constante, com o qual se pode contar em qualquer momento. Quando nos falamos ou nos encontramos, parecemos duas crianças irradiadas pela vida. Entre dificuldades e alegrias, tudo se dilui numa autêntica brincadeira.
Sem puxa-saquismo, mas acho sua música, Aquarela, um hino. Foi uma das primeiras que aprendi a cantarolar, amei o clipe lúdico que a Faber-Castell fez. Como foi o processo de criação dessa música, o que o inspirou?
Aquarela é uma canção mágica que prossegue resistindo ao tempo e encantando gerações. Eu não imaginava a dimensão de seu sucesso porque, apesar de seu aspecto lúdico, ensejando sonhos e fantasias, fala de uma verdade insofismável, que é a da separação, do fim das coisas. Alerta para a realidade de que um dia tudo terminará, se descolorirá... Mesmo assim, encanta pela magia que transmite, não só aos adultos, mas às crianças, numa junção perfeita de melodia e letra. Foi a primeira canção que fiz com Maurizio Fabrizio, compositor italiano com o qual compus várias canções, com letra original em italiano de Guido Morra, um poeta maravilhoso. A versão para português foi feita por mim mesmo. Também é interessante notar que esta música é a única parceria post mortem com Vinicius de Moraes, já que a primeira parte de Aquarela deriva de Uma rosa em minha mão, parceria minha com Vinicius gravada no LP Boca da noite.
Qual o ritmo ou tipo de música que jamais cantará ou irá compor? Quais artistas você curte atualmente em seu MP3, no CD do carro ou em casa?
Não gosto de rejeitar nada. Há que se estar disposto a todas as experiências. No carro, escuto principalmente os CDs que as pessoas me presenteiam; é uma boa ocasião de se conhecer novas composições e novos intérpretes.