Quarta, 23 de Maio de 2012
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Caminhos da Mente

Tratar conflitos existenciais, fobias ou doenças psicossomáticas por outras rotas ao inconsciente. São as propostas das técnicas terapêuticas alternativas hipnose e jogo de areia e da metodologia de autoconhecimento pathwork, que atraem cada vez mais pessoas aos consultórios

Texto: Luciana Avelino | Fotos: Andre Fossat, Daniel de Cerqueira e Vitor Schwaner


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A Ana Paula vivia angustiada com a impaciência absurda que a dominava. Maria Emília sentia pânico só de pensar em dirigir. Não conseguia nem se matricular numa autoescola. Meire não sabia como lidar com o sentimento de rejeição do filho adotivo Marcelo. Ana, Maria e Meire são personagens da vida real que, ao invés de sessões clássicas de psicanálise e terapia, buscaram téc­nicas terapêuticas e metodologias de autoconhecimento. Opções que propõem dinamizar e abreviar a abordagem de fobias e doenças psicossomáticas (hipnose ericksoniana), de conflitos emocionais (jogo de areia) e focalizar a autotransformação e desenvolvimento espiritual (pathwork). Todas configuram caminhos alternativos, que não negam o valor das terapias tradicionais e vêm sendo progressivamente procurados nos consultórios de terapeutas que optaram por adotá-los. Vêm ao encontro da tentativa de driblar a pressa e a ansiedade próprias dos tempos contemporâneos, que urgem por soluções para resolver problemas cotidianos e existenciais. Para entender um pouco acerca de suas propostas e aplicações, a reportagem ouviu a psiquiatra Sofia Bauer e as psicólogas Claudia Manrique e Regina Lacerda, especialistas das técnicas. Em comum, as três profissionais comungam da adoção exclusiva das respectivas linhas.


Quem a adotou

A secretária Maria Emília Siqueira Rodrigues, 48, recorre hoje à hipnoterapia sempre que percebe que não dá conta sozinha de resolver situações conflitantes, em casos de urgências. “Normalmente o processo é rápido. Como sou muito agitada, sinto-me mais estimulada em comparação à terapia convencional.” A primeira incursão à prática aconteceu quando decidiu dar um basta ao pânico de dirigir, desenvolvido em função de um acidente de carro. “Sofria só de pensar na possibilidade. Não conseguia nem me matricular na autoescola. Até viajar de carro evitava.” Assim que tirou a carteira e comprou um carro, em menos de um ano, voltou a estudar. “Parecia que paralelo ao pânico, que me fazia sentir impotente, minha vida estava estagnada. Perdia muitas oportunidades.” Após as sessões, ela conta que se sente completamente aliviada. “Toda a tensão, estresse e cansaço parecem ir embora.” Recentemente, Maria Emília retornou à hipnose por conta de uma tendinite no ombro. “O fato de ter de operar gerou muita ansiedade. Estava totalmente insegura, temerosa. Com a hipnose, consegui ficar mais tranquila, operei e tudo saiu bem.”

Hipnose Ericksoniana

O que é I Considerada uma terapia breve, é caracterizada como um estado focado de atenção interna. Para atingir o objetivo, o terapeuta conduz o paciente aos seus pontos de conflitos que geram sintomas, doenças e exaustão da mente  

Origem I Proposta pelo médico e psicólogo norte-americano Milton H. Erickson (1901/1980), que desde 1923 usava a hipnose em seus atendimentos, passou a fazer sucesso nos Estados Unidos na década de 80. No Brasil, teve maior divulgação a partir dos anos 90, quando o psicólogo e hipnoterapeuta norte-americano Jeffrey Zeig, presidente da fundação Milton Erickson, incluiu o país no seu roteiro de cursos. Minas Gerais foi o estado pioneiro em hipnoterapia. O Brasil conta hoje com mais de 15 institutos que oferecem formação em hipnoterapia voltada para psicólogos e médicos psiquiatras 

Prática I Ao contrário da visão difundida de o paciente permanecer inconsciente, a técnica lança mão do estado acordado ampliado de consciência a partir de exercícios de relaxamento, como respiração, visualizações, regressão, progressão de futuro. Em hipnose, com a voz lenta e a fala mansa do terapeuta, o paciente tende a relaxar, fazendo com que a velocidade elétrica do seu cérebro fique entre 8,5 e 6,5 hertz, ou seja, meio termo: nem dormindo (abaixo de 6,5 hertz) nem totalmente acordado (de 8,5 a 10 hertz). Durante o transe, o hipnoterapeuta passa sugestões que vão para o inconsciente. Normalmente, cada tema é abordado, em média, durante período de dois a oito meses.

Indicações I Síndrome do pânico, fobias simples (carro, avião, elevador), fobia social (medo de suar, falar, gaguejar), descamação da pele, vitiligo, enxaqueca, úlcera, artrite, retrocolite, disfunções sexuais (impotência, ejaculação precoce), obesidade, tabagismo, tiques, alcoolismo etc 

Impressões profissionais

Introduzida na hipnoterapia pelo psicanalista gaúcho Malomar Edelwiss, na época em que foi sua aluna em Minas, a médica psiquiatra Sofia Bauer sentiu-se fortemente atraída pela técnica. A identificação foi tanta, que se mudou para os Estados Unidos para se formar com Jeffrey Zeig, posteriormente trazendo-o para o Brasil para ministrar anualmente cursos no estado. Logo no início da aplicação da hipnose, a psiquiatra percebeu o poder de sua atuação. “Tinha dois pacientes com casos difíceis. Um tinha problemas de ejaculação precoce e, o outro, de impotência. Em duas sessões apenas, ambos ficaram curados.” De acordo com Sofia, o encantamento com a hipnose tem vários porquês. “O paciente fica mais feliz e temos soluções rápidas. Pelo fato de as pessoas não terem muito tempo, seu custo-benefício conta muito. É muito focada em um problema específico.” A profissional frisa o mito difundido no meio da psicanálise de que a hipnoterapia apenas eliminaria o sintoma. “Isso não é verdade. É extremamente profunda, já que atuamos nas emoções, resolvemos os conflitos e não apenas limpando as causas. Temos a técnica de regredirmos até a infância.”

Pathwork

O que é I Metodologia que tem na busca do autoconhecimento, o instrumento da autotransformação e desenvolvimento espiritual. A partir do significado da palavra pathwork (trabalho do caminho), propõe compreensão profunda das negatividades pessoais, suas causas e efeitos. A conquista da autoaceitação, ponto de partida para a transformação pessoal, tem como objetivo fortalecer o senso de autorresponsabilidade, tornando as pessoas agentes conscientes de suas realidades
  
Origem I
A metodologia tem como base 258 textos, denominados palestras do guia, que foram canalizados psicograficamente pela médium austríaca Eva Pierrakos, em Nova Iorque, entre 1957 e 1979. Posteriormente à sua morte, todo o material foi organizado metodologicamente, integrado ao trabalho da Pathwork Foundation e divulgado pelo mundo. No Brasil, o pathwork chegou no início da década de 90, em Salvador (BA), a partir da estruturação da primeira turma de formação no país com membros da fundação norte-americana pela psicóloga baiana Aidda Pustilnik, formada no Pathwork Foundation. Somente na capital mineira há atualmente 602 pessoas em grupos de estudos

Prática I O trabalho, normalmente desenvolvido em grupo, é coordenado por dois tipos de profissionais: os helpers (terapeutas do pathwork) ou por facilitadores. Os participantes recebem o material organizado em módulos para o estudo em casa. Durante as sessões, quinzenais ou semanais, de duas horas de duração, os conceitos das palestras são trabalhados de forma prática. Várias ferramentas são usadas, como exercícios práticos, dinâmicas, partilhas, meditações, vivências emocionais, mentais, reflexivas e corporais. Apesar da linguagem simples, os temas são profundos e buscam a integração da teoria com situações, emoções do dia a dia. Os conteúdos emocionais que emergem são os instrumentos que conduzem ao autoconhecimento

Indicações I Para todos que desejam e se propõem a crescer, desenvolver, transformar-se a partir do conhecimento próprio (dificuldades, características e realidade) e buscam o sentido maior de suas existências 

Quem adotou

Ana Paula Teixeira do Rosário (na foto com a filha), 46, diz ser hoje 100% mais feliz do que era antes do pathwork. Lembra-se de como se sentia angustiada com a impaciência absurda que a dominava nos relacionamentos e ante certas situações. “Era extremamente irritada, por exemplo, com meus filhos quando pequenos, François e Laila, hoje com 25 e 26 anos.” Logo nos primeiros meses, integrando grupo de estudo, conta que foi descobrindo as raízes que geravam tanta agressividade. “À medida em que me propus e dediquei às mudanças, passei a ter consciência que seguia conceitos, absorvidos ao longo da minha história, que não me pertenciam, não eram valores pessoais. Estava destruindo minha vida com padrões que não tinham a ver comigo, por acreditar que eram corretos.” Psicóloga, com especialização em tanatologia e bioética, buscou o pathwork por interesse pessoal. “Achei que a proposta poderia ser interessante por abordar e unir questões intelectuais e espirituais. As respostas vieram um milhão de vezes mais rápido do que tinha experimentado e estudado até então. Nada tinha funcionado com tamanho alcance de crescimento e sabedoria.” Quanto ao comportamento irritadiço, assegura que mudou muito. “Meus próprios filhos sempre falam que passei a ser outra pessoa. Tornei-me uma pessoa melhor, uma mãe melhor. Sou mais carinhosa, sábia”, afirma Ana Paula que, posteriormente, adotou o pathwork como trabalho. “Saber quem sou, o que me faz feliz, mudou minha vida.” Para ela, seguir o pathwork é se tornar objeto de estudo de si mesmo. “Conhecer-se apenas não basta. É preciso assumir o compromisso por mudanças. Ter ciência de que nossa felicidade não pode ficar nas mãos do outro. Você recebe o conteúdo e o coloca em prática. Ninguém o induz. Não é nada fácil. É bem árduo. Mas digo que vale a pena ter este novo olhar de nós mesmos.”

Impressões profissionais

Há 17 anos, a psicóloga Regina Lacerda (na foto de vermelho) integrou o primeiro grupo de formação profissional de pathwork no Brasil, na Bahia, em curso de seis anos e meio. Até mês passado, esteve à frente do Conselho de Pathwork no Brasil, em Minas Gerais. Hoje, quem preside a entidade é a médica homeopata Regina Brostel.“Partimos do princípio de que a pessoa é uma unidade psicossomática e a fonte de cura de nossas distorções está dentro de nós mesmos, no ajuste de nossas escolhas de vida.” Para ela, o trabalho em grupo é espaço fascinante. “Lá estão os nossos espelhos. Podemos nos ver a partir do outro. Descobrimos que nossas semelhanças são muito maiores do que imaginamos: todos temos medos, preconceitos, ressentimentos. Todos buscamos um sentido maior da nossa existência.” Além disso, segundo sua experiência, o grupo cria fortes vínculos de afeto entre os participantes, com base na confiança instaurada pela postura ética, suprindo uma lacuna da real intimidade tão característica da sociedade contemporânea, marcada por relações superficiais e frágeis. “O grupo é um local sagrado, de extrema  privacidade, onde se comunga um pacto ético. Espaço onde as pessoas são ouvidas sem julgamentos, palpites e conselhos.” De forma geral, segundo Regina, essa forma de acolhimento faz com que as mudanças aconteçam de maneira rápida. “O pathwork foi e tem sido para mim um porto seguro onde pude crescer espiritualmente e a abordagem profissional com que mais me identifiquei. A sua base é muito concreta, tangível, por ser um trabalho que se desenvolve a partir de vivências cotidianas.” Para ela, quando somos levados a reconhecer e asumir responsabilidades pelo impacto de nossas posturas, escolhas, há chances da evolução acontecer. “Melhorar como pessoa é um alívio para os que convivem conosco. É a melhor prova de amor que podemos dar a alguém: tirar dele a responsabiliade por nossa infelicidade. Somos, sim, criadores de nossas realidades.”

Jogo de Areia (Sandplay)

O que é I Processo terapêutico criativo não verbal, que propõe de forma lúdica trabalhar as imagens positivas e negativas do inconsciente. Uma dinâmica a partir da qual o conteúdo da imaginação se torna real e visível. Proporciona ao terapeuta uma oportunidade única de observar os processos de desenvolvimento e de cura

Origem I A abordagem foi desenvolvida pela analista suíça junguiana Dora Kalff (1904/1990), que se baseou na técnica World Techniques – Play in Childhood, concebida pela psiquiatra freudiana Margaret Lowenfeld (1890/1973). Na nova versão, Dora estendeu a aplicação da terapia, anteriormente voltada para crianças, para o público adulto. Além disso, adotou a hipótese de Jung de que na psique humana há um impulso fundamental em direção à totalidade e à cura, oferecendo ao paciente um espaço livre e protegido, em que possa observá-lo sem emitir julgamentos, deixando fluir a intervenção terapêutica somente por suas próprias observações e intuições
 
Prática I A partir da disposição de uma caixa de areia de praia e miniaturas de vários gêneros (carros, construções, árvores, santos, animais, homens etc), o participante é convidado a montar um cenário ao seu gosto. A interação entre os elementos funciona como um espelho das suas emoções. Possibilita expressar simbolicamente, a partir das miniaturas eleitas e seus respectivos posicionamentos, angústias, medos e traumas, muitas vezes difíceis de serem elaborados com a fala. Ao final de cada sessão, o cenário é fotografado. Após uma sequência de montagens, o terapeuta passa a interpretar e discutir com o cliente as ligações dos cenários e os fatos atuais e passados de sua vida 
 
Indicações I Questões psicossomáticas, como estresse, conflitos emocionais e angústia, dores no corpo desenvolvidas a partir de perdas e problemas não resolvidos, timidez, depressão, pessoas com dificuldade de se expressar, hiperativas, extremamente tensas, com problemas de comunicação (fala, audição)

Quem adotou

 A incapacidade gerada em decorrência de um tumor no cérebro impediu que a irmã da dentista Meire Lobato de Araújo, Marta, continuasse a criar o filho de quatro anos, Marcelo Lobato. Após a decisão de adotá-lo, consentida pela irmã e oficializada na Justiça, Meire e o marido, Marlon Sidney (na foto acima), passaram a ter guarda do sobrinho. No entanto, para o pequeno Marcelo, a nova realidade – a separação da mãe e a ausência paterna (após a doença, o pai da criança afastou-se da mãe e não tentou a guarda do filho, então com dez meses) – repercutiu emocionalmente. “Ele passou a ficar muito agressivo. Batia nas pessoas, nas coisas. Chorava muito e era muito arredio.” Na busca por ajuda profissional, Meire recorreu ao jogo de areia, onde Marcelo construía seus cenários de guerra. “Em suas construções, figuras como armas, facas enterradas eram recorrentes. A partir do momento em que expunha sua agressividade e das representações, a terapeuta conseguiu que fosse, simbolicamente, verbalizando suas tristezas, rejeições.” Hoje, aos 11 anos, quem o conhece, segundo Meire, não acredita que ele tinha esse tipo de comportamento. “É doce, alegre, bem-humorado, superapegado comigo e meu marido. Também tira mais de 90% em todas as provas.” Para Meire, a terapia, feita a princípio por um ano, e posteriormente, por mais meio ano, foi, de fato, responsável pela transformação. “Ele aprendeu a expressar seus sentimentos de forma não agressiva e aceitar o amor de outras pessoas, não se culpando por isso.“

Impressões profissionais

“Costumo dizer que o jogo de areia é a fotografia da alma”, resume a psicóloga Claudia Manrique, que trabalha com o jogo de areia há 15 anos, época em que se formou quando morava em São Paulo. Para ela, a técnica possibilita as pessoas posicionarem-se de forma mais à vontade. “Além de ficar mais fácil de se expressarem, já que muitas vezes não conseguem nomear o que sentem, a visualização das figuras disponíveis nas prateleiras pode remeter questões guardadas na memória. Por ser bem dinâmica, agiliza as abordagens. O retorno interativo é bem mais rápido do que o verbal. Posso dizer que o jogo de areia corresponde a várias sessões tradicionais de terapia.” Outro ponto positivo da técnica, segundo Claudia, é a forma prazerosa do processo. “O manuseio da areia é agradável, diferente, de fato terapêutico.”

Outras Técnicas Terapêuticas

  • Constelação Familiar: Terapia em grupo ou individual, criada pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger. Em grupo, a partir do tema eleito, o cliente escolhe participantes para simbolicamente representar ele e seus familiares, e os posiciona entre si. Na sequência, os sentimentos e ações dos participantes são questionados. No atendimento individual, os familiares são substituídos por bonecos
  • Psicodrama: Método de investigação e tratamento de problemas psicológicos criado pelo médico romeno Jacob Levy Moreno no inicío do século 20. Reúne elementos do teatro e da psiquiatria e possui como recurso de ação a dramatização
  • Terapia de leitura corporal: Técnica que usa a observação visual e tátil do corpo para obter referências sobre o histórico, hábitos e emoções do paciente

 
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