Quarta, 23 de Maio de 2012
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Entrevista

Instinto Ani(mau)

O psiquiatra Helio Lauar explica o que leva uma pessoa a cometer crimes bárbaros, como torturar e decapitar alguém

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Pedro Vilela


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Desde o dia 10 de abril estamos um pouco mais chocados. Os empresários Fabiano Ferreira Moura, 32 anos e Rayder Santos Rodrigues, 38, foram torturados, decapitados, executados e tiveram os dedos decepados. Os corpos carbonizados foram encontrados na fazenda Rio do Peixe, em Nova Lima (MG). O autor dos crimes é o estudante de direito Frederico Flores, 35, líder de uma quadrilha acusada de extorsão, lavagem de dinheiro, tráfico de armas, drogas e outros homicídios. De acordo com investigações da polícia, as mortes e mutilações aconteceram no apartamento de Flores, no bairro Sion (BH). Menos de duas semanas depois, por meio da mídia tomamos mais um soco no estômago. A filha adotiva de 2 anos da procuradora aposentada Vera Lúcia Sant’Anna Gomes foi encontrada, no terraço de casa, dia 14 de abril, com os olhos inchados e várias lesões pelo corpo. Os exames apresentados à polícia indicam que foi torturada por mais de um mês. “Apesar das notícias de que a menor era pacata e tranquila, a denunciada passou a tratá-la exclusivamente de forma violenta, pelo simples prazer de fazê-la sofrer, submetendo-a a toda sorte de atos agressivos, mas, preferencialmente, direcionava-os ao rosto da menina, ferindo seus olhos e boca e causando-lhe sangramentos. Através destas ações cruéis, degradantes e desumanas, gerava na criança dor, tormento, angústia, temor, insegurança e sentimento de rejeição”, diz o laudo dos promotores. A autora de tais agressões: a própria mãe adotiva. A partir do conjunto de valores morais que norteiam a vida em sociedade, o que vem à mente é a palavra maldade. Mas o que é isto? Doença, traço do ser humano, característica adquirida? A revista Viver Brasil entrevistou o professor de residência em Psiquiatria Forense do Instituto Raul Soares, o psiquiatra Helio Lauar, para tentar compreender como estes fatos ao mesmo tempo estarrecedores são também parte do cotidiano. E, principalmente, que tipo de seres humanos somos nós, o que nos constitui, difere ou mesmo que rejeitemos a hipótese, até nos aproxima destas pessoas. Com a palavra, dr. Lauar.


“O ódio é sentimento da normalidade.
O homem apropria-se dele como crueldade, violência”

 

Pode-se dizer que Frederico Flores e Vera Lúcia são maus?

Não acredito em bom ou mau. O que há é o ódio como afeto primário do ser humano, cuja construção de sentido é civilizatório. Pode-se falar em crueldade quando este ódio vai contra tais princípios. Woody Allen tem um filme novo, Tudo pode dar certo, em que até tentando suicidar pode-se cair na cabeça de uma paixão. Mas, pelos limites do homem, tudo pode é dar errado. Eu falaria para Vera: desiste, você não dá conta de ser mãe. Para leigo, parece que ela é moralmente má. Mas o homem é mau por definição. É carnívoro, competitivo, guerreiro. Somos bichos com valores civilizatórios, tentando lidar com impulsos, agressividade e ódio. Tudo isto não vem de fora. A monstruosidade é da natureza humana.

O que caracteriza estas personalidades?

Não vejo semelhança nestes dois fatos. No caso de Frederico Flores estamos falando de fenômeno de um grupo narcísico, adoecido, cujos membros são influenciáveis. Não pensam, só agem e tendem a estabelecer vínculos identificatórios. Nesta dinâmica, reproduzem apenas lógicas que atendem a seus interesses internos, por isto ignoram procedimentos e leis que estão além deles próprios. Observa-se também submissão a Flores, que é ferocíssimo, mas como todo líder tem a degola como destino (o esquema de Frederico Flores foi revelado por Adrian Gabriel Gricorcea, um dos envolvidos nas mortes acima). Vera Lúcia é caso individual: mulher velha para a maternidade, que não apresenta traquejo para lidar com demandas infantis e responde a elas com onipotência autoritária. Parece até cinismo.

A crueldade está mais comum, corriqueira ou a mídia é que tem noticiado mais?

Desde que existe homem existe crime. O que há é que a mídia noticia mais. Casos como o de Flores são fenômenos parecidos com fascismo, nazismo: em nome da hegemonia da raça, prestígio de uma nação, tomar dinheiro de judeu era válido. Aqui, a diferença é o bolso de cada um, que usufrui do estado de transição de direitos, em que os valores estão mudando e a corrupção parece norma e não exceção. Nesta brecha, assistimos à falência dos modelos de identificação e grupos assim tomam para si mecanismos torpes de funcionamento. A corrupção passa a ser ideal de identificação, como a bandidagem, a vida fácil. Aqueles que crescem a partir da sociedade do ilícito funcionam como justiceiros sem função de restaurar ordem social. Acham que vão ficar impunes. Sabem da existência da lei, mas acreditam poder enfrentá-la. Tirar dedos das vítimas e degolá-las é estratégia científica para encobrir cadáver: elimina impressões digitais e arcada dentária. A parceria entre Flores e Gabriela (a médica Gabriela Ferreira) não é à toa. É o despiste da lógica da autoria. Mas eles não contavam com a delação.

Crueldade é doença? Ou comportamento adquirido, aprendido?

O ódio é sentimento da normalidade. O homem apropria-se dele como crueldade, violência.

Qual papel da família e da sociedade em relação ao desenvolvimento destas personalidades?

Cada caso é singular, senão caímos no estado da panaceia alarmista. Mas do ponto de vista da generalização é preciso nos perguntarmos em que medida somos responsáveis por fenômenos como estes. Não serve o cinismo de não tenho nada com isto. Temos que produzir cidadãos preocupados. A família que participou destas histórias tem que ser capaz de dizer: fizemos o que pudemos, mas não se isentar. Não há sociedade e sujeito sem erro, e tem que haver espaço para eles, mas não podem ser tomados como exemplo. Cada erro deve ser exemplo do que não fazer, e há que se pagar por ele.

O que é a maldade?

Na religião e direito encontramos estas definições. A psiquiatria trata estes conceitos para além da lógica de bem e mal. Cada um, a partir da sua ética, vai enfrentar a coletividade.

Frederico Flores é doente?

Não o penso como doente. A princípio, nenhum indício. Ele e a quadrilha são gente igual a nós mesmos. Inclusive o diagnóstico de psicopatia é muito confortável para encaixar qualquer tipo de bizarria.

No caso Vera Lúcia, que tipo de sequela psicológica a criança agredida pode levar para a vida adulta?

Não tem causa e efeito, pode haver relação. Pode-se organizar ou não a subjetividade a partir deste fenômeno.

Há épocas ou circunstâncias sociais que favorecem a maldade?

Sim. O ódio ganha expressão na fragilidade das organizações, instituições e estruturas familiares. A educação tenta domar este instinto básico, tem uma função, mas é limitada. A moral tenta produzir a lógica do certo e errado. O eu também. Mas para o pior sempre haverá lugar. Senão, não haveria a contradição. A vida é incurável e não exclui desvios existenciais. A lógica social é aumentar a tolerância ao diferente, o que não significa impunidade.

Fala-se que os bons dormem melhor devido à consciência leve. Precisamos acreditar neste tipo de coisa?

Precisamos estar preocupados. Aliás, o fundamento da saúde é preocupar-se com a repercussão de seus atos. E fazer como Pedro Nava: voltar os faróis para trás, pois para nada há garantias, apenas cálculo.

Frederico e Vera podem vir a ser aptos ao convívio social?

Espero que possam aprender com equívocos. Sou pessimista em relação à ideia de vida plena, mas otimista com o aprendizado por meio da experiência. Mas não há regras absolutas.

O que difere os políticos que roubam de modo contumaz – como assistimos diariamente denúncias nos jornais – dos Fredericos Flores da vida?

Nada. São primos dos Flores. A América Latina está cheia deles. Fazem coisas parecidas, ainda que sem a prática de atrocidades. São como o Zorro, que sai apagando com a folha de coqueiro, as pistas deixadas no caminho. Arvoram-se no direito de fazer, dizem que não sabem de nada. Reproduzem a lógica do coletivo perverso em que a impunidade é regra. É tanta burocracia para discutir a punição dos pequenos crimes e tanta impunidade para os grandes. Carrega-se dinheiro na cueca, rouba-se por meio do mensalão e ninguém é punido. Nunca há nada contra eles. As CPIs reúnem volumes e volumes de papel, fitas gravadas e nunca concluem nada.

Como o cidadão pode reagir a isto?

Devemos saber que toda representatividade, toda, é uma impostura. Não se pode autorizar um candidato a dizer por você, sempre. Devemos nos tornar olheiros das decisões políticas. Deixar o político sempre em lugar desconfortável. O controle social deve ser feito pelo cidadão.

A impunidade alimenta a crueldade, a maldade?

Facilita, claro. Garante que se faça qualquer coisa contra o pacto civilizatório em que os interesses coletivos são submetidos em função de interesses individuais e geram infrações.

É possível eliminar a maldade do mundo?

Não.É possível reduzir fenômenos de crueldade quando o sujeito se acha participante no processo de construção social. Ainda que o trabalho civilizatório seja uma utopia, temos que crer nele. Cada um construindo um pouco e se implicando no processo de todos nós. Até o simples ato de jogar arroz nos noivos, por exemplo, é um rito de celebração que une as pessoas por meio de sentimentos comuns.

Qual o objetivo de Vera Lúcia ao espancar a filha adotiva?

Mostrar sua impotência como mãe. Ela contou para todo mundo que não dava conta. Agora ela precisa descobrir que não precisa ser mãe.


 
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