Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Economia

Nunca se consumiu tanto

Projeção é de que o aumento do consumo no Brasil este ano deve ser de 6,1% em relação a 2009, número que pode fazer acordar o tão temido dragão inflacionário

Texto: Queila Ariadne | Fotos: Alberto Wu


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Prazos mais longos, juros mais baixos, mais empregos e melhores salários. Com essa combinação, nunca se consumiu tanto no país. Este ano o consumo das famílias brasileiras deve ultrapassar a casa dos 2,2 trilhões de reais, um crescimento real de 6,1% em relação a 2009, segundo o IPC Target, que há 18 anos realiza estudos sobre consumo no Brasil. E por que isso não é tão bom quanto parece? O desempenho da economia não será melhor se os brasileiros gastarem mais? Nem sempre.

De acordo com o professor da Trevisan Escola de Negócios, Alcides Leite, se não houver investimentos suficientes para garantir que a oferta de produtos subirá na mesma proporção que a procura, o que seria bom fica péssimo. “Se a demanda crescer demais e a produção não acompanhar, mais gente vai querer comprar poucos produtos, isso fará os preços subirem e a inflação também”, justificou.

É por isso que no início de maio o governo anunciou o corte de 10 bilhões de reais nas despesas públicas para conter a inflação. “A economia está aquecida. Não está superaquecida. A melhor maneira de jogar água na fervura é diminuir os gastos de custeio do governo. É um sacrifício que os ministérios vão ter de fazer”, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no dia em que anunciou o segundo contingenciamento do ano – em janeiro foi anunciado um corte de 21,8 bilhões de reais. Segundo ele, o governo não pode deixar o PIB crescer mais do que 7%. “Não é bom para a economia crescer nem de menos e nem de mais”, afirmou o ministro.

O professor Alcides Leite lembra que este também é o motivo pelo qual o Banco Central já começou a elevar a taxa de juros com o objetivo de encarecer os financiamentos e frear o consumo. “Até agora temos conseguido um certo equilíbrio, mas, se o consumo continuar crescendo neste ritmo, sem aumento da produção industrial, aí já teremos problemas de falta de abastecimento e de inflação no segundo semestre”, explicou Leite.


Aline Zapulla: “Guardo 30% do que ganho e torro outros 30%”
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O diretor da IPC Marketing Editora, que publica o IPC Target, Marcos Pazzini, estima que o PIB crescerá 5,8% em 2010, menos do que os 6,1% do consumo nacional. Segundo ele, este será o sexto ano consecutivo que os gastos da população crescerão mais do que a economia. “Quando o consumo está aquecido, sempre há riscos de uma demanda descontrolada, mas aqui no Brasil a chance de isso acontecer é pequena, pois o governo já tomou algumas providências cortando gastos e juros”, destacou Pazzini.

De onde vêm os gastos?

Mas quem é que está gastando tanto e com o quê? O levantamento do IPC Target mostra que a classe que mais avançará no consumo será a B. Em 2009, essa faixa (com renda familiar entre 2.950 e 5.530 reais) era responsável por 42,5% dos gastos. Este ano terá uma fatia de 46,5%. Já a classe A (entre  9.850 e 14.550 reais)  terá queda de 21,3% para 20% e a participação da C (entre 1.100 e 1.650 reais) cairá de 30,1% para 27,7%.

A relações públicas Aline Zap­pulla Batista é o resultado da equação melhor emprego + melhor renda =  mais consumo. Ela tem 23 anos e trabalha desde os 16.  Há um mês, trocou o emprego por outro com carteira assinada e agora conta com uma fonte de renda mais segura. Ela sempre se deu ao luxo de fazer suas comprinhas, mas nunca deixou de pensar no dia de amanhã. Durante todo este tempo, juntou dinheiro para comprar um carro. Agora o futuro está prestes a virar presente. “Já tenho o valor que preciso e pretendo pagar à vista”, conta.

Os anos de economia não a impediram de fazer suas compras. “O que mais gosto de comprar são roupas, então sempre fiz e ainda faço o seguinte: guardo pelo menos 30% do que ganho, uso 40% para minhas despesas particulares e os 30% restantes é só para torrar”, revela a tática. Para realizar o sonho do primeiro carro, nos últimos meses Aline fez um esforço maior e juntou quase 80% do salário por mês, mas continuou engrossando as estatísticas do consumo no Brasil. “Ainda fiz minhas compras, só que gastando menos. Quando a gente tem um objetivo, por que comprar uma calça de 200 reais, se podemos levar uma de 50?”, ressalta Aline.

Para onde vão os gastos

O brasileiro vai gastar 6,1% a mais em 2010. Mas para onde vão esses gastos? O estudo do IPC Target revela que a manutenção do lar é o item que levará a maior parte do orçamento. A cada 100 reais gastos, 27,60 ficarão neste setor. Em seguida virão outras despesas, com 21,6% em alimentação e bebidas, com 19,7%. Calçados e vestuário ficarão com 5,3%.

Geograficamente falando, São Paulo dará a maior contribuição. Dos 2,2 trilhões de reais que as famílias brasileiras gastarão no ano, 641,5 bilhões serão consumidos neste estado. Em seguida virão Rio de Janeiro com 255,27 bilhões, e Minas Gerais com 224,7 bilhões. Os belo-horizontinos vão consumir este ano 46,8 bilhões, ou 21% do volume que deve ser gasto pelos mineiros. A capital de Minas, que em 2009 estava em terceiro lugar no potencial de consumo, este ano caiu para a quarta posição, ultrapassada por Brasília. “Isso não aconteceu porque Belo Horizonte perdeu poder de compra, mas sim porque Brasília não depende tanto da iniciativa privada e tem mais investimentos públicos”, justifica o diretor da IPC Marketing Editora, Marcos Pazzini. 

Consumo em 2010

R$ 2,2 trilhões = 6,1% a mais do que R$ 1,8 trilhão de 2009

Por setores

 

27,6%     Manutenção do lar

21,4%     Outras despesas

19,7%     Alimentos e bebidas

7,6%       Transportes/ veículos

7,3%       Higiene e saúde

5,3%       Vestuário e calçados

3,7%       Recreação e viagens

2,6%       Educação

2,2%       Eletrodomésticos/ equipamentos

2%          Móveis

0,7%       Fumo

Entenda por que o brasileiro está consumindo mais

Emprego

Em abril de 2009, foram abertos 106,2 mil empregos com carteira assinada. Além de ser o melhor abril, também representou o segundo melhor resultado de todos os meses da série histórica do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Depois deste resultado, o ministro do Trabalho revisou a criação de empregos formais em 2010 de 2 milhões para 2,5 milhões
 
Renda

Segundo dados do IBGE, a renda média do trabalhador subiu de R$ 1.393,05 em fevereiro de 2009 para  R$ 1.413,40 em fevereiro deste ano, crescimento real de 1,46%,  já descontada a inflação
 
Prazos

Segundo a Associação Nacional das Empresas Financeiras de Montadoras (Anef), de 2004 para cá, o prazo médio de financiamento de veículos subiu de 34 meses para 42 meses, mas há planos que dividem em até 84 vezes

Os 10 maiores potenciais de consumo para 2010

Cidades                  Participação            em R$ bilhões

São Paulo                9,63%                        211,86
Rio de Janeiro        5,85%                        128,70
Brasília                     2,17%                        47,74
Belo Horizonte        2,13%                        46,8
Salvador                  1,8%                           39,6
Curitiba                    1,75%                        38,5
Fortaleza                  1,37%                        30,14
Campinas               0,99%                        21,78
Recife                       0,86%                        18,92

FONTE: IPC Target 2010

Por classes

Classe                   2009                      2010

A1                            4,1%                       3,2%
A2                           17,2%                     16,8%
B1                          19,9%                      22,8%
B 2                          22,5%                     23,7%
C                             30,1%                     27,7%
D                             5,7%                       5,4%
E                             0,4%                        0,2%


 
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