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Bem-estarAlimentos sempre na berlinda?Viver Brasil ouviu especialistas sobre como a má alimentação, incluindo aí dietas mirabolantes, pode afetar a saúde de uma pessoa, agora e no futuro
Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Alexandre C. Mota, Victor Schwaner, Daniel de Cerqueira
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“Gosto de comer linhaça tanto no iogurte quanto batida no liquidificador com leite de soja. O cereal trouxe um considerável ganho na minha qualidade de vida, principalmente na regulação do funcionamento intestinal” Rita de Cássia Neves de Araújo, arquiteta Há um ano ela adotou o hábito diário de comer linhaça. Ela prefere o tipo marrom, nacional, do que a dourada, importada do Canadá
O bolso também agradece Para a nutricionista Mariana Braga Neves, alimentar-se de forma saudável representa não só melhor qualidade de vida, quanto economia no orçamento. “Alimentos industrializados custam caro. Há muitas opções naturais que são baratas, como verduras, cereais ou frutas cítricas.” A relação custo-benefício é óbvia: 1 copo de suco de caixinha custa 5 vezes mais que 4 laranjas, sendo repleto de corantes, conservantes, adoçantes, açúcar, muitos deles sequer têm polpa de fruta, só sabor artificial. “O padrão alimentar do brasileiro piorou muito nos últimos anos. O tradicional prato feijão-arroz-bife-salada, bem equilibrado nutricionalmente, já não é mais prioridade na mesa das famílias. Alguns mitos foram se instituindo, como o de que comer um sanduíche leva menos tempo do que almoçar corretamente. Em um self-service há dezenas de opções de saladas que não se teria em casa. O tempo que leva para comer um sanduíche é o mesmo que se leva para comer um prato de salada, por exemplo.” Na contramão do marketing da indústria alimentar, dos maus-hábitos instituídos e do fast food, Mariana Neves, que é especializada em nutrição esportiva, diz que movimentos como o slow food e modismos esportivos vão, aos poucos, rompendo conceitos. “O slow food torna prioridade a alimentação, como um momento prazeroso, de se reunir amigos. Ações de grupos de esportistas amadores, como ciclistas e maratonistas, gente que busca o exercício físico como forma de prazer, de desafio e de interação social, faz com que novos hábitos alimentares peguem carona nessa nova rotina, pois as pessoas passam a dar mais valor ao preparo físico.” Confira nos quadros ao lado e da página anterior, as dicas da nutricionista Mariana Neves sobre o que é fundamental ou não em um bom cardápio diário. |
Sem preconceitosEstamos na era da banalização alimentar, com uma crescente lipidiofobia desmedida, atesta a médica pediatra, hebiatra e nutróloga Jomara de Araújo. Membro da Sociedade Brasileira de Nutrologia, ela reforça que o grande pecado da modernidade é taxar determinados alimentos como grandes vilões da dietética. Para a médica isso é mito, o que deve haver é equilíbrio na dose e na hora certa de ingerir alguma comida. Tudo pode, até fast food e doces, desde que controlado e acompanhado, lembrando a velha máxima de que remédio na mão de um tolo é veneno e veneno nas mãos do sábio, remédio. “Existe o mito das dietas restritivas, sem qualquer fundamento científico e para o leigo isso passa a ser padrão institucionalizado. As pessoas não sabem o que é diet ou light, usam ambos indiscriminadamente. O diet é exclusivamente voltado para a população diabética, não é para quem quer emagrecer. É preciso entender que uma correta alimentação tem de equilibrar carboidratos, lipídios, protídeos, vitaminas e sais minerais. O excesso ou a falta de qualquer desses elementos interfere no processamento alimentar, gerando perdas que vão afetar até a produção hormonal.” Segundo a nutróloga, embora a engenharia de alimentos seja uma ciência que evoluiu muito por causa da tecnologia, não há devido aproveitamento. A sociedade padece da falta de informação. “Recebo no consultório gente diplomada que confunde dados, que tem como verdade absoluta tabelas fantasiosas publicadas por revistas sensacionalistas. Gente que elabora um cardápio mirabolante baseado em mentiras.” |
“Para equilibrar a dieta e não engordar, já troquei a ordem de alimentos, ou seja, costumo almoçar ou jantar pouquíssimo para poder descontar na sobremesa” Anna Alice Neumann, maquiadora da L’áqua di Fiori Apaixonada por doces, principalmente por chocolate. Já fez do hábito um vício: sempre come algum doce após o almoço e jantar. Apesar de comer diariamente algumas doces calorias extras, Anna mantém corpo de modelo: 1,67m de altura para 56 kg
A médica explica que, para a nutrologia, todo obeso é um desnutrido, tanto quem tem pouco sobrepeso quanto quem está sob risco de obesidade. Isso mesmo. Mesmo os eutróficos (em peso ideal) precisam passar por avaliação nutricional. “O excesso de gordura nada mais é do que inflamação do organismo diante da carência de nutrientes essenciais. Toda doença tem fundo alimentar. De alergia, gripe, a câncer, se formos investigar o passado de uma pessoa a raiz estará no comer errado. Houve desequilíbrio que mexeu no sistema imunológico, deixando o organismo sob risco de infecções e contaminações. Isso é o princípio oriental que coloca o alimento como prioridade na vida de uma pessoa, tudo depois é consequência.” Para Jomara, hoje, na sociedade, inverteu-se o padrão – as pessoas vão para os consultórios médicos querendo soluções rápidas e mágicas para suas mazelas. E saem de lá com antidepressivos e remédios de que não necessitariam. Muitas vezes, bastaria reorganizar seu cardápio diário. Simples assim. Ela cita como exemplo a osteoporose, que pode ser iniciada ainda na fase intrauterina. Jomara diz que é preciso voltar os olhos ao passado para entender a bagunça nutricional em que a contemporaneidade está imersa. “Nossos avós e bisavós, que viviam no interior, alimentando-se com coisas naturais, com prazer ao comer, tinham uma taxa de fecundidade incrível, eram pessoas saudáveis, raramente ficavam doentes, porque havia uma produção adequada de hormônios em seus organismos.” Segundo a médica, não há chances de reeducação alimentar dar certo se não se respeitar os gostos, ou melhor, a memória gustativa do indivíduo. “Não adianta impor comportamentos extremos, cortar determinados produtos que eram rotina para ele. Não há como tirar chocolate de um chocólatra.” O correto, na avaliação de Jomara, é se levar em conta que comer deve ser um momento de prazer e não tortura. O que ela faz é ir intercalando no cardápio tudo o que se gosta e do que se precisa e, com o tempo, retira alimentos não tão necessários, nos quais havia forte vínculo. Estando com o organismo equilibrado, a pessoa não terá mais aquela vontade louca de comer determinado produto. “Hoje, muita gente acha que cortando carboidratos e lipídios está certo. Ora, o lipídio é necessário ao paladar e no processamento de várias vitaminas. Tem de se levar em conta que cada pessoa tem uma leitura gustativa, por isso minhas orientações e cardápios são individuais.” Do recordatório alimentar a médica cita aquelas lembranças que todos temos de momentos únicos e que fazem falta no cotidiano de agora. “É o cheiro da lancheira da escola, do bolo da mãe assando, dos sonhos fritos que a avó fazia. Enfim, de momentos em que comer era prazeroso e dava satisfação psicológica e física.” |
“Para equilibrar a bomba calórica e sem valor nutricional, prefiro comer fast food acompanhado por suco natural de laranja, sem açúcar, claro” Aroldo José de Oliveira, personal hair stylist É viciado em fast food, principalmente em coxinha recheada com catupiry e por sanduíches. A estratégia dele, por enquanto, dá resultado: namorador assumido, Aroldo mantém o corpo esguio e barriga de tanquinho que tanto seduzem o público feminino
Para Jomara Araújo, todo grande campeão olímpico ou atlético não nasce, ele é conduzido a sê-lo se for bem orientado e, principalmente, bem nutrido. Ayrton Senna só virou o grande campeão após iniciar o tratamento com o preparador Nuno Cobra. Ele mudou hábitos alimentares, priorizou exercícios físicos que lhe davam prazer. Foi moldado para ser o grande vencedor que entrou para a história. O mesmo ocorre com o Michael Phelps (recordista mundial de natação). A dieta dele envolve 12 mil calorias por dia. “Poderia ser loucura para uma pessoa comum, mas para ele funciona porque é equilibrada e de acordo com sua necessidade física.” Na ponta oposta, Jomara lembra que dietas extremas e inadequadas podem levar à morte. Michael Jackson morreu com índice de massa corporal (IMC) em 15, ou seja, ainda mais baixo do que o das modelos hipermagras, que é em torno de 17. “Estava subnutrido. Como organismo de um adulto consegue viver assim?”, questiona. Baseada em técnicas de readequação alimentar, a nutróloga recusa-se a estabelecer listas de prós e contras para qualquer pessoa. Por quê? Porque além de lhe causar desconforto, seu papel é conscientizar a população de que não há uma dieta padrão que pode ser adotada por todos, pois sempre haverá senões devido à palatibilidade de cada um. “Não posso vender ilusões. Tenho de respeitar o organismo, o histórico de cada paciente. Recentemente, tratei de um garoto que estava obeso. Ele é apaixonado por sorvete. Como retirar algo de uma criança que para ele faz falta? Pois mantive duas porções diárias de sorvete e em dois meses ele perdeu 7 kg. Lá na frente, vamos substituir o sorvete comum pelo feito de iogurte. Por isso é que muitas dietas loucas, nas quais as pessoas ficam só no frango grelhado e na salada não dão certo, quando anteriormente eram viciadas em fast food. É um choque brutal para o organismo”, aconselha. |
10 pecados (risque de vez do cardápio)1. Suco em pó: por conter corantes, conservantes e nenhum valor nutritivo 2. Alimentos com gorduras-trans: sorvetes, salgadinhos industrializados, biscoitos e bolos prontos – elevam o colesterol ruim e predispõem à obesidade 3. Refrigerante normal, light ou diet: a chamada caloria vazia, a água gaseificada causa distensão abdominal, aumenta a sensação de fome, tem muita cafeína e sódio – ruim para hipertensos 4. Excesso de açúcar simples: eleva o pico glicêmico, estimula a fome 5. Excesso de adoçantes: algumas fórmulas aumentam a retenção de líquido 6. Fast food: engorda sem nutrir 7. Bebida alcoólica: em excesso causa problemas no fígado, desencadeia gastrite, muita cerveja causa distensão abdominal 8. Café em abundância: desidrata o organismo, pois a cafeína é diurética, aumenta a ansiedade 9. Excesso de sal e de alimentos ricos em sódio: caldos em cubos, molho shoyo, macarrão instantâneo e enlatados 10. Falta de consumo de cálcio: pode levar à osteoporose |
10 Alimentos fundamentais1. Linhaça ou peixes com ômega 3: auxiliam na função cerebral, bons para saúde cardiovascular. A linhaça ajuda no bom funcionamento intestinal 2. Castanha-do-pará e de caju, nozes, amêndoas: a do pará contém rica fonte de selênio, excelente para memória. Bastam 2 unidades por dia 3. Iogurte: fonte de cálcio e de probióticos, bom para a saúde intestinal e por ser barreira protetora contra alergias, rinites e depressão 4. Uva roxa: os flavonóides presentes são bons para o coração 5. Aveia: é barata, dá saciedade, controla a glicose e o colesterol LDL – o ruim
6. Tomate, goiaba, melancia: contêm licopeno, substância anticâncer, melhor absorvida quando 7. Azeite: é a gordura monoinsaturada considerada mais limpa e saudável, principal elemento da dieta mediterrânea. Contém ômega 9 8. Cacau em pó ou chocolate que tenha concentração de cacau acima de 50%:o ideal é consumir de 20 a 30 g por dia. Contém substâncias antioxidantes e reduz a pressão arterial 9. Alho: a alicina atua no controle do colesterol, melhora o sistema autoimune, previne contra depressão e reduz a chance de se adquirir doenças por bactérias e vírus 10. Frutas cítricas alaranjadas: acerola, mamão e laranja são fontes de ácido ascórbico, que previnem contra a gripe e o cansaço físico. É antioxidante |