| |
Entrevista
“Fiquei Decepcionado”
Não era como ele planejava. O ex-jogador de futebol Marques, ídolo da torcida atleticana, foi obrigado a abreviar o fim de sua carreira em cinco meses por decisão do treinador Luxemburgo e, agora, se prepara para entrar no campo político, onde as regras são bem diferentes
Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Victor Schwaner
Envie seu comentário
O verdadeiro ídolo nunca sai de cena. Aos 37 anos, Marques Batista de Abreu, o xodó da torcida atleticana, abandonou os gramados. A aposentadoria foi antecipada pelo treinador do Galo, Vanderlei Luxemburgo, que vetou a renovação do contrato de Marques. Apesar da surpresa e da decepção, ele diz que não guarda mágoas, pois sua trajetória no clube apaga qualquer marca negativa que poderia ter ficado. Os 137 gols marcados com a camisa alvinegra, as 386 partidas disputadas pelo time, seus dribles e passes perfeitos em 13 anos de atuação ficarão eternizados na lembrança do torcedor. Depois de pendurar as chuteiras, o ex-jogador se prepara para atuar em outros campos: ingressar na política e tentar levar para o palanque a garra, a honestidade e o perfil de bom moço que sempre marcaram sua carreira como atleta. Começa uma nova disputa, mas agora quem apita o jogo é o eleitor.
Você ficou decepcionado com o Luxemburgo ou com os dirigentes do Atlético em razão de sua antecipada aposentadoria dos gramados?
Acho que essa é a palavra: decepcionado. E surpreso, acima de tudo, porque as minhas coisas com o Atlético sempre foram fáceis de resolver. A questão financeira e contratual nunca teve problema e eu, sinceramente, dava como certa a prorrogação do contrato, pois seriam apenas cinco meses até o final do ano. Foi uma surpresa muito grande que, num primeiro impacto, foi difícil de assimilar. É aquele lance de você estar esperando um sim, ter tanta certeza do sim e receber um não. É frustrante.
Existe mágoa?
Mágoa, não. Consigo olhar para trás, ver tudo o que eu fiz no clube, no futebol e isso apaga qualquer sentimento desse tipo. Ficou esse gostinho de decepção, de surpresa no final de carreira que, para mim, era desnecessário. Pela ligação que tenho com o clube, com a torcida do Atlético, que é apaixonada pelo xodó, como eles me chamam. Acho que não foi só surpresa para mim, mas principalmente para o torcedor, que contava comigo até o final do ano.
Quem chegou e falou que seu contrato não seria renovado?
No início daquela semana, eu e o meu procurador, o Aurélio Dias, que trabalha comigo há 13 anos e é uma pessoa muito séria, nos reunimos com o Kalil e ele colocou para a gente que, por ele, renovaria o contrato sem problema, mas que o veto veio do Vanderlei Luxemburgo. Ele me pediu para, no outro dia, conversar com o treinador, o que eu achei constrangedor, que não precisava, mas fui e ele só confirmou o que já sabia. Nós sentamos para conversar e ele falou que não contava mais comigo para o segundo semestre e, a partir desse momento, acabou qualquer tipo de argumento que eu tinha.
Vai ter um jogo de despedida?
Ainda não tem nada definido, mas há expectativa muito grande. Para mim será uma grande honra. Vai ser um momento festivo, principalmente para o torcedor do Galo.
Gostaria que esse jogo fosse contra algum time em especial?
Eu gostaria que fosse contra o Corinthians por causa da minha história, porque foi lá que iniciei minha carreira. Mas quem vai decidir são os dirigentes do Atlético.
Qual seu momento de maior alegria no Galo?
A minha história no clube são de quase 400 jogos, 137 gols e assistências eu perdi a conta. Então, é difícil você colocar um momento. De repente, o que está na memória agora, está na retina do torcedor, foi o gol da partida contra o Ipatinga, na final do Mineiro. Não tem um torcedor que vem até mim e fala que não chorou com aquela cena. Mas eu costumo dizer que todos os momentos em que vesti a camisa do Atlético no Mineirão, com a casa cheia, a torcida gritando o meu nome, foram emocionantes. Antes de colocarem as cadeiras, joguei no Mineirão com mais de 100 mil pessoas gritando o meu nome, me idolatrando.
Como é lidar com essa idolatria?
Eu via aquilo ali lotado e minha emoção era tanta que dentro do meu íntimo eu dizia: “Você tem que morrer em campo, vou dar a vida por esses caras”. Embora eu seja magrinho, pequeno, eles sempre souberam que podiam contar comigo no campo para honrá-los ali dentro.
E qual foi seu pior momento no time?
As contusões. Essa que eu tive no ano passado, para mim, foi muito difícil. De repente, foi para abreviar tudo o que aconteceu este ano. Foi uma lesão que quase me venceu.
Outros ídolos da torcida do Atlético, a exemplo do Toninho Cerezo, Reinaldo, Luizinho, Éder saíram do Atlético e acabaram jogando no Cruzeiro. Passa ou já passou pela sua cabeça fazer algo assim?
Já recebi alguns convites do Cruzeiro na minha trajetória, depois dessa passagem pelo Atlético. Agradeci o convite, achei que era um orgulho muito grande jogar no Cruzeiro, mas, por respeito a tudo o que eu construí no Atlético, vi essa questão como impossível.
Você sempre foi visto como um atleta com bom caráter, que sempre deu o sangue pelo time. O que acha dos jogadores problema, que costumam dar trabalho para os clubes e protagonizar escândalos na mídia?
É difícil falar porque isso tem a ver com personalidade e cada um é de uma forma. Eu sempre fui muito regrado, consegui jogar em alto nível até os 37 anos e em equipe de ponta. O atleta que leva vida boêmia pode até ter um momento importante no futebol, mas não vai ter sequência.
Você jogou no Atlético durante muitos anos, tornou-se ídolo, mas não conseguiu conquistar um Campeonato Brasileiro, uma Libertadores ou uma Copa do Brasil com a camisa do time. Sente-se frustrado por isso?
Este era um dos meus maiores objetivos aqui: conquistar um título nacional para o clube. Mas o futebol, às vezes, é difícil de compreender. Eu me lembro de 1999, quando o Galo chegou à final do Campeonato Brasileiro. No primeiro jogo, eu era um cara muito importante no time, mas tive lesão e não joguei a final. Eu estava em um momento muito importante da minha carreira e não tenho dúvida de que, se eu estivesse em campo, de repente poderíamos ter escrito outro resultado. Havia entrosamento com a equipe, com o meu companheiro de ataque, o Guilherme. Nos jogos, éramos infalíveis, marcávamos gols mesmo. Esta eu considero minha maior frustração aqui. O problema não foi perder o título, mas não ter jogado a partida final. Mas minha vida no Atlético não foi fácil, foi de muito sacrifício, principalmente nas partidas, jogando sem estar 100%. De repente acontecia uma lesão e a gente tinha de tomar injeção para ir ao jogo. A partida que antecedeu a final contra o Corinthians foi essa a história. Eu estava lesionado e fui para o sacrifício. Amarrei a perna e tomei injeções porque queria muito levar o time à final e ali foi maravilhoso. Foi um sacrifício que valeu a pena. Mas veio o outro jogo no final de semana e o músculo não aguentou.
O centro de treinamento do Atlético é considerado o melhor do Brasil e Luxemburgo é um treinador com uma das carreiras mais bem-sucedidas do país. O que falta para o time deslanchar e conquistar mais títulos?
Você colocou muito bem. O Atlético está com uma ótima estrutura, uma das melhores do país e tem categoria de base muito forte, de onde pode trazer jogadores para manter o clube. Mas é difícil achar uma fórmula. Se eu tivesse essa fórmula enquanto estava jogando, eu mesmo a teria usado para ser campeão. Vejo que no Brasil há grandes equipes com estrutura semelhante à do Atlético, com ótimos elencos e o próprio Atlético tem força para competir com os grandes times. Quando eu cheguei ao Galo, a gente não tinha nada disso e brigamos por campeonatos. Não ganhamos, é bem verdade, mas estávamos sempre na cabeça para conquistar. O Atlético está no caminho certo para, no curto prazo, levantar um campeonato importante para o clube.
Você pretende seguir a carreira política? Já tem algum padrinho?
Essa ideia não é de agora. Venho programando isso há uns dois, três anos, junto com o próprio Aurélio, que tem muita experiência com política. Ele trabalhou no Rio com o Roberto Dinamite e conseguiu elegê-lo. Vejo que, no dia a dia, as pessoas querem acreditar em alguma coisa nova, olhar para uma pessoa e dizer: eu confio nesse cara. E acho que eu tenho essa confiança das pessoas. A política é diferente do futebol, em que a gente pode ter três resultados. Agora, é vitória ou é derrota. E, acontecendo a vitória, estou certo de que tenho possibilidade de fazer um grande trabalho.
|
“Não tenho medo da corrupção na política. Tenho minha índole, meu caráter, que, para mim, é irretocável ”
|
Qual é o seu partido?
O PTB. Recebi o convite há algum tempo do deputado Dilzon Melo. Recebi outros também, mas o achei muito sério e fechei com ele.
E tem algum projeto em mente?
Meu compromisso é com as crianças. Isso não é demagogia, é um desejo que tenho de trabalhar para as crianças, tirá-las da rua, junto com ex-atletas que, muitas vezes, tornam-se problema social. A porcentagem de ex-atletas bem-sucedidos na carreira é mínima. Tenho muitos amigos hoje que, infelizmente, não têm trabalho, não têm o que fazer. Agora, estou sentindo na pele, pois também sou ex-atleta. É um pouco diferente porque eu, graças a Deus, tive carreira vitoriosa, fui reconhecido. Mas essa é a história de uma minoria e é a minha preocupação.
O Dadá Maravilha, inclusive, passou por um período difícil antes de virar comentarista.
E o Dadá é uma pessoa renomada, conhecida. Você não tem noção de quantos ex-jogadores não tiveram sucesso na carreira. Meu objetivo é trazê-los para perto da gente, tranxsformá-los em monitores de futebol, do esporte.
Na política, você acha que algum ex-atleta está conseguindo desempenhar um bom papel?
Acho que o João Leite é um nome muito forte. Ele não teve apenas um mandato. Está fazendo carreira sólida porque é uma pessoa séria, de credibilidade. Se não for assim, o próprio sistema expulsa. Mas ele conseguiu, por seus méritos, construir uma carreira sólida.
Há muitos escândalos e corrupção na política. Você não tem medo de ser engolido pelo sistema, já que não dá para fazer política sozinho?
Medo, de maneira alguma. Eu tenho minha índole, meu caráter que, para mim, é irretocável e isso vem de berço. É de família.
Tem receio de se decepcionar?
Quero fazer a minha parte. Eu sei que as alianças são necessárias, que precisamos do apoio de outros políticos, mas não temo isso.
Você tem estudado sobre política?
Eu venho lendo algumas coisas, mas a verdade é que estou mais ocupado depois que parei de jogar do que quando estava no dia a dia de treinamento. Toda hora tem uma entrevista, um evento. Mas, na medida do possível, estou me atualizando.
Pretende visitar o interior do estado durante a campanha?
A gente está conversando sobre isso. Faço questão de visitar o máximo de cidades possível. Este é um mês complicado por causa da Copa, mas depois que o Mundial acabar, a gente vai trabalhar.
Você ganhou dinheiro com o futebol? Sua vida financeira está resolvida?
Graças a Deus. Minha carreira foi muito bem-sucedida, planejada. Consegui fazer bons contratos, pude ajudar a minha família, dar conforto aos meus pais. O que eu projetei lá atrás, quando iniciei a minha trajetória no futebol, graças a Deus, cumpri, que era dar suporte aos meus irmãos e aos meus pais. Sou de origem humilde, como a maioria dos jogadores. A nossa vida não foi fácil.
Você pretende continuar morando em Belo Horizonte?
A ideia é essa. Tenho residência fixa. Cheguei aqui em 1997, sou casado há 16 anos e meus filhos cresceram aqui. As raízes estão fincadas e todos amamos BH.
|
Ficha Técnica
Informações pessoais
-
Nome completo: Marques Batista de Abreu
-
Nascimento: 12 de fevereiro de 1973
-
Naturalidade: Guarulhos (SP), Brasil
-
Altura: 1,74 m
-
Peso: 66 kg
-
Apelidos: Xodó da Massa, Messias,
-
Garçom, Calango
Informações profissionais
-
Último clube: Atlético (2010)
-
Número da camisa: 9
-
Posição: Atacante
-
Revelado por: Corinthians (1993)
-
Principais clubes: Atlético, Corinthians, Flamengo, Seleção Brasileira e Vasco da Gama
Atlético (Carreira)
-
Jogos: 386
-
Gols: 137
-
Estreia: CAM 0 x 1 Palmeiras-SP (10/7/1997)
-
Último jogo: Santos-SP 3 x 1 CAM (5/5/2010)
-
Vitórias: 184
-
Empates: 88
-
Derrotas: 114
-
Títulos:
– Copa Conmebol de 1997
– Copa Centenário de BH de 1997
– Campeonatos Mineiros de 99, 2000 e 2010
|
Bate-Bola
Em poucas palavras, Marques diz o que pensa sobre:
-
Alexandre Kalil: É um dirigente que gosta do Atlético e que está fazendo de tudo para colocar o clube nos eixos
-
Luxemburgo: Um treinador competente. A própria história dele no futebol mostra isso
-
Massa do Galo: A grande paixão da minha vida
-
Dunga: Um grande comandante
-
Seleção Brasileira: Uma equipe muito forte, que vai ser campeã do mundo
-
Presidente Lula: Pessoa de muito carisma, um herói, principalmente dos mais necessitados
-
Serra, Dilma ou Marina? Ah, sou Serra porque não sou nem muito esquerda, como é o PT, embora reconheça todo o trabalho que eles fizeram, mas é uma questão íntima, coisa minha
-
O que lhe falta conquistar? Minha carreira estou deixando com o sentimento de papel cumprido.
Tenho uma nova etapa que espero ter saúde para poder realizar o bem ao próximo, principalmente
-
Futuro: O futuro? (pausa) O futuro para mim é ter um país mais justo
|
|
Busca no Portal
|