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Turismo
Pelas Trilhas do Peru
Conhecer a cidade perdida dos incas já é um programa e tanto. Mas a trilha do Salkantay, caminho alternativo para chegar até lá, é mais do que imperdível
Texto: Fernando Torres | Fotos: Pedro Vilela
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Trekking e conforto combinam? Na trilha do Salkantay, sim. Rota alternativa ao tradicional caminho inca em direção à histórica Machu Picchu, no Peru, o circuito esconde entre as montanhas quatro charmosos lodges (chalés) com toda a infraestrutura para abrigar viajantes. Entenda-se por conforto: grupos milimetricamente reduzidos, chef particular especializado na gastronomia regional, calefação em todos os quartos e jacuzzis com vista para a serra andina. A aventura, por sua vez, fica por conta da caminhada de cinco a seis dias de aproximadamente 50 km, com direito a grandes altitudes, temperaturas extremas, caminhos pedregosos, veraneios por lagos glaciais, vista de picos nevados e, mais adiante, mata fechada. E dá-lhe água e chá de coca para aliviar o soroche, o mal de altura, caracterizado por dor de cabeça, náuseas, diarreia, cansaço extremo e falta de ar.
Por conta do soroche, são necessários pelo menos dois dias de aclimatação às grandes altitudes da região antes do início do trekking. A viagem, portanto, começa em Cusco, antiga capital do império inca, a 3.400 m acima do nível do mar. A cidade (umbigo do mundo na língua indígena quéchua) tem seu próprio roteiro de atrações, tais como: Koricancha, antigo templo do Sol, transformado em Convento de Santo Domingo pelos espanhóis; a catedral de Cusco, na plaza de Armas; o pitoresco mercado central; e as ruínas do parque Arqueológico de Sacsayhuamán, onde se comemora o ano novo inca, em 24 de junho.
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Belos cenários naturais |
Mas é na trilha propriamente dita que está o cerne da viagem. O trekking se inicia a partir do vilarejo Mollepatta, mas há a opção de ir de carro até a região de Soraypampa, aos pés dos picos nevados Salkantay e Humantay, a 6.271 m e 5.917 m, respectivamente. Ali, fica o Salkantay Lodge, a 3.850 m, o único em que se pernoita duas noites.
Os 6 km do primeiro dia de caminhada são, digamos, apenas um treino para o que está 8
por vir. Por meio de uma trilha ascendente bastante íngreme, chega-se ao lago glacial Humantay. A coloração verde-azulada convida a um mergulho, mas a água é tão gelada que poucos conseguem ficar imersos por mais tempo. Do alto de seu 1,50 m, o xamã Victor Flores, da tribo dos q’eros, e sua inseparável flauta de pã complementam a magia do lugar com um ritual à Pacha Mama, a mãe terra, deusa dos incas. Primeiro, ele entrega três folhas de coca a cada viajante, repete seus nomes na língua quéchua e pede para que eles as soprem em direção às montanhas. “Estou pedindo para Pacha Mama protegê-los durante a viagem”, explica, enquanto organiza as folhas em um círculo, complementado por pétalas de flores. Em seguida, o xamã organiza uma oferenda composta de chocolates, balas, biscoitos, entre outras guloseimas. Ele envolve o presente em papel de seda e em uma toalha costurada à mão; novamente, diz para que cada um sopre três vezes em direção à montanha, mentalizando lugares degradados do meio ambiente. Por fim, Victor queima a dádiva, em uma fogueira regada a vinho. Nesse momento, a montanha faz um barulho parecido com um trovão – e sem efeitos especiais. “É a resposta de Pacha Mama. Ela aceitou nossa oferta”, sorri o peruano. E volta a tocar sua flauta.
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À noite, banho na jacuzzi para relaxar |
À tarde, depois da caminhada é puro relax. O programa no Salkantay Lodge inclui sessão de massagem, banho de jacuzzi com vista para as montanhas e aula de pisco sour, o drinque de aguardente de uvas (veja quadro). Tudo para aguentar o tranco do segundo dia. O percurso de 13 km pelo vale do rio Blanco tem como ponto alto – literalmente – o Abra Salkantay, a 4.600 m de altitude, de onde se avista o pico nevado e a Cordilheira de Vilcabamba. Mas para chegar lá, é preciso vencer as temidas Sete Voltas, uma desafiadora subida em ziguezague. Quem não suportar o ar rarefeito tem o auxílio de mulas, que seguem o grupo praticamente em todo o percurso, podendo carregar, inclusive, as mochilas (a bagagem, limitada a uma por pessoa, segue em comboio de mulas à parte). Na descida do Abra Salkantay, a boa vida inclui almoço preparado pelo chef Zoylo Caollion e sua equipe, que acompanha os viajantes nos quatro lodges.
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Fachada de um lodge, chalé construído ao longo da trilha |
Quase no fim do dia, chega-se ao Wayrac Lodge, no vale de Huayraccmachay, que significa onde o vento faz a curva. Não é exagero. O frio é intenso e a casa de pedra a 3.920 m de altitude, com apenas seis suítes, fica realmente no meio do nada, emoldurada apenas pelo vale e as montanhas.
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Percursos íngremes e pedregosos durante o trekking |
No terceiro dia de caminhada, a trilha finalmente começa a descer, ao contrário da temperatura, que sobe consideravelmente. Os 9 km até Collpapampa, às margens do rio Blanco, são bem mais fáceis e a vegetação começa pouco a pouco a mudar: os picos nevados dão lugar à mata fechada. “Essa região é habitada pelo oso de anteojos (urso de óculos), que corre sério risco de extinção”, informa o guia Jairo Bocangel. “Mas ele nunca aparece nas trilhas”, tranquiliza.
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Lhama: animal típico da região andina |
Mas outro animal típico do Peru irá dar as caras logo em seguida, no Colpa Lodge, a 2.840 m. É o cuy, mais conhecido como porquinho da índia. Antes considerado sagrado pelos incas, o roedor perdeu a aura transcendental e passou a ser criado em larga escala para fins alimentares e domésticos. Seu sabor lembra o de frango, mas com um tom adocicado e pele mais dura. Ele é a estrela da pachamanca, o típico churrasco andino. Os ingredientes – diversos tipos de batatas e carnes embaladas em papel alumínio – são colocados em um buraco na terra, preenchido com pedras aquecidas na fogueira. Depois de aproximadamente uma hora, o forno entrega os alimentos cozidos. ”Os incas acreditavam que esse era um meio de contato com a Pacha Mama”, traduz o chef Zoylo.
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Jeferson: caminhada de uma hora para ir à escola |
Alcançar o quarto lodge, em Lucmabamba, é tarefa fácil, comparada aos obstáculos já ultrapassados. Porém, perigoso, devido às chuvas que atingiram a região no início do ano e provocaram deslizamentos – a trilha passa por um trecho em estado de erosão, que pode abarrancar a qualquer momento. Em compensação, o vale de Santa Teresa tem áreas rurais mais povoadas. Tal como a casa mercearia do casal Julian e Simeona Gamarra, onde é possível abastecer-se de água, refrigerantes variados, Cusqueña (a badalada cerveja premium peruana), balas e salgadinhos de pacote. Mas povoado não tem exatamente o mesmo sentido que no Brasil. Que o diga o pequeno Jeferson, de 5 anos. “Todos os dias, ele caminha uma hora para ir à escola e mais uma hora para voltar”, conta Simeona. Mesmo assim, ela diz não se arrepender de ter se mudado para lá. “É um lugar especial e somos felizes aqui.”
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Vista da lendária Machu Picchu. |
Depois de 13 km de andanças, o grupo pega uma van que passa pelo vilarejo de La Playa. Mas o destino não é o Lucma Lodge, a 2,15 m. Antes disso, os viajantes têm que subir um trecho oficial da trilha inca de Llacatapata, pouco mais de 1 km. A vantagem é que a altitude já baixou, facilitando a respiração.
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O chef Zoylo Caollion |
Em Lucmabamba, começa a etapa final do trekking, com destino à estação de trem que levará até a cidade de Machu Picchu Pueblo, mais conhecido como Aguas Calientes. No quinto e último dia de caminhada, os mochileiros encaram novamente um trecho da trilha inca. A subida de 2 km em mata fechada é íngreme, pedregosa e apertada, e, dessa vez, não há mulas de apoio. A recompensa está no meio do trajeto: as ruínas de Llacatapata, posto de observação de Machu Picchu. Porém, nem sempre a natureza ajuda. Não raro, as nuvens obscurecem completamente o visual. Mas o guia Washington Chucya dá a dica de como resolver o problema: “Se pedirmos ao Tayta Inti, o pai sol, ele irá expulsar a neblina.” O grupo todo se concentra e repete incansavelmente as palavras Tayta Inti ou Inti Tayta. Washington chega ao ponto de soprar algumas nuvens! E pouco a pouco, a neblina começa a se desvanecer, revelando a incrível energia de Machu Picchu. Coincidência? Talvez. Mas também reflexo de uma fé poderosa que, se não move montanhas, afasta nuvens.
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Cusco: antiga capital do império inca |
O último almoço na trilha é feito em uma tenda. No cardápio, guacamole (purê de abacate), arroz, batatas cozidas e truta fresca. Como se não bastasse o sabor, ainda há a vista para Machu Picchu. Não tem preço! Mas logo o guia lembra os viajantes que está na hora de encarar a descida, pois o trem não espera. A terra lamacenta torna esse caminho um dos mais difíceis de toda a viagem e, a essa altura, não são poucos os que reclamam de dores no joelho. Cerca de 3 km depois, alcança-se finalmente a usina hidrelétrica e a estação de trem. O trajeto dura cerca de meia-hora.
Em Aguas Calientes, recomenda-se um demorado banho de banheira para aliviar o cansaço. E nada de badalar pelos bares do vilarejo – se é que alguém ainda tem fôlego para isso. O ideal é dormir cedo, para acordar às 4h30, fazer o desjejum e pegar os primeiros ônibus às 5h30 até Machu Picchu, a tempo de ver o nascer do sol. E se, em algum momento, você se perguntou se valia a pena todo esse esforço, ao contemplar esse espetáculo diário com a clássica paisagem das ruínas e, ao fundo, a grande pedra Huayna Picchu, a resposta certamente será positiva.
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Como ir
A empresa Mountain Lodges of Peru, com escritório no Rio de Janeiro, organiza o trekking pela trilha do Salkantay há cerca de cinco anos. O circuito é oferecido a partir de 2,6 mil dólares, incluído cinco noites de hospedagem nos lodges e uma noite em Aguas Calientes, alimentação completa, visita a Machu Picchu e contratação de guias e muleiros. A empresa também oferece alguns regalos, como bolsa de água quente à noite, bombons nos quartos, sucos de Chicha Morada (à base de milho roxo) na recepção de cada lodge e limpeza dos calçados do trekking. Passagem aérea e hospedagem em Cusco são à parte, mas podem ser inclusos no pacote.
Confira os bastidores da matéria aqui.
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Aprenda a receita de pisco sour, o autêntico drinque peruano
Ingredientes
1 dose de pisco
1 dose de suco de limão
1 clara de ovo
4 cubos de gelo
3 colheres de açúcar
Como fazer
Coloque na coqueteleira, nesta ordem, a clara de ovo, o suco de limão, o pisco e os cubos de gelo. Mexa devagar. Adicione o açúcar e mexa mais um pouco. Sirva
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