Quarta, 23 de Maio de 2012
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Turismo

Pelas Trilhas do Peru

Conhecer a cidade perdida dos incas já é um programa e tanto. Mas a trilha do Salkantay, caminho alternativo para chegar até lá, é mais do que imperdível

Texto: Fernando Torres | Fotos: Pedro Vilela


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Trekking e conforto combinam? Na trilha do Salkantay, sim. Rota alternativa ao tradicional caminho inca em direção à histórica Machu Picchu, no Peru, o circuito esconde entre as montanhas quatro charmosos lodges (chalés) com toda a infraestrutura para abrigar viajantes. Entenda-se por conforto: grupos milimetricamente reduzidos, chef particular especializado na gastronomia regional, calefação em todos os quartos e jacuzzis com vista para a serra andina. A aventura, por sua vez, fica por conta da caminhada de cinco a seis dias de aproximadamente 50 km, com direito a grandes altitudes, temperaturas extremas, caminhos pedregosos, veraneios por lagos glaciais, vista de picos nevados e, mais adiante, mata fechada. E dá-lhe água e chá de coca para aliviar o soroche, o mal de altura, caracterizado por dor de cabeça, náuseas, diarreia, cansaço extremo e falta de ar.

Por conta do soroche, são necessários pelo menos dois dias de aclimatação às grandes altitudes da região antes do início do trekking. A viagem, portanto, começa em Cusco, antiga capital do império inca, a 3.400 m acima do nível do mar. A cidade (umbigo do mundo na língua indígena quéchua) tem seu próprio roteiro de atrações, tais como: Koricancha, antigo templo do Sol, transformado em Convento de Santo Domingo pelos espanhóis; a catedral de Cusco, na plaza de Armas; o pitoresco mercado central; e as ruínas do parque Arqueológico de Sacsayhuamán, onde se comemora o ano novo inca, em 24 de junho.


Belos cenários naturais
Belos cenários naturais

Mas é na trilha propriamente dita que está o cerne da viagem. O trekking se inicia a partir do vilarejo Mollepatta, mas há a opção de ir de carro até a região de Soraypampa, aos pés dos picos nevados Salkantay e Humantay, a 6.271 m e 5.917 m, respectivamente. Ali, fica o Salkantay Lodge, a 3.850 m, o único em que se pernoita duas noites.

Os 6 km do primeiro dia de caminhada são, digamos, apenas um treino para o que está 8
por vir. Por meio de uma trilha ascendente bastante íngreme, chega-se ao lago glacial Hu­mantay. A coloração verde-azulada convida a um mergulho, mas a água é tão gelada que poucos conseguem ficar imersos por mais tempo. Do alto de seu 1,50 m, o xamã Victor Flores, da tribo dos q’eros, e sua inseparável flauta de pã complementam a magia do lugar com um ritual à Pacha Mama, a mãe terra, deusa dos incas. Primeiro, ele entrega três folhas de coca a cada viajante, repete seus nomes na língua quéchua e pede para que eles as soprem em direção às montanhas. “Estou pedindo para Pacha Mama protegê-los durante a viagem”, explica, enquanto organiza as folhas em um círculo, complementado por pétalas de flores. Em seguida, o xamã organiza uma oferenda composta de chocolates, balas, biscoitos, entre outras guloseimas. Ele envolve o presente em papel de seda e em uma toalha costurada à mão; novamente, diz para que cada um sopre três vezes em direção à montanha, mentalizando lugares degradados do meio ambiente. Por fim, Victor queima a dádiva, em uma fogueira regada a vinho. Nesse momento, a montanha faz um barulho parecido com um trovão – e sem efeitos especiais. “É a resposta de Pacha Mama. Ela aceitou nossa oferta”, sorri o peruano. E volta a tocar sua flauta.

À noite, banho na jacuzzi para relaxar
À noite, banho na jacuzzi para relaxar

À tarde, depois da caminhada é puro relax. O programa no Salkantay Lodge inclui sessão de massagem, banho de jacuzzi com vista para as montanhas e aula de pisco sour, o drinque de aguardente de uvas (veja quadro). Tudo para aguentar o tranco do segundo dia. O percurso de 13 km pelo vale do rio Blanco tem como pon­to alto – literalmente – o Abra Salkan­tay, a 4.600 m de altitude, de onde se avista o pico nevado e a Cordilheira de Vilcabamba. Mas para chegar lá, é preciso vencer as temidas Sete Vol­tas, uma desafiadora subida em zi­guezague. Quem não suportar o ar rarefeito tem o auxílio de mulas, que seguem o grupo praticamente em todo o percurso, podendo carregar, inclusive, as mochilas (a bagagem, limitada a uma por pessoa, segue em comboio de mulas à parte). Na descida do Abra Salkantay, a boa vida inclui almoço preparado pelo chef Zoylo Caollion e sua equipe, que acompanha os viajantes nos quatro lodges.

Fachada de um lodge, chalé construído ao longo da trilha
Fachada de um lodge, chalé construído ao longo da trilha

Quase no fim do dia, chega-se ao Wayrac Lodge, no vale de Huayrac­c­machay, que significa onde o vento faz a curva. Não é exagero. O frio é intenso e a casa de pedra a 3.920 m de altitude, com apenas seis suítes, fica realmente no meio do nada, emoldurada apenas pelo vale e as montanhas.

Percursos íngremes e pedregosos durante o trekking
Percursos íngremes e pedregosos durante o trekking

No terceiro dia de caminhada, a trilha finalmente começa a descer, ao contrário da temperatura, que sobe consideravelmente. Os 9 km até Collpapampa, às margens do rio Blanco, são bem mais fáceis e a vegetação começa pouco a pouco a mudar: os picos nevados dão lugar à mata fechada. “Essa região é habitada pelo oso de anteojos (urso de óculos), que corre sério risco de extinção”, informa o guia Jairo Bocangel. “Mas ele nunca aparece nas trilhas”, tranquiliza.

Lhama: animal típico da região andina
Lhama: animal típico da região andina

Mas outro animal típico do Peru irá dar as caras logo em seguida, no Colpa Lodge, a 2.840 m. É o cuy, mais conhecido como porquinho da índia. Antes considerado sagrado pelos incas, o roedor perdeu a aura transcendental e passou a ser criado em larga escala para fins alimentares e domésticos. Seu sabor lembra o de frango, mas com um tom adocicado e pele mais dura. Ele é a estrela da pachamanca, o típico churrasco andino. Os ingredientes – diversos tipos de batatas e carnes embaladas em papel alumínio – são colocados em um buraco na terra, preenchido com pedras aquecidas na fogueira. Depois de aproximadamente uma hora, o forno entrega os alimentos cozidos. ”Os incas acreditavam que esse era um meio de contato com a Pacha Mama”, traduz o chef Zoylo.

Jeferson: caminhada de uma hora para ir à escola
Jeferson: caminhada de uma hora para ir à escola

Alcançar o quarto lodge, em Lucmabamba, é tarefa fácil, comparada aos obstáculos já ultrapassados. Porém, perigoso, devido às chuvas que atingiram a região no início do ano e provocaram deslizamentos – a trilha passa por um trecho em estado de erosão, que pode abarrancar a qualquer momento. Em compensação, o vale de Santa Teresa tem áreas rurais mais povoadas. Tal como a casa mercearia do casal Julian e Simeona Gamarra, onde é possível abastecer-se de água, refrigerantes variados, Cusqueña (a badalada cerveja premium peruana), balas e salgadinhos de pacote. Mas povoado não tem exatamente o mesmo sentido que no Brasil. Que o diga o pequeno Jeferson, de 5 anos. “Todos os dias, ele caminha uma hora para ir à escola e mais uma hora para voltar”, conta Simeona. Mesmo assim, ela diz não se arrepender de ter se mudado para lá. “É um lugar especial e somos felizes aqui.”

Vista da lendária Machu Picchu.
Vista da lendária Machu Picchu.

Depois de 13 km de andanças, o grupo pega uma van que passa pelo vilarejo de La Playa. Mas o destino não é o Lucma Lodge, a 2,15 m. Antes disso, os viajantes têm que subir um trecho oficial da trilha inca de Llacatapata, pouco mais de 1 km. A vantagem é que a altitude já baixou, facilitando a respiração.

O chef Zoylo Caollion
O chef Zoylo Caollion

Em Lucmabamba, começa a etapa final do trekking, com destino à estação de trem que levará até a cidade de Machu Picchu Pueblo, mais conhecido como Aguas Calientes. No quinto e último dia de caminhada, os mochileiros encaram novamente um trecho da trilha inca. A subida de 2 km em mata fechada é íngreme, pedregosa e apertada, e, dessa vez, não há mulas de apoio. A recompensa está no meio do trajeto: as ruínas de Llacatapata, posto de observação de Machu Picchu. Porém, nem sempre a natureza ajuda. Não raro, as nuvens obscurecem completamente o visual. Mas o guia Washington Chucya dá a dica de como resolver o problema: “Se pedirmos ao Tayta Inti, o pai sol, ele irá expulsar a neblina.” O grupo todo se concentra e repete incansavelmente as palavras Tayta Inti ou Inti Tayta. Washington chega ao ponto de soprar algumas nuvens! E pouco a pouco, a neblina começa a se desvanecer, revelando a incrível energia de Machu Picchu. Coincidência? Talvez. Mas também reflexo de uma fé poderosa que, se não move montanhas, afasta nuvens.

Cusco: antiga capital do império inca
Cusco: antiga capital do império inca

O último almoço na trilha é feito em uma tenda. No cardápio, guacamole (purê de abacate), arroz, batatas cozidas e truta fresca. Como se não bastasse o sabor, ainda há a vista para Machu Picchu. Não tem preço! Mas logo o guia lembra os viajantes que está na hora de encarar a descida, pois o trem não espera. A terra lamacenta torna esse caminho um dos mais difíceis de toda a viagem e, a essa altura, não são poucos os que reclamam de dores no joelho. Cerca de 3 km depois, alcança-se finalmente a usina hidrelétrica e a estação de trem. O trajeto dura cerca de meia-hora.

Em Aguas Calientes, recomenda-se um demorado banho de banheira para aliviar o cansaço. E nada de badalar pelos bares do vilarejo – se é que alguém ainda tem fôlego para isso. O ideal é dormir cedo, para acordar às 4h30, fazer o desjejum e pegar os primeiros ônibus às 5h30 até Machu Picchu, a tempo de ver o nascer do sol. E se, em algum momento, você se perguntou se valia a pena todo esse esforço, ao contemplar esse espetáculo diário com a clássica paisagem das ruínas e, ao fundo, a grande pedra Huayna Picchu, a resposta certamente será positiva.

Como ir

A empresa Mountain Lodges of Peru, com escritório no Rio de Janeiro, organiza o trekking pela trilha do Salkantay há cerca de cinco anos. O circuito é oferecido a partir de 2,6 mil dólares, incluído cinco noites de hospedagem nos lodges e uma noite em Aguas Calientes, alimentação completa, visita a Machu Picchu e contratação de guias e muleiros. A empresa também oferece alguns regalos, como bolsa de água quente à noite, bombons nos quartos, sucos de Chicha Morada (à base de milho roxo) na recepção de cada lodge e limpeza dos calçados do trekking. Passagem aérea e hospedagem em Cusco são à parte, mas podem ser inclusos no pacote.

Confira os bastidores da matéria aqui.

Aprenda a receita de pisco sour, o autêntico drinque peruano

Ingredientes
1 dose de pisco
1 dose de suco de limão
1 clara de ovo
4 cubos de gelo
3 colheres de açúcar

Como fazer
Coloque na coqueteleira, nesta ordem, a clara de ovo, o suco de limão, o pisco e os cubos de gelo. Mexa devagar. Adicione o açúcar e mexa mais um pouco. Sirva


 
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