Quinta, 09 de Fevereiro de 2012
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Política

Peso do vice

Nas últimas semanas, candidatos a vice-presidente e a vice-governador surgiram aos montes, o que mostra a importância do cargo (sic) – pelo menos na hora de se tentar conquistar mais alguns eleitores

Texto: Andrezza R. Farias | Fotos: Saulo Cruz, Brizza Cavalcante e Brizza Cavalcante (Sefot-Secom)/ Marcio Fernandes e Andre Dusek (AE)


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Se fosse possível colocar um anúncio no jornal para preencher a vaga, seria mais ou menos assim: “Procura-se um político de bom partido. Tanto faz se é louro ou moreno, mas ter bom tempo de propaganda na TV e no rádio é fundamental, além de perfil complementar, agregador, uma boa base eleitoral e que ajude a garantir a governabilidade. Se for bom puxador de votos, tanto melhor, porém, mais importante é não tirar votos do titular”.  Para muitos, figura sem relevância, num sistema eleitoral em que ele sequer é votado, ignorado pela maioria dos eleitores, o vice é quase um artigo de luxo nessa eleição, tamanha a dificuldade de alguns candidatos em definir o companheiro de chapa para a disputa que se avizinha. Até porque, por causa dos dividendos políticos, a fila dos que garantem se encaixar no perfil anunciado é grande, o que complica ainda mais a arrastada negociação que envolve a escolha.

No plano federal da disputa, a presidenciável Marina Silva (PV) foi a primeira a definir o vice. Anunciou o empresário Guilherme Leal, dono da Natura, uma das maiores empresas de cosméticos do país. A escolha não foi aleatória. A exemplo do que fez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, quando acertou a dobradinha com o empresário mineiro José Alencar, Marina Silva procurou alguém que pudesse ancorar sua candidatura, buscando dissipar qualquer ideia de radicalismo ou mesmo de aventura eleitoral.

“Ninguém governa sozinho. Então, a escolha do vice envolve a preocupação com a ampliação de uma aliança. O nome ideal tem que fortalecer a candidatura, agregar apoios, sem, é claro, fazer sombra para o titular da chapa”, pontua o cientista político José Luis Quadros, da PUC-MG e também professor de direito constitucional da UFMG. “A preocupação dos partidos com a ampliação do tempo de TV também tem grande peso na hora da definição”, completa. 


Antônio Andrade: “Não se pode impor condições aos aliados”
Antônio Andrade: “Não se pode impor condições aos aliados”

A petista Dilma Rousseff exemplifica essa preocupação. A ex-ministra da Casa Civil terá ao lado, durante a campanha, o presidente da Câmara dos Deputados e do PMDB nacional, Michel Temer. Ele não é lá o candidato dos sonhos de ninguém, mas sua legenda é a maior do país, a que tem as maiores bancadas, a maior infraestrutura e também o maior tempo na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, que começa em 17 de agosto. A necessidade do PT de ampliar o espaço na mídia eletrônica para “vender” Dilma, aliás, foi o que pesou na decisão. Hoje Dilma é mais conhecida, tanto que conseguiu melhorar consideravelmente seu desempenho nas pesquisas de intenção de voto, mas precisa ainda solidificar o discurso de continuidade, sobretudo das políticas sociais que marcam a gestão de seu principal cabo eleitoral. E tempo o PMDB tem de sobra. Soma 2 minutos e 53 segundos em cada bloco diário de 25 minutos ao tempo do PT. “O PT precisa da força do PMDB. Temer veio a reboque. O partido teme que ele tire votos da chapa, já que não é uma figura das mais simpáticas, mas vai ter que arriscar”, observa o cientista político.  

Reginaldo Lopes: “Não existe aliança por decreto”
Reginaldo Lopes: “Não existe aliança por decreto”

Principal adversário de Dilma na disputa, o tucano José Serra ainda não conseguiu definir seu companheiro de chapa, pelo menos até o fechamento desta edição. Nos últimos dias, voltou a ganhar força a tese de uma chapa pura, com composição entre ele e o ex-governador mineiro Aécio Neves. Segundo interlocutores, Aécio estaria reconsiderando a hipótese de ser o vice de Serra, o que o ex-governador paulista tratou de classificar como mera “especulação”. Na verdade, seria um grande presente para Serra se tal especulação virasse verdade, afinal, lhe garantiria maior penetração no segundo  maior colégio eleitoral do Brasil. Como Aécio segue dizendo, publicamente, que seu interesse é concorrer a uma cadeira no Senado, o nome do senador Francisco Dor­nelles apareceu como segunda opção. A ideia é atrair o apoio do PP, que gostou da sondagem. O partido, porém, integra a base de apoio a Lula no Congresso e decidiu adiar para junho a decisão sobre o assunto.

Dilma com seu escolhido para vice, Michel Temer
Dilma com seu escolhido para vice, Michel Temer

“Não temos dificuldade alguma para definir o vice”, afirma o deputado federal Narcio Rodrigues, presidente do PSDB mineiro. “Apesar da ansiedade dos aliados, não vamos acelerar esse processo”, diz, referindo-se não somente ao impasse no plano nacional. Para a sucessão estadual, o PSDB tem como candidato o governador Antonio Anastasia, mas sofre com a pressão do DEM, do PP e do PDT para a escolha do vice na chapa.  Pelo PP, o presidente da Assembleia Legis­lativa, Alberto Pinto Coelho,  conta com o apoio da maioria dos deputados estaduais e federais, além da maior parte dos segmentos da sociedade. 
 

Narcio Rodrigues: “Não temos dificuldade para definir o vice”
Narcio Rodrigues: “Não temos dificuldade para definir o vice”

Segundo Narcio Rodrigues, a questão somente será fechada no prazo final para o registro das chapas, em 5 de julho. “A escolha do vice significa a exclusão de alguns que gostariam de estar dentro (da chapa). Por isso é importante não atropelar as etapas”, diz o tucano, negando que haja preferência pela aliança com o PP.

No caso de PT e PMDB em Minas, a dificuldade maior é chegar a um entendimento sobre qual dos dois partidos vai liderar a chapa. Pelo lado peemedebista, quem está na briga é o ex-ministro das Comunicações Hélio Costa. Pelo lado petista, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel. Ambos integram a base aliada do presidente Lula e sabem da importância de se ter um palanque único e fortalecido para Dilma Rousseff no estado. Mas nenhum dos dois abre mão de encabeçar a coligação.
 

Marina Silva e o empresário Guilherme Leal, seu vice
Marina Silva e o empresário Guilherme Leal, seu vice

Para o PMDB, o vice ideal seria um petista, mas não Pimentel, e sim o ex-ministro Patrus Ananias, do Desenvolvimento Regional e Combate à Fome. Nesse caso, Pimentel, um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff, concorreria ao Senado. “Como presidente do PMDB gostaria de ter o Patrus como vice do Hélio Costa”, diz o deputado federal Antônio Andrade, sem justificar muito a escolha.

“Não se pode impor condições a aliados”, responde o presidente do PT mineiro, deputado federal Regi­naldo Lopes. “O mais importante não são as pessoas e, sim, a aliança programática”, emenda o petista. Ele lembra que não há como definir o vice da chapa enquanto não chegar ao fim a disputa para saber quem será o cabeça de chapa. A aliança regional entre os dois partidos é um desdobramento da união definida no plano nacional entre PT e PMDB em torno da candidatura de Dilma Rousseff. “Não existe aliança por decreto. A tese de palanque único em Minas é ainda uma tese em construção. O PMDB tem que entender isso. Senão, leva a aliança e não leva as bases do PT”, avisou Reginaldo Lopes, sinalizando que o fogo amigo ainda vai render muitos capítulos.


 
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