Sexta, 03 de Setembro de 2010
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Especial Indústria

Contribuição de peso

Terceira economia do país, a indústria mineira é responsável por mais de um terço da composição do PIB do estado

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Fotos do especial: Henry Yu/ Victor Schwaner/ Alexandre C. Mota/ Alberto Wu/ Daniel de Cerqueira/ Tião Mourão/ André Fossati/ SXC/ divulgação

 

Terezinha Moreira

A economia mineira, terceira maior do país, é representativa e bastante importante para a economia brasileira. Sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) nacional é de 10%. Minas tem característica de grande participação da indústria na formação do PIB estadual, diferentemente dos outros estados brasileiros. A indústria é responsável por cerca de 32% das riquezas geradas por aqui. “Esta é a primeira explicação para se entender por que Minas Gerais foi o estado mais afetado pela crise em 2009, por causa das características de sua indústria, cuja concentração está em mineração, siderurgia, indústria de material de transporte e de alimentos, que representam cerca de 65% da nossa indústria”, explica o gerente de Economia e Finanças da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Guilherme Velloso Leão.

Exceto o setor de alimentos, os outros mais fortes no estado foram muito afetados pela crise internacional iniciada em 2008 por causa do alto nível de exportação. No caso da indústria extrativa, as exportações representam 60% da produção das empresas do setor. Já o de metalurgia, 30% da produção são vendidos para outros países. Esta dependência externa puxou para baixo os indicadores da indústria mineira, cuja queda foi de 10,7% em 2009. A indústria mineira também registrou o segundo pior desempenho, no Brasil, no ano de 2009 em relação a 2008. A queda na produção física da indústria foi de 13,1% enquanto a queda no país foi de 7,4%. O único segmento de relevo na economia mineira que registrou crescimento em 2009 foi o setor de alimentos. Mas, hoje, esta situação está quase voltando aos níveis de atividade do período pré-crise. “Os setores de metalurgia e mineração ainda não atingiram o patamar de um ano e meio atrás, mas vários indicadores mostram curva que indica que a indústria mineira está perto de atingir os níveis de produção de meados de 2008”, analisa Leão.


Guilherme Leão: nível de empregos na planta supera resultados de 2008
Guilherme Leão: nível de empregos na planta supera resultados de 2008

Um bom indicador da recuperação da indústria mineira é a contratação de mão de obra, que já ultrapassou os níveis de aquecimento da economia em meados de 2008. Isto é um fato relevante porque nenhum empresário contrata para que as pessoas fiquem paradas nas empresas. “Este é um indicador de que a produção física e o faturamento das empresas também aumentarão. Se a empresa contratou é porque tem serviço. Hoje, o número de empregados na planta já supera os níveis de meados de 2008 e esse pessoal está gerando horas de trabalho na produção acima do verificado em 2008. Então, é só uma questão de tempo para essa produção virar faturamento”, diz Guilherme Leão. Outro bom indicador, segundo ele, é que o nível de utilização da capacidade instalada na indústria mineira está crescendo e chega a 88%. “Não tenho dúvida de que superamos a crise e estamos em um processo de crescimento baseado no mercado interno”, analisa. Com relação às exportações, o economista da Fiemg diz que elas ainda não esboçaram reação.

Siderurgia está entre os maiores setores da indústria do estado
Siderurgia está entre os maiores setores da indústria do estado

A indústria mineira não tem muita diversificação, o que é um ponto desfavorável para o estado porque, em caso de crises em alguns setores, o PIB de Minas pode ser bem afetado, como ocorreu na última crise mundial. Mas, a realidade é que os setores de extração de minerais metálicos, metalurgia, alimentos, petróleo e álcool representam 70,9% do PIB do estado. Este é um fato que não pode ser mudado da noite para o dia. Mas a boa notícia é que estudos realizados com base nos anos de 1996 a 2006 comprovaram que está havendo maior ganho de produção de alguns setores da indústria mineira na produção nacional. O segmento de fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos cresceu 105% no período; o de fabricação de máquinas para escritório, equipamentos de informática e materiais eletrônicos aumentou 71%; máquinas e equipamentos, 52% e o segmento de produtos químicos, 11%. “Isto significa que Minas ganhou em market share nesses setores e, para nossa surpresa, eles não estão entre os que representam 70% do PIB mineiro. Isto significa que outros setores ganham espaço na economia mineira”, salienta Guilherme Leão, para quem a diversificação reduz o risco de volatilidade da economia do estado.

Setor têxtil aumenta participação na indústria mineira
Setor têxtil aumenta participação na indústria mineira

Dados confirmam que a indústria mineira tem forte relevância em âmbito nacional. O setor de metalurgia daqui responde por 37% da produção brasileira de aço; o estado é o maior produtor e exportador de ferro-gusa; 25% da produção nacional de fundição saem de Minas Gerais; o estado tem uma indústria alimentar bastante diversificada; é o terceiro maior setor da indústria química do país; é o primeiro maior produtor de café, segundo de feijão e terceiro sucroalcooleiro, devendo chegar a segundo nos próximos anos devido às vantagens do estado para a produção da cana-de-açúcar.  Minas Gerais é também o segundo polo automotivo do Brasil, o segundo polo têxtil e o maior produtor de cimento, sendo responsável por 23% da produção nacional. Ao todo, o estado possui 112.563 indústrias classificadas nos segmentos da indústria extrativa, transformação e construção civil. Empresas com mais de 30 empregados são as que têm maior relevância na geração de valor dentro da indústria, em Minas. Ao todo, são 5,6 mil companhias com esta característica, que respondem por mais de 70% dos empregos gerados na indústria do estado.

Um dado não muito confortável para a economia de Minas é com relação à distribuição espacial da indústria no estado, que está muito concentrada em três regiões de planejamento: Central, Rio Doce e Triângulo Mineiro. A região Central responde por 56% do PIB industrial de Minas; o Rio Doce, por 11% e o Triângulo, por 10%. As regiões Norte, Nordeste e Noroeste correspondem a 2,8% da produção industrial de Minas. “Estamos falando de uma área territorial que ocupa quase metade do estado, abriga quase 40% de todos os municípios mineiros e concentra cerca de 50% da população mineira. É por isso que Minas Gerais é o terceiro PIB do país, mas quando é analisado o PIB per capita, o estado tem posição bastante tímida em relação à sua pujança e tamanho, pois existe uma grande região de Minas que não consegue atrair indústrias”, lamenta Guilherme Leão. Ele diz que o estado tem políticas públicas para incentivar empresas a se instalarem nestas regiões, mas essencialmente fiscais e creditícias. O fato é que a cada dia é mais claro que este tipo de política não basta para atrair a indústria, pois representam pouco considerando as outras demandas que as empresas terão ao se instalarem nestas regiões, como a necessidade de vias de escoamento de produção e de recepção de
matérias-primas, energia em volume suficiente para suportar processo de industrialização, além de mão de obra em quantidade e nível adequados para a indústria.

Metalurgia responde por 37% da produção nacional de aço
Metalurgia responde por 37% da produção nacional de aço

Outra característica da indústria mineira é o conservadorismo. São poucas as que realizaram IPO. “Há necessidade da indústria se voltar para uma maior capitalização para conseguir fazer frente aos investimentos que estão batendo em sua porta. E, isso pressupõe que uma empresa está disposta a mudar sua estrutura de capital, a abrir o capital para colocar participação de novos acionistas, que possam ajudá-la no processo de crescimento”, observa o gerente de Economia e Finanças da Fiemg. Guilherme Leão diz que as empresas mineiras, bem como as de outros estados, enfrentam alguns gargalos, como a alta carga tributária, a complexa, burocrática e densa exigência de documentação, que são fatores que prejudicam toda a indústria nacional. Além disso, o país ainda possui grau elevado de tributos nas exportações. “Somos o único país do mundo que exporta tributos. Sendo assim, não dá para ser competitivo”, ressalta Leão. Ele diz que a legislação trabalhista brasileira também é retrógrada, pouco flexível na viabilização das relações entre capital e trabalho e, adicionalmente, uma legislação que impõe o encargo trabalhista para o empresário sem reflexo positivo no salário direto do empregado. “No caso de Minas Gerais, temos uma política tributária das mais conservadoras do país. Isso merece ser trabalhado, estudado com o governo para que haja melhora do sistema no sentido de dar produtividade e competitividade às cadeias produtivas”, analisa o economista da Fiemg.

O estado é o segundo polo automotivo do Brasil
O estado é o segundo polo automotivo do Brasil

Outro problema é a infraestrutura, principalmente rodoviária e ferroviária, que ainda é um fator que merece aprofundamento na relação estado e iniciativa privada para tentar solucioná-lo, pois prejudica a produtividade da indústria mineira. Guilherme Leão resume em quatro os grandes fatores que ajudariam a economia mineira a dar saltos elevados de competitividade. O primeiro ponto é a parceria do estado com a iniciativa privada por um sistema tributário mais eficiente, mais ágil, com menor carga tributária sobre as cadeias produtivas e com respostas mais rápidas quando for observada concorrência predatória nos estados limítrofes. Outro aspecto são as parcerias público-privadas para agilizar investimentos nas áreas rodoviária, ferroviária e hidroviária. Também é necessária uma instituição financeira mais capitalizada para apoiar a indústria como um todo, pois o BDMG não tem capacidade para atender a todas as demandas da indústria do estado. E, finalmente, é necessário se pensar em um programa de fomento da micro e pequena empresa no que tange à sua gestão. “Apri­morar a gestão dessas empresas significa oferecer-lhes mais competitividade e longevidade”, finaliza Leão.

MG possui 112.563 indústrias nos segmentos de extrativa, transformação e construção civil
MG possui 112.563 indústrias nos segmentos de extrativa, transformação e construção civil

Raio X da indústria em MG

- A economia mineira é amaior do país
- Participação no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil: 10%
- Participação no PIB mineiro: 32%
- Características da indústria de Minas: concentração em mineração, siderurgia, material de transporte e alimentos, que representam 65% do setor industrial mineiro
- Minas possui 112.563 indústrias nos segmentos de extrativa, transformação e construção civil
- 5,6 mil indústrias respondem por mais de 70% dos empregos gerados no setor
- Crescimento de 1996 a 2006 da indústria mineira no mercado nacional:
- Fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos: + 105%
- Fabricação de máquinas para escritório, equipamentos de informática e materiais eletrônicos aumentou: + 71%
- Máquinas e equipamentos: + 52%
- Produtos químicos: + 11%

Indústria mineira no Brasil

- Metalurgia: responde por 37% da produção brasileira de aço
- Minas é o estado que mais produz e exporta ferro-gusa
- Minas é responsável por 25% da produção nacional de fundição
- O estado tem o terceiro maior setor da indústria química do país
- É o maior produtor de café, segundo de feijão e terceiro sucroalcooleiro
- Minas Gerais é o segundo polo automotivo do Brasil, o segundo polo têxtil
- O estado é responsável por 23% da produção nacional de cimento

Fonte: Guilherme Velloso Leão/Fiemg

A falta de mão de obra qualificada nas indústrias já é a maior preocupação entre os empresários e pode ser um dos obstáculos nesta retomada de crescim
A falta de mão de obra qualificada nas indústrias já é a maior preocupação entre os empresários e pode ser um dos obstáculos nesta retomada de crescim

Em busca do trabalhador

A falta de mão de obra qualificada nas indústrias

Iracema Barreto

O nível de emprego na indústria aumentou. Em março, o crescimento foi de 2,4%, a maior expansão ante igual período do ano anterior desde 2008, segundo apurou a última pesquisa nacional realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No caso mineiro,  o faturamento já vem atingindo os níveis pré-crise, de acordo com os indicadores da Fiemg. O aumento da massa salarial é outro fator positivo já registrado. Mas, no caminho de uma expansão ainda maior do setor, há uma pedra. E das grandes: a falta de mão de obra qualificada. Em alguns segmentos, a saída para amenizar o descompasso entre a geração acelerada de novas vagas e a ausência de trabalhadores foi investir na formação dos próprios profissionais.

A construção civil é uma das responsáveis pela grande oferta de em­pregos na indústria. O boom de novos empreendimentos e as obras que vêm na esteira de ações federais como o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) são os principais motivos. Em abril, o segmento registrou o quarto recorde seguido de geração de novos postos de trabalho, com saldo de 38.951 vagas em território nacional. Proporcionalmente, é um dos setores que mais sofrem com a falta de pessoal especializado, como engenheiros, pedreiros, topógrafos e mestres de obras. Sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que o problema passou de segunda para primeira preocupação dos empregadores no primeiro trimestre deste ano, comparado ao último trimestre de 2009, quando a elevada carga tributária aparecia como o principal motivo da falta de sono dos empresários da construção civil. A CNI destaca a restrição do aumento da competitividade como um dos impactos negativos dessa escassez de mão de obra qualificada, mas aponta o investimento das próprias empresas em qualificação como medida adequada para que o quadro se normalize a médio prazo.

A indústria de máquinas tem recorrido a workshops para atrair mais trabalhadores
A indústria de máquinas tem recorrido a workshops para atrair mais trabalhadores

Para encurtar esse abismo, além de cursos de especialização nos canteiros de obras, muitas construtoras montaram verdadeiros pacotes de benefícios como forma de evitar a migração de suas equipes para a concorrência. Cabe de tudo nesse pacote – plano de saúde extensivo à família, seguro de vida e até toalha limpa para o banho no fim da jornada de trabalho.  “Cada empresa oferece algum diferencial. Muitas construtoras estão também pagando prêmios por produtividade, assiduidade, maior organização no canteiro de obras”, diz o vice-presidente de Política, Relações Trabalhistas e Recursos Humanos do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), Bruno Vinícius Magalhães. “É um lado positivo dessa grande demanda, a valorização profissional”, ressalta.

Uma saída encontrada pelo sindicato mineiro foi estabelecer parcerias com instituições de ensino superior como Fumec, PUC e Kennedy para criar uma espécie de banco de empregos. Já ao Senai caberá a formação de turmas de até 25 alunos nos canteiros de obras. A primeira delas começa a ter aulas em junho. A ideia é formar multiplicadores de mão de obra, ou seja, transformar ajudantes em oficiais – como são chamados os técnicos especializados na construção civil. Bruno Magalhães destaca ainda a parceria com a ONG Aprecia, que capta no mercado potenciais trabalhadores para o segmento e oferece treinamento para os interessados.

Lincoln Gonçalves: “A falta de mão de obra ainda não compromete”
Lincoln Gonçalves: “A falta de mão de obra ainda não compromete”

O setor de panificação também sofre com a falta de mão de obra adequada. Tanto a Associação Mineira da Indústria da Panificação (Amip), quanto o sindicato dos trabalhadores do setor (SIP) garantem: há vagas para pelo menos mil padeiros profissionais e para até 700 confeiteiros, a maioria em Belo Horizonte, onde estão concentradas 1,8 mil das 14,7 mil padarias do estado. O setor emprega diretamente cerca de 150 mil pessoas e registrou faturamento de 7 bilhões de reais em 2009, quando cresceu 13,07%, superando a média nacional (12,61%). A expectativa é fechar 2010 com novo recorde de crescimento – até 15%, pelos cálculos do presidente da Amip, Antônio de Pádua Moreira. Para evitar imprevistos que possam impedir a concretização dos números, investimento em qualificação é a palavra de ordem.

“O treinamento dos profissionais é essencial para o sucesso do negócio. As padarias estão se modernizando para atender o consumidor e isso refletiu positivamente no consumo e na geração de empregos”, observa Luiz Carlos Caio Xavier Carneiro, presidente do Sip lembrando que a diversificação de serviços e produtos oferecidos pelas padarias, como café da ma­nhã, sushi bar, happy our, além de pães mais elaborados, exige mão de obra específica, como nutricionistas e engenheiros de alimentos.

Construtoras oferecem pacotes de benefícios para evitar a migração de suas equipes
Construtoras oferecem pacotes de benefícios para evitar a migração de suas equipes

Entre as diversas ações oferecidas pela Amipão (junção do sindicato e da associação) estão os cursos de formação e aperfeiçoamento em parceria com o Senai, palestras motivacionais, treinamentos, encontros com empresários, feiras e seminários. A melhoria do nível profissional, muitas vezes, é resolvida com soluções internas. Aparecida Oliveira, 37 anos, é hoje ajudante de confeiteiro na Padaria Antoine, na região da Savassi. Começou a trabalhar no local há cerca de um ano e meio como auxiliar de limpeza e foi promovida após passar por treinamento oferecido pela empresa. “Quem  não estiver aderindo a esse tipo de atitude está passado mais aperto”, pondera o presidente da Amip, Antônio de Pádua Moreira. Segundo ele, a Amipão desenvolve agora projeto em parceria com a prefeitura, o governo do estado e as Forças Armadas, onde são recrutados, entre os reservistas indicados, interessados em passar por teste vocacional. “Até pouco tempo trabalhar em padaria era visto como fim de linha. Hoje, é bom frisar, as condições de trabalho são outras e o profissional é bastante valorizado”, diz Moreira.
 

Setor de mineração: formação especializada para os empregados dos níveis técnicos
Setor de mineração: formação especializada para os empregados dos níveis técnicos

Além da construção civil e da panificação, a indústria de máquinas também sofre com a falta de mão de obra especializada para ampliar a produção. O setor tem recorrido a workshops para tentar atrair mais trabalhadores para as fábricas, segundo declarou recentemente o presidente da Asso­cia­ção Brasileira da Indústria de Má­quinas e Equipamentos (Abimaq), Antonio Carlos Bonassi, lembrando que a escassez de funcionários qua­lificados é consequência do aquecimento das vendas no mercado interno e do início da retomada das exportações. Dados da Abimaq apontam crescimento de 127,7% das vendas no mercado doméstico no primeiro bimestre de 2010. No Brasil, o setor conta com fabricantes como Caterpillar, Case New Holland, Komatsu, Volvo, entre outros.
 

Na siderurgia, a falta de mão de obra é constantemente monitorada
Na siderurgia, a falta de mão de obra é constantemente monitorada

O presidente do Conselho de Política Econômica e Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Lincoln Gonçalves, afirma que o setor de mineração também encontra dificuldades para encontrar profissionais de nível superior, mas já conseguiu amenizar a deficiência dos níveis técnicos oferecendo formação especializada para os empregados. Nos setores de siderurgia e alimentos o problema também é constantemente monitorado. Con­vênios com o Senai e outras instituições para a formação do pessoal demandado é uma das principais iniciativas. “A falta de mão de obra ainda não compromete o desenvolvimento da indústria mineira. Temos carências, sim, mas plenas condições de superar esse quadro”, ressalta Lincoln Gonçalves.

Treinamento gera oportunidades para ingresso de jovens no mercado
Treinamento gera oportunidades para ingresso de jovens no mercado
Cursos profissionalizantes são opções para preparar mão de obra
Cursos profissionalizantes são opções para preparar mão de obra
Aparecida Oliveira ao lado do presidente da Amip, Antônio de Pádua: promoção após passar por treinamento oferecido pela empresa
Aparecida Oliveira ao lado do presidente da Amip, Antônio de Pádua: promoção após passar por treinamento oferecido pela empresa
Bruno Magalhães: “Muitas empresas pagam prêmio por produtividade”
Bruno Magalhães: “Muitas empresas pagam prêmio por produtividade”

Engrenagem pronta

O novo presidente da Fiemg, Olavo Machado, fala de uma realidade no setor industrial bem diferente daquela do início da década, época em que a competição com o mercado externo era algo impensável

Alex Capella

Há sete anos, o empresário Olavo Machado Júnior comprou um Karmann Ghia, modelo 1969, original. Foi em 2003, início da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na época, a consultoria McKin­sey & Co. apontou que setores importantes da indústria brasileira apresentavam desempenho 70% inferior frente à concorrência internacional. As empresas nacionais não tinham como competir no mercado externo e sofriam com a invasão dos produtos importados. O que se viu foi um desmanche do parque industrial, inclusive, em Minas. Diante do cenário tenebroso, o engenheiro do setor elétrico não teve dúvidas: também desmontou o automóvel como uma espécie de catarse.

Passados sete anos, o charmo­so conversível vermelho ganhou as ruas, mas continua em fase de mon­tagem. As peças e engrenagens vêm sendo restauradas aos poucos, com muito critério, para que a rari­da­de pegue o asfalto, de forma triunfal, como na época em que era considerado o preferido das meni­nas. Apenas 175 unidades do modelo foram fabricadas no Brasil. Já a indústria nacional, incluindo a mineira, na opinião do novo presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), do alto dos seus 61 anos, tem hoje totais condições de participar de qualquer mercado, sem temer a concorrência de ninguém, nem da indústria chinesa. Agora, assim como na montagem do Karmann Ghia, Machado defende que, numa economia de mercado, “as porcas e arruelas” também precisam estar bem encaixadas.

E o encaixe certo, que propicia desempenho ao automóvel, no caso da indústria, é classificado pelo empresário como “barreiras técnicas” que fazem com que o setor cresça localmente, usando o próprio mercado. A opinião é de quem teve de lidar com a carga tributária, os encargos sociais e a concorrência desleal, desde cedo, na empresa do pai, fabricante de equipamentos de retransmissão de televisão.  Por isso, Machado não teme ser taxado de protecionista. “Não falo em fechamento, mas, sim, em criar condições para que nossas empresas se tornem mais competitivas. Precisamos proteger o nosso mercado. Somos a segunda opção de crescimento para o país. E pelas características do nosso mercado, acredito que o desenvolvimento vai fluir para Minas”, diz.

Casado há 35 anos e pai de três filhos, o novo representante da indústria mineira quer levantar a bandeira de que a classe empresarial precisa ser tratada com mais carinho pelos governos. Segundo ele, por causa da burocracia, a indústria vem perdendo a chance de ajudar o país a crescer ainda mais. “Há problemas causados pelo ema­ranhado da burocracia, pela deficiência dos portos e pelas dificuldades que há para investir no país. A minha primeira bandeira é o resgate do empresário que, no passado, teve problemas. Temos que criar condições para quem teve problemas com impostos, muitas vezes por culpa da burocracia”, afirma.

O novo presidente da Fiemg destaca a parceria com o governo do estado para o crescimento do setor industrial como nas reduções de alíquotas que, na sua visão, resultaram no aumento das vendas e da arrecadação. Mas o empresário destaca também a atuação do governo federal na área social como outro vetor do crescimento industrial, principalmente, nas áreas mais pobres. “Sou favorável ao Bolsa Família do Lula, porque foi a maneira que ele encontrou de distribuir renda. O Jequitinhonha começou a crescer, o aposentado passou a receber um dinheiro, a mãe solteira, o desempregado. Então, aquela economia pequena começou a ter recursos para rodar: o comerciante tinha para quem vender, o produtor agrícola aumentou sua produção”, lembra.

A palavra crescimento acompanhou o engenheiro do setor elétrico pelo resto da vida. E começou a ganhar importância quando, ao lado de um colega de faculdade, logo depois de se formar, abriu a sua primeira empresa, a Machado Corrêa Engenharia. Ambicioso, mas com espírito coorporativo, militou em entidades de classe como no antigo Centro das Indústrias das Cidades Industriais (Cici), de Contagem, e depois na própria Fiemg. Na década de 1980, foi presidente do Sindicato das Indústrias Elétricas de Minas Gerais. Exímio conhecedor do setor elétrico, foi chamado pelo então governador Newton Cardoso (PMDB) para dirigir o Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec), cargo que exerceu, simultaneamente, ao comando da Macorin.

A fabricante de transformadores de distribuição e painéis elétricos, tornou-se referência no estado. Mas, a vontade de crescer, fez com que Machado vendesse metade de sua empresa para seu maior concorrente, a Orteng, de propriedade do ex-presidente da Fiemg, Robson Andrade, que ocupa hoje a cadeira principal da Confe­deração Nacional das Indús­trias (CNI). A parceria resultou na Orteng MCT. “A Orteng tinha dinheiro, e eu, a tecnologia. O negócio foi importante para eles pela agregação de valor, porque eles entraram num novo negócio. E, para mim, o importante era a viabilização do negócio. Eu havia chegado ao limite da capacidade de investimento”, revela.

Agora, à frente da Fiemg, o empresário assegura que continuará o trabalho na defesa da estruturação econômica, da criação de condições para o desenvolvimento, da formação das pessoas, da geração de riquezas e do combate aos gargalos do setor. “Não há razão para fazermos grandes mudanças. Participei da administração do Robson Andrade e concordei com a maioria das decisões. Vamos partir de onde ele terminou. A Fiemg é importante para qualquer governo e não pode ser submissa. Por isso, acredito que não podemos ficar debaixo de tutelas que impedem o Brasil de avançar. Hoje, toda grande empresa tem programas ambientais. Será que o problema vem delas? Ou será que o problema é a insuficiente rede de esgoto, o que é de responsabilidade dos governos?”, questiona.

Políticos prestigiaram o Dia da Indústria no ano passado
Políticos prestigiaram o Dia da Indústria no ano passado

Mérito em 2010

Instituído em 1957 por JK, o Dia da Indústria consolidou-se em Minas e é comemorado todo dia 25 de maio. Des­de 1976, a Fiemg entrega, a cada ano, a um empresário do setor, o Título de Industrial do Ano

Flávio Penna

Segundo maior centro industrial do país, Minas Gerais tem uma participação expressiva na formação do PIB brasileiro. A mineração, a siderurgia e o setor automotivo têm forte presença na economia mineira que, ao longo dos anos vem se diversificando, graças a atração de novas empresas e o empreendorismo de seus empresários.

O “Dia da Indústria”, que Juscelino Kubstichek instituiu em 1957, como homenagem ao setor que se consolidava no país, começou a ser comemorado em Minas em 1960, na gestão de Fábio de Araújo Motta à frente da Fiemg. Naquele ano, foram condecorados os pioneiros da indústria mineira, pessoalmente ou através de familiares, como reconhecimento pelo esforço que realizaram em favor do desenvolvimento do estado.

Eduardo Pinheiro Campos, um dos agraciados com o Mérito Industrial 2010
Eduardo Pinheiro Campos, um dos agraciados com o Mérito Industrial 2010

Em 1965, a Federação das In­dústrias decidiu estabelecer o dia 25 de maio, ou uma data próxima, em função de interesses de agendas, para fazer a entrega da Me­dalha do Mérito Industrial a empresários de destaque na nossa economia, escolhidos por uma comissão formada por seus pares na entidade.

Evento reuniu centenas de empresários mineiros no Expominas em 2009
Evento reuniu centenas de empresários mineiros no Expominas em 2009

Desde 1976 a Fiemg entrega a um empresário do setor industrial, indicado por uma comissão especial, o “Título de Industrial do Ano”, em reconhecimento à contribuição dada ao desenvolvimento industrial de Minas. Trinta e quatro empresários já foram agraciados, entre eles o vice-presidente José Alencar, que recebeu o título em 1985. O trigésimo quinto empresário homenageado com o “Título de Industrial do Ano” foi o  engenheiro metalurgista Marco Antônio Soares da Cunha Castello Branco, ex-presidente da Usiminas. Junto com ele, outros trinta e um empresário foram agraciados com o “Mérito Industrial-2010”, em solenidade realizada na Serraria Souza Pinto, no dia 27 de maio.

Os homenageados com o Mérito Industrial 2010

Ademir Jorge Marinho - Diretor-presidente da Gráfica e Editora 101 Ltda.
 
Amira Zaidan Amaral - Diretora administrativa da Artefácil Indústria e Comércio Ltda.
 
Antônio Adonias Santos Borges - Sócio-diretor da Del Papéis Ltda.
 
Bernardo Andrade Valadares Gontijo - Diretor-presidente da AVG Siderurgia Ltda.
 
Carlito Pereira da Costa - Diretor-presidente da Carlito Pereira da Costa
 
Carlos Henrique de Paula Antunes Frauches
- Diretor corporativo da Fidens Engenharia S.A.

Cláudia Corrêa de Castro Magalhães - Sócia-proprietária da Paddia Comércio e Indústria Ltda. - Mabel Magalhães

Cláudio Fernando Santos Vidigal Amaro - Sócio-proprietário da Martha Veículos Indústria e Comércio Ltda.

Danilo César Elias - Diretor comercial da Ponto por Ponto Ltda.

Eduardo Pinheiro Campos - Diretor da Emccamp Residencial S.A.

Geraldo Eder Drumond Alves - Gerente geral da Cipalam - Indústria e Comércio de Laminados Ltda.

Gilnei Machado - Diretor-presidente da Telemont Engenharia de Telecomunicações S.A.

Gláucia Drager de Abreu - Sócia-proprietária da Recadanth Acessórios Alternativos Ltda.

Jorge Lages de Oliveira - Presidente da Medquímica Indústria Farmacêutica Ltda.

José Adilson Teixeira - Sócio e diretor comercial da Real Minas Têxtil Indústria e Comércio Ltda.

José Flávio Pereira Viana - Sócio-diretor da incorporadora e Construtura Viga Ltda.

José Luiz Balardin - Diretor financeiro da Usina Santo Ângelo Ltda.

Joselito Gonçalves Batista - Diretor-proprietário da Laticínios Traigor´s Ltda.

Luiz Raul Aleixo Barcelos - Sócio-diretor da Luiza Barcelos Calçados Ltda.

Marcus Vinícius Salum - Sócio-diretor da Salum Construções Ltda.

Milton Elias da Cruz - Sócio-diretor da Panificadora Palmeiras Ltda.

Onofre Siqueira - Diretor da Indústria de Carnes Nelore Ltda.

Paulo Marcon - Presidente da Sociedade Vinícula Marcon Ltda.

Paulo Sérgio Cunha - Sócio-diretor da Temper Indústria e Comércio Ltda.

Renato Ferreira Malta - Diretor-presidente da Vina Equipamentos e Construções Ltda.

Rogério Luís da Cunha - Sócio-diretor da Rubber Trade Produtos de Borracha Ltda.

Rogério Mascarenhas Cezarini - Diretor administrativo-financeiro e vice-presidente do Conselho de Administração da Estamparia S.A.

Rovaldo Coelho Cunha - Presidente da Creck Móveis Ltda.

Rubens Martins de Araújo - Diretor-presidente da Vasconcelos Indústria, Comércio, Importação e Exportação Ltda.

Sinval Bressan da Costa - Sócio-gerente da Indústria e Comércio de Malhas Pinguim Ltda.

Vicente Roberto de Carvalho - Diretor-presidente da Vicente Roberto de Carvalho & Cia. Ltda.

Gilnei Machado

Há nove anos à frente da Telemont Engenharia de Telecomunicações, empresário lidera time com mais de 10 mil funcionários no Brasil

Ana Clara Furtado

Respeito, simplicidade e excelência em gente. Estes são valores cultivados pelo diretor-presidente da Telemont Engenharia de Telecomunicações S.A., Gilnei Machado, desde o início de sua gestão, em 2001. Homenageado com a medalha Mérito Industrial da Fiemg, é com seriedade que o empresário lidera um time de mais de 10 mil empregados espalhados pelo Brasil, conduzindo com resultados positivos os negócios da empresa prestadora de serviços voltada para a implantação de redes telefônicas.

Orgulhoso pela premiação, Machado conta que é “mineiro por adoção”. Após graduar-se aos 23 anos em engenharia civil na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, cidade em que nasceu, mudou-se para Brasília, onde deu início à carreira. Foi lá que se dedicou, por algum tempo, à profissão de engenheiro, experimentando, dois anos depois, setores mais administrativos. Entrou para o grupo Dan-Hebert como diretor-técnico da construtora, tornou-se superintendente e, há nove anos, quando foi por eles comprado o controle acionário da Telemont, veio para Belo Horizonte. 

Desde então, a empresa de telecomunicações ampliou de forma significativa sua área de atuação no país, assim como o número de colaboradores e acessos de voz e dados. A adaptação ao mercado de operadoras privatizadas foi, segundo Machado, um dos maiores desafios enfrentados. Nos primeiros 25 anos da Telemont, hoje com 35, eram construídas redes telefônicas para operadoras estatais, cenário que mudou a partir de 2000. “Atualmente, além de construir redes, fazemos a operação e a manutenção das plantas. Isso exige uma responsabilidade maior, pois meu sucesso depende da velocidade e qualidade do meu serviço”, pontua.

Em 2007, a Telemont foi campeã, no setor de construção e engenharia, do prêmio Valor 1000, promovido pelo Jornal Valor Eco­nômico. Entre os diferenciais da empresa, Machado destaca o time de profissionais de qualidade, sempre atento às mudanças do mercado, de tecnologia e adaptações econômicas, em busca constante por inovações.

Aos 45 anos, casado há 20, pai de uma filha e um filho, o executivo da Telemont procura, com esforço, conciliar a vida pessoal com as responsabilidades na empresa e viagens a trabalho. “Uma família equilibrada e organizada em todos os aspectos lhe dá uma tranquilidade maior para exercer sua atividade, seja ela qual for.”

Marcus Vinícius Salum

Para o sócio-diretor da Salum Construções, a melhor forma de lidar com momentos instáveis é fazer dos cenários negativos boas oportunidades

Ana Clara Furtado

Reunindo espírito empreendedor e tradição familiar, o mineiro Marcus Vinícius Salum fundou, aos 21 anos, ao lado do irmão Caio Márcio Sa­lum e do primo Jorge Salum, a Salum Construções. Empresa de en­genharia civil especializada no segmento de obras públicas e no mercado industrial, o negócio de família iniciado antes mesmo de sua graduação na faculdade se desenvolveu e, hoje, é responsável por sua satisfação profissional. E o empresário tem muito a comemorar. Os 33 anos de dedicação, desafios e árduo trabalho ganham mais uma prova de terem valido a pena. Salum acaba de receber a medalha Mé­rito Industrial, reconhecimento da Fiemg por sua sólida trajetória profissional.

Gratificado com a homenagem, Salum valoriza não apenas os próprios caminhos trilhados como o empresariado mineiro em geral, o qual qualifica como sério, seguro e competente, sabendo driblar as di­versas crises e burocracias do país. Ele explica que um dos segredos do bom desempenho de seus negócios, inclusive, é exatamente saber lidar com os momentos instáveis, fazendo dos maus cenários, boas oportunidades. “Muitas empresas, em momentos de crise, diminuíram, ficaram restritas ao mercado. A Salum se preparou tecnica­mente, diversificou para o mercado privado e especializou-se”.

Aos 54 anos, o sócio-proprietário da Salum Construções zela por qualidade, segurança, responsabilidade social e respeito ao meio ambiente. Atuando na administração e representatividade da empresa, ele credita a positiva condução da profissão ao seu espírito de liderança, característica inata que sempre lhe rendeu muitos problemas a resolver, mas também incomparável aprendizado. Salum, de fato, destaca-se co­mo líder. Já ocupou cargos de presidência em diver­sos setores, desde o Sicepot, passando pelo Clube Sí­rio de Belo Horizonte até o América Futebol Clube, sua grande paixão e, segundo ele, o abacaxi favori­to.

Do time de coração, o qual ele considera sua cachaça, apenas abriu mão entre 2002 e 2008, assumindo, no ano passado, o posto de membro executivo do conselho de administração. É com a pelada do final de semana, reunindo o time formado há 28 anos, que ele alivia o stress do dia a dia. Valoriza ainda, acima de tudo, o apoio na vida pessoal, da esposa, duas filhas e um filho, que reflete, indiscutivelmente, na profissional. “Sou um homem feliz, principalmente por minha realização familiar.” Já em relação ao corre-corre à frente da Salum Construções, o empresário acredita que trabalha mais do que devia, mas não chega a se considerar um workaholic, felizmente. “Costumo dizer que minha busca é conseguir saber envelhecer e diminuir essa carga de trabalho.”

Cláudia Magalhães

Dando continuidade à história de sucesso da mãe no mundo da moda, ela se sente reconhecida com o Mérito Industrial 2010

Ana Clara Furtado

Talvez a menina que gostava de desfilar na infância jamais imaginasse que se tornaria uma renomada empresária, aos 40 anos. Foi aos 15 que Cláudia Corrêa de Castro Magalhães iniciou seus trabalhos na empresa da mãe, Mabel Magalhães, trilhando e acompanhando atentamente os passos de uma mulher determinada que, acima de tudo, sabia dar valor a cortes e tecidos de qualidade, caimentos impecáveis e estilo de primeira. Passou do estoque à recepção, esteve ainda na expedição, produção e estilo, até que conhecesse de pertinho toda a logística da fábrica. Foi com empenho, sempre se espelhando na figura materna, que ganhou, aos poucos, uma visão geral do seu local de trabalho, que ela considera essencial.

Atualmente com duas lojas em Belo Horizonte, clientes em diversas cidades do Brasil e showrooms na França e Espanha, a fórmula de sucesso da grife não mudou muito desde o falecimento de sua fundadora, em junho de 2004. Foi então que Cláudia, formada em administração de empresas, assumiu o posto de sócia-proprietária. Com a ajuda de irmãos e familiares, tem se esforçado para conservar o legado de Mabel, preocupando-se sempre em cultivar seus rigorosos padrões e palavras de ordem responsáveis pelo elevado nível da empresa.

Tamanha tem sido a dedicação que, aos 25 anos de carreira, Cláudia será homenageada com o prêmio Fiemg Mérito Industrial 2010. Feliz com a indicação, ela se sente privilegiada, mas conta que o reconhecimento tem gosto especial, represen­tando um feedback positivo à continuidade do trabalho deixado por Mabel. “Ela batalhou muito por isso e eu e meus irmãos quisemos continuar o que ela nos ti­nha deixado. É como receber o prêmio por ela, que merece mais do que eu.”

Além do dia a dia na fá­­brica, desafios do mercado da mo­da, viagens ao exterior e muitas toma­das de decisões, Cláudia divide o tempo com a filha e amiga, Júlia, 11, que faz ques­tão de buscar na escola. É com o apoio de uma equipe antiga e leal, de cerca de 50 pessoas, que ela conduz os negó­cios e busca, com pitadas de contem­po­ra­neidade, satisfazer os clientes com produtos diferenciados e exclusivos, aliados a bom atendimento, entrega e fidelida­de. Sentindo-se profissionalmente rea­­lizada, a empresária diz querer manter o equilíbrio atual, não tem a ambição de estar no topo, até porque seu foco não é crescer demais, mas con­servar o alto padrão da grife. Des­cre­­vendo-se como uma mulher de gar­ra, disciplinada e que pensa sempre positivo, é assim que Cláu­dia caminha, seguindo o estilo da mãe: perso­nalidade que, indiscutivelmente, con­tribuiu muito para o cenário da moda mineira.

Bernardo Andrade de Valadares Gontijo

Há 22 anos trabalhando no setor, o diretor da AVG Siderurgia afirma que as perspectivas para o mercado interno são positivas

Cláudia Rezende

Aos 40 anos, o mineiro Bernardo Andrade de Valadares Gontijo já tem no currículo 22 anos ligados ao setor siderúrgico do estado. Ele começou aos 18 anos, em 1988, na extinta Itaminas, na parte comercial. Depois disso, não parou mais e, desde 1995, é diretor da AVG Siderurgia, um dos braços do grupo AVG, que tem sede em Sete Lagoas e unidades em outras partes do estado. “Comecei muito cedo e, para mim, a principal fonte (de conhecimento) foi a experiência.”

Agraciado com a medalha do Mérito Industrial concedido pela Fiemg, Bernardo Gontijo observa que a homenagem é “um incentivo muito importante”. “Estamos trabalhando há tanto tempo no ramo siderúrgico. Vejo o Mérito Industrial como um incentivo para a minha carreira, um reconhecimento”, diz. Gontijo também já foi agraciado com a Medalha da Inconfidência concedida pelo governo de Minas Gerais a pessoas que se destacam durante o ano.

Segundo ele, a AVG Si­de­rurgia tem implementado projetos importantes, que estão se destacando no setor. Entre eles, ressalta os investimentos em reflorestamento em terrenos do Norte de Minas, uma forma de trabalhar aliada à sustentabilidade, e nas áreas de energia e mineração no quadrilátero ferrífero, que fica na região central do estado.

Além de ter começado jovem a carreira, Bernardo Gontijo passou uma temporada fora do Brasil, em estágios nos Estados Unidos e na China, em 1988, que contribuíram para o aprendizado profissional e o início das atividades no setor comercial. Ele conta que a ida para a AVG foi importante para que ele adquirisse uma visão mais completa dos processos, de gestão e das outras áreas da empresa em geral. “Sempre gostei muito de siderurgia. Para ficar 20 anos em um ramo, tem que gostar muito. Se não, não tem jeito.”

O diretor da AVG diz que está com uma perspectiva muito positiva para o setor no mercado interno pelo fato de a economia brasileira estar em crescimento. Quanto ao mercado externo, a história é um pouco diferente por causa das crises – de 2008 e a atual, na Europa – que afetaram as exportações. “Teremos os dois cenários neste ano: expansão no mercado interno e recuperação no externo”, observa. Mas, para ele, o grupo vai tirar de letra os desafios. “Fazemos um trabalho sério, e os resultados têm aparecido, uma etapa após outra.”

Carlos Frauches

Diretor corporativo da Fidens Engenharia tem em seu extenso currículo profissional projetos importantes para o desenvolvimento do país

Cláudia Rezende e Terezinha Moreira

Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aos 46 anos, Carlos Henrique Frauches, hoje diretor corporativo da Fidens Engenharia, tem um extenso currículo ligado à área. Ele iniciou a carreira em 1981 na extinta Tercam – Terraplanagem e Carregamento de Minérios, como estagiário. Lá, era o responsável pela área de equipamentos da empresa, onde ficou até 1992. A partir deste ano assumiu a área operacional da empresa, quando ela passou a construir grandes obras na área pública, como a rodovia MG-050 e a duplicação da BR-381 em direção a São Paulo. “Também fiquei à frente do projeto baixo Aracau, no estado do Ceará”, relembra o engenheiro.

Carlos Frauches teve oportunidade de trabalhar em projetos importantes para o desenvolvimento do país. Por exem­plo, obras de grande porte, como implantação da BR-317, no Acre, para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), e da BR-352, em Minas Gerais, também para o órgão federal. Ele também atuou nas obras na mina Brucutu, da Vale, na duplicação do ramal ferroviário Capitão Eduardo-Costa Lacerda e na construção da ponte sobre o rio Itacaiunas e seus acessos, no Pará, entre outras. Sua experiência envolve o atendimento a clientes tanto do setor público quanto do privado, nas áreas de engenharia de manutenção de equipamentos pesados e na supervisão de obras de grande porte.

O engenheiro permaneceu na área de equipamentos da Tercam até 2003, quando a empresa passou por transformações e mudou o nome para Fidens Engenharia. Mas, novos desafios ainda esperavam por Carlos Frauches. Em 2008 ele passou a compor a diretoria corporativa da Fidens, cargo que ainda ocupa. Há 29 anos na construtora, o engenheiro passou por vários setores, o que possibilitou que conhecesse todo o processo de funcionamento da companhia. “Esta experiência me proporcionou um nível de conhecimento muito grande do mercado da indústria da construção. Nesse período enfrentamos várias crises econômicas internas e externas, mas também presenciei a empresa aumentar de tamanho oito vezes”, salienta Carlos Frauches.

Durante todo esse período na Fidens Engenharia, Carlos Frau­ches diz que seu maior desafio foi conseguir fazer sucessores qualificados para ocupar seus antigos cargos. “Este é meu grande orgulho aqui dentro, pois sempre encontrei pessoas gabaritadas para me substituir nas funções que ocupava na empresa. Migrei de um cargo para o outro, mas sem que a área, que deixei, fosse prejudicada porque sempre escolhi pessoas competentes para dar continuidade ao meu trabalho”, relata o engenheiro. Para Carlos Frauches, a busca por mão de obra qualificada para a construção civil continua sendo um grande desafio para o setor, pois está muito escassa. 

Como uma forma de se preparar para melhor conduzir os negócios da Fidens, o engenheiro fez especialização no exterior na área de desenvolvimento de novos produtos, engenharia básica, produção e pós-venda. Carlos Frauches foi um dos responsáveis pela expansão da Fidens Engenharia. Ele atuou no desenvolvimento e implementação das primeiras atividades da empresa no exterior. Na época, a Fidens ingressou no mercado da construção pesada de Angola, país do continente africano, que tinha acabado de sair de uma guerra civil. A empresa passou a participar da reconstrução do país. “Esse desafio marcou muito minha carreira”, pontua o engenheiro. Hoje, uma das preocupações de Carlos Frauches é voltada para o crescimento sustentado e, devido a esse esforço, a Fidens já conquistou reconhecimento, como duas certificações ISO. 

Na área social, Carlos Frau­ches incentiva a Fidens a apoiar projetos que contribuem para o desenvolvimento dos brasileiros e do país. Entre eles, está o de inclusão esportiva da Asso­ciação Mineira de Rea­bilitação (AMR), o projeto Valores de Mi­nas, do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas), a ma­nutenção de uma casa com 16 jovens carentes na Cidade dos Meninos, da Sociedade São Vicente de Paulo e participação no Programa de Parceria Minas pela Paz, promovido pelo Instituto Minas pela Paz, organização não governamental, que nasceu a partir do interesse da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) de contribuir em ações de combate à violência. A Fidens também investe em iniciativas sociais e culturais por meio da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura e do Fundo da Infância e Adolescência (FIA).

Marco Antônio Castello Branco

Ex-presidente da Usiminas é homenageado com o título de Industrial do Ano concedido pela Fiemg

Ana Arsênio

"Na Europa, o futuro costuma ser portador de ameaças, já no Brasil, de esperança.” A frase, otimista, é do executivo Marco Antônio Castello Branco, 49 anos. Em Paris, onde foi visitar o filho mais velho, ele foi informado de seu novo título: Industrial do Ano, concedido pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Tratou logo de marcar a passagem de volta ao Brasil para a solenidade de entrega do título que aconteceu dia 27 de maio.

Ao falar de esperança, Castello Branco se refere ao futuro político do país, que neste ano elege um novo presidente. “Conseguimos enfrentar a crise econômica. O Brasil está crescendo e, tenho certeza de que o novo governo vai se empenhar em manter essa mesma estratégia”, disse ele, ao confidenciar que pretende continuar atuando profissionalmente no Brasil. “Tirei uns dias para descansar e visitar meu filho Manuel, que estuda cinema em Paris. As perspectivas no momento no Brasil são muito boas na área da siderurgia, que é onde costumo atuar, tanto em Minas Gerais como no Rio de Janeiro e no Nordeste. Acho que ainda tenho muito a contribuir para o crescimento do setor em nosso país”, disse ele sem, no entanto, revelar se já possui alguma proposta concreta de trabalho.

Marco Antônio Castello Branco, considerado um dos executivos mineiros de maior destaque de sua geração, deixou, recentemente, a presidência da Usiminas, onde atuou por dois anos. “Fiquei muito feliz com o título que me foi concedido pela Fiemg, ainda mais vindo de uma entidade com quem tenho uma convivência antiga, desde a época em que eu trabalhava na Mannesmann (hoje V&M do Brasil)”, disse ele, lembrando ainda que, em 2002,  chegou a ocupar a vice-presidência da Fiemg.

Mais velho de quatro irmãos, filho de um funcionário público e uma dona de casa, o engenheiro metalúrgico, formado pela UFMG, com mestrado e doutorado na Alemanha, nasceu em Belo Horizonte e iniciou sua carreira profissional em 1984 na Mannesmann S.A. Em 2000, assumiu o cargo de diretor-presidente e de operações da Vallourec & Ma­nessmann Tubes (V&M do Brasil S.A.), tornando-se membro do Con­selho de Adminis­tração da empresa em 2004. Época em que transferiu-se para a França, onde assumiu a presidência da divisão de tubos laminados a quente da Vallourec. O executivo deixou o cargo para assumir a presidência da Usiminas, em 2008, onde ficou por dois anos.

“Decidi retornar ao Brasil para ficar mais perto da família, de meus pais já muito idosos, o que coincidiu com o convite para assumir a presidência da Usiminas. Estes dois últimos anos foram de trabalho muito intenso à frente da empresa. Fico muito orgulhoso com o título concedido pela Fiemg porque ele é o coroamento do reconhecimento do meu trabalho”, disse o executivo,  que é casado e pai de dois filhos, sendo que o mais novo deles, Ricardo, é estudante de En­ge­nharia Civil na UFMG.

Hora de Crescer

Após oito anos à frente da Fiemg, Robson Andrade acaba de ser eleito presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e afirma que o momento é o de aproveitar os bons ventos para crescer, mesmo com a ameaça do retorno da inflação e da falta de infraestrutura. “Temos que achar os caminhos par

Flávio Penna

Depois de oito anos, quando exerceu dois mandatos, Robson Andrade está deixando a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). Assume em junho provisoriamente a presidência da Confederação Nacional das Indústrias, a CNI de forte presença na vida política e empresarial do país. Em outubro assume definitivamente o cargo de presidente da entidade, cargo que nenhum mineiro ocupava há 50 anos, eleito que foi por uma quase unanimidade no mês de maio. Aqui Robson Andrade, empresário de múltiplas atividades, fala um pouco da economia mineira e brasileira, adverte quanto a dificuldades que precisamos superar para ter um crescimento sustentável e defende, com convicção, o empresariado e as empresas nacionais.

O senhor assume a CNI num momento contraditório de nossa economia. Precisamos crescer, temos potencial para isso, mas não podemos crescer pois nos falta a infraestrutura e há ameaça de inflação.
Eu não concordo muito com esta colocação de não podemos crescer. A questão não é esta. Nós precisamos crescer, temos que crescer e vamos crescer. Temos é que achar os caminhos necessários para que isto aconteça. É claro que o país hoje tem uma estrutura que lhe permite ter uma inflação baixa, temos convivido com uma estabilidade monetária importante, mas precisamos resolver alguns problemas que podem nos ameaçar no futuro. Problema do déficit fiscal, o crescimento das despesas do governo, dar mais produtividade e competitividade às nossas empresas para que elas possam concorrer com empresas de outros países. Criar mecanismos, não digo de proteção, mas que não deixem nossos mercados sujeitos a produtos, por exemplo, da China que não tem parâmetros de custos. A competição deles é danosa e é em função do mercado que eles querem atingir, sem preocupação com custos ou tributos. Não dá para você competir com a China. Por exemplo, na questão dos trabalhadores, ela não tem qualquer preocupação com legislação trabalhista. E isto pesa nos nossos custos. Enfim, nós temos um país hoje com capacidade de crescimento, com mercado interno importante, com um parque industrial diversificado, com empresas bem preparadas. O que precisamos é dar a estas empresas mais competitividade, mais condições de inovação tecnológica para que, com isto, estas empresas possam crescer sem criar desequilíbrios no país. 

O senhor então não acredita em inflação de demanda?
Não, eu não acredito. Hoje as nossas empresas estão com um índice de capacidade utilizada na faixa de 83%. Então temos um espaço para crescimento. O que é necessário fazer é oportunizar e propiciar novos investimentos para que eles possam gerar produção, competição interna e manter a estabilidade de preços. O Brasil tem historicamente um volume baixo de investimento. Os investimentos do governo estão abaixo de 2% do PIB, enquanto na maioria dos países este volume é muito acima disto. A formação bruta de capital fixo nossa está variando entre 13% e 14% e nós precisamos chegar a 25% para ter garantia de que o país vai continuar crescendo. Estes são gargalos, problemas que nós temos que resolver no futuro. Temos que trabalhar para resolvê-los.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho disse em Belo Hori­zon­te que o país precisa parar de crescer baseado no consumo e passar a ter crescimento com base no investimento.
É verdade, precisamos crescer investindo mais. Só que para que isto aconteça, o governo tem que criar mecanismos para facilitar as exportações, desonerar as exportações, desonerar os investimentos. Você investir no Brasil é muito caro. Normal­mente 30% dos investimentos no Brasil são impostos que você paga antecipadamente, enquanto no mundo inteiro os investimentos são desonerados. O que é onerado é a produção. Então, para que a gente possa investir mais, é necessário desonerar os investimentos, facilitar as exportações. Não digo nem fazer mudanças na política cambial porque esta é uma questão de difícil tomada de decisão. Esta política cambial não favorece as exportações, mas, por outro lado, favorece o combate à inflação. Mas os juros altos atraem capital especulativo, então precisamos ter juros baixos para que o capital que entre aqui seja de investimento. Temos que desonerar as exportações para que as empresas, com dólar baixo, real valorizado, consigam competir lá fora por terem um produto competitivo. Temos ainda a burocracia. Nós gastamos no Brasil em torno de 1,2 mil horas/ano com as questões tributárias, enquanto a média no mundo é de 120 horas. Dez vezes mais. Há ainda a serem trabalhadas as questões ambientais, os gastos correntes do governo que têm aumentado muito, em detrimento do investimento. Se não me engano, no ano passado a receita tributária cresceu 6% e deste total, apenas 1% foi direcionado para investimento, os outros 5% foram destinados ao pagamento de despesas do governo. Isto não é possível. Nós temos que ter um governo eficiente, um governo bem controlado, que dirija grande parcela de seus recursos para o investimento. Então o professor Luciano Coutinho tem razão. Nós precisamos ter um crescimento voltado para o investimento, não para o consumo. O que gera emprego e desenvolvimento é investimento. Se você mantiver as condições atuais não haverá geração de emprego.

Até porque o consumo pode ser com produtos importados.
Exatamente. Você pode estimular o consumo com produtos importados. As empresas que estão aí, se elas não crescerem, não se expandirem, se não fizerem novos investimentos, não irão gerar novos empregos. O que gera novos empregos é o crescimento econômico.

Até aqui estamos falando do governo. E o empresário brasileiro, ele já está profissionalizado, preparado?
O empresário brasileiro é profissional há muito tempo, até porque é difícil você imaginar uma classe empresarial que conseguiu sobreviver a tantos planos econômicos como tivemos no passado, tantos planejamentos errados, como os decenais da Eletrobrás, Telebrás, Ministério dos Transportes, de todos os órgãos enfim, que mostravam um futuro maravilhoso, mas que, na realidade, havia uma estagnação da economia, um crescimento pífio, de 1,5% ou 2%, às vezes em alguns anos, com juros extremamente elevados, inflação elevadíssima. Então nosso empresariado é de muito valor. Por isso é que temos esta riqueza que é a versatilidade do empresariado brasileiro que é capaz, quando as coisas estão indo bem, de crescer rapidamente, ajudar o país neste crescimento que a gente tem visto aí nos últimos anos.

O governo de Minas tem como prioridade, já dita pelo governador Antonio Anastasia, a diversificação da economia mineira. A curto prazo é possível se conseguir esta diversificação?
Eu acho que Minas Gerais já tem uma economia um pouco diversificada e está caminhando para que ela seja ampliada. Mas precisamos aumentar este ritmo. Nossa economia é muito baseada em minério de ferro, siderurgia e em algumas commoditties, o que é bom, mas é preciso que o estado tenha uma indústria de maior valor agregado, de maior valor tecnológico. Com a crise, a economia que mais sofreu foi a mineira, mas é preciso considerar duas coisas. A primeira é que nós fomos a indústria que mais cresceu nos últimos anos, com as maiores médias do país. Talvez por isso também tivemos as maiores quedas do país. Temos que considerar também o peso da mineração no estado, apesar de termos uma siderurgia forte, uma indústria automobilística, celulose, café e outros setores igualmente fortes. Mas é preciso lembrar que, embora não pareça, a mineração envolve uma cadeia produtiva grande. Se você tem a mineração produzindo, trabalhando, você tem o fornecedor do vestuário, do calçado, do material de segurança, de alimentação, de tecnologia de informação e outros. Então ela movimenta setores importantes da economia mineira. No ano passado, com a queda nas exportações de minério, estes setores também caíram muito. Mas se temos minério em Minas, precisamos é dar graças a Deus. É que se um investidor quer investir em minério, e o produto está em Minas, ele não tem outra alternativa que não seja investir aqui. Há não a necessidade de criar uma disputa pelo investidor porque ele terá que vir para cá. Questiona-se muito a mineração pelo impacto ambiental. Hoje as mineradoras são muito responsáveis. Tão responsáveis que, normalmente, quando deixam de minerar, as áreas onde houve a exploração se tornam muito melhores do que antes da atividade. São empresas que preservam e cuidam do meio ambiente, geram emprego e renda. É preciso considerar que temos alguns países no mundo que têm minério em quantidade e talvez com melhor qualidade que o nosso. Na África, por exemplo, há muito minério a ser explorado, só que hoje, talvez por oscilações políticas, segurança jurídica e outras questões, não há exploração por lá. Mas o dia em que os países de lá superarem suas dificuldades, talvez a gente não tenha a oportunidade de vender nosso minério. Aí vamos ficar com uma quantidade enorme de minério, apenas depositada em nosso solo. O minério que temos precisamos explorar agora. Não é coisa que podemos guardar pro futuro. Quanto mais explorarmos agora, melhor. Não adianta ficar sentado nele.

A infraestrutura mineira é um gargalo para o desenvolvimento industrial?
No Brasil inteiro a infraestrutura é um gargalo e em Minas também. Veja, por exemplo, uma empresa que produz soja no Mato Grosso – talvez seja a região com a melhor produtividade do mundo – tem um grande problema de improdutividade até a produção chegar ao porto. O custo é muito onerado. Minas tem uma malha rodoviária grande, que não é homogênea, há estradas boas e estradas ruins que precisam melhorar. Temos obras como o antigo Viaduto das Almas que tem um ano que está para ser inaugurado. Desde que entrei na Fiemg, há oito anos, que vejo falar na transposição ferroviária de Belo Horizonte, um projeto antigo que, parece, vai sair agora e é importante para a redução do custo de transportes. Há outros projetos importantes que precisamos executar, como o sistema ferroviário para atender o noroeste do estado e o Jequitinhonha. O do metrô da capital que tem o menor investimento do país, enquanto outras cidades tiveram investimentos maiores. Também é importante investir mais em Minas nos centros de pesquisa. Neste campo o estado melhorou muito nos últimos anos. Tivemos investimentos bem melhores do que eram no passado, mas ainda precisamos muito de laboratórios, centros de pesquisa. Isto faz uma diferença enorme quando determinados setores estão procurando oportunidades  para investir.

Falar sobre economia nos remete à questão da educação. Este será um grande gargalo para o Brasil nos próximos anos?
Acho que esta questão da educação será um dos maiores gargalos no setor industrial e em outros setores também. A contratação de pessoal qualificado será muito difícil e vai gerar uma competição entre as empresas, desde a mão de obra dos trabalhadores das fábricas, da construção civil, como também de técnicos, engenheiros. É preciso que a gente comece a investir firme agora no desenvolvimento de trabalhadores capacitados para uma nova indústria, que terá que ser cada vez mais competitiva, mais preparada, mais comprometida. Uma indústria em que as pessoas que trabalham ali saibam que a empresa tem que estar preparada para competir em qualquer lugar do mundo.

Nestes oito anos em que dirigiu a Fiemg, o Brasil e Minas, comparados com eles mesmos, melhoraram, surgiram novos problemas?
Problemas vão surgir sempre e o Brasil é um país complexo, com muitos problemas a resolver, às vezes com certas dificuldades de solução. Mas nestes últimos anos Minas Gerais melhorou muito. Deu um salto de qualidade que é visível para qualquer um, para os que moram em Minas e para os que estão fora do estado. O governo Aécio, com o apoio do governador Anastasia, fez o Choque de Gestão e implementou o governo para resultados. O governo tem um planejamento, sabe aonde quer chegar e o que fazer,  apoia o empresariado nas suas necessidades e tem a responsabilidade e a coragem de sentar-se à mesa com qualquer setor e discutir de maneira bem transparente o que é possível e o que não é possível fazer. Isto com certeza fez muita diferença.

Mas em compensação nós não conseguimos fazer as mudanças política, tributária e outras que todos defendem como necessárias.
É, temos um país a construir, reformas importantes que precisam ser feitas, como as duas que você citou, mais a trabalhista, a previdenciária. É muita coisa a ser feita. Mas a reforma política, por exemplo, será que o Congresso Nacional é capaz de fazê-la? Os parlamentares farão uma reforma que poderá impactar negativamente para eles, no futuro? Como é que a discussão deve se dar para que este impacto seja positivo? Eu não tenho expectativa de que a gente possa fazer uma reforma política a curto prazo se não houver, por parte do presidente da República, determinação de fazer uma reforma. O Congresso só vota os projetos que são encaminhados pelo governo, então a reforma não será feita se não houver a vontade do governo de realizá-la. E a sociedade vai cobrar de quem? O parlamentar é votado, no norte, no sul, no leste, no centro, então, ele é parlamentar de qual região? Eu não sei qual o melhor sistema político, não sou especialista nisto, mas penso ser esta uma discussão que o país tem que fazer e com a qual o próximo presidente tem que se comprometer. A reforma tributária, penso, deve ser feita não de acordo com o que desejaríamos, mas com o que é possível. Fazer uma reforma aos poucos. Nós chegamos a ter um projeto de reforma com uma proposta que avançava muito, mas acabou não podendo ser feita por causa dos governadores, já que uns achavam que perdiam muito. É difícil você falar para um governador apoiar uma reforma em que seu estado perde receita. É preciso que a gente encontre um sistema que gere o equilíbrio, o que não é fácil. A União, que desde o governo Fernando Henrique vem arrecadando mais do que os estados, tem a obrigação, uma responsabilidade maior de proporcionar este equilíbrio.

Na sua administração na Fiemg foram implementadas ações interessantes de parceria com o governo. Esta forma de relacionamento da sociedade organizada com o governo foi interessante para ambos?
Foi sim uma experiência proveitosa para o empresariado mineiro e também para o governo do estado. Nós tivemos com o governador Aécio Neves uma parceria aberta, em que discutíamos a geração de emprego, o desenvolvimento econômico. Conseguimos atrair empresas para a formalidade, desoneramos produtos das indústrias mineiras, criamos mecanismos que permitiram a recuperação de muitas empresas, enfim, foram muitos avanços. Agora, nós estamos falando apenas em economia, mas é importante falar também nas nossas ações no social, na educação. Neste período de oito anos, um milhão e meio de alunos foram educados pelo Senai. Hoje, mais de cem mil pessoas são treinadas por ano pelo Senai, que tem mais de 200 escolas no estado e laboratórios credenciados pelo Inmetro. Trabalhamos muito as empresas mineiras em seus programas de responsabilidade social. Mais de 85% das empresas mineiras, o maior índice do Brasil, têm programas de responsabilidade social. Desenvolvemos programas para melhorar a qualidade de vida do trabalhador na indústria.

Das experiências desenvolvidas na Fiemg qual, ou quais, o senhor gostaria de implementar na Confederação Nacional da Indústria?
A CNI tem um trabalho muito grande de articulação com o governo federal e o empresariado nacional visando apresentar projetos e propostas para o desenvolvimento do país, com a retirada dos gargalos. Hoje existe uma uniformidade entre as ações das federações e as ações da CNI, implantada pelo presidente Armando Monteiro. O que nós teremos que fazer é dar continuidade a esta forma de trabalhar integrada, buscando que os projetos e propostas da indústria possam ser cada vez mais importantes para que o governo federal e os governos estaduais possam trabalhar com eles, visando transformar o Brasil numa grande nação. Nós queremos trabalhar com o próximo governo de forma a garantir que a indústria aumente sua participação no PIB, que caiu um pouco, até de forma natural, pelo crescimento do setor serviço. Precisamos atrair novas indústrias, desonerar investimentos, ajudar o país a ter uma política de investimentos, de facilitação de exportações para que nossa indústria seja cada dia mais competitiva. Uma indústria forte.

E em 2014, algum projeto de entrar na política?
Não, eu não quis entrar na vida pública. Posso ter tido alguma oportunidade...

O senhor chegou a ser cogitado para prefeito de Belo Horizonte?
Não, isto é porque talvez alguém queria o meu lugar mais cedo, né! É claro que é uma honra prestar serviço como governante, como parlamentar. Mas eu acho que tenho muito mais a dar no lado privado, como parceiro destes políticos de visão e respeito.


 
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