Quarta, 23 de Maio de 2012
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Comportamento

Para outras ocasiões

Transformar o vestido de noiva em novo modelito é alternativa que começa a ganhar o sim entre as recém-casadas

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: produção de moda: Andréia Pimenta e Carol Breviglirei Foto: Nélio Rodrigues Beleza: Naiara Anacl


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Estilista Daniele Benício, com Lorena Borges: “Só remodelo peças produzidas no meu ateliê”

Em uma cena do filme Drácula, de Francis Ford Coppola, ao jantar no centro de Londres, Mina (Winona Ryder) comenta com amigos que está usando o mesmo vestido do seu casamento com Jonathan (Keanu Reeves). Trata-se de costu­me da época, em que a jovem, em suas primeiras aparições públicas após se casar, usa o mesmo vestido da cerimônia. O modelo, estilo romântico, foge ao tradicional branco, sendo mesclado com rendas e outras cores, tendo o espartilho típico do século 19. Linda, Mina desperta ali o interesse do Conde Drácula, que vê na moça a reencarnação de sua amada Elizabeta, morta 400 anos antes. Não foi em vão que o filme arrebatou o Oscar de figurino e maquiagem.

Se, no passado, o reuso do vestido de noiva era um rito social, agora ele ganha ares contemporâneos. Noivas estão retiran­do-os do fundo do armário, repaginam os modelos e muitas ainda os levam à tinturaria. Da pompa do casamento, a nova peça ganha ares modernos, livre de detalhes como a cauda, comprimento longo, laços e alguns babados, mas não perde o charme e o tom de alta-costura. Aliás, só mesmo vestidos de excelente qualidade suportam a alta temperatura no processo de tinturaria sem repuxar ou manchar, sendo que apenas tecidos de seda pura pegam a nova cor sem dar pistas de seu passado. A mudança também passa por dois motivos – emocional e financeiro. No primeiro caso, há apego à simbologia que a vestimenta representa para o imaginário feminino, por isso a dona deseja reusá-la. Já no segundo, a questão é maximizar o investimento, pois vestidos exclusivos e de alta costura custam, em média, entre 10 mil e 18 mil reais.


Íris Clemência: “Dependendo do tecido o efeito fica tom sobre tom”
Íris Clemência: “Dependendo do tecido o efeito fica tom sobre tom”

Há sete anos trabalhando exclusivamente com vestidos de noiva de alta costura, a estilista Daniele Benício só cede aos apelos de clientes por dois motivos. “Todos os tecidos são de seda 100% pura e só trabalho com renda francesa (da maison Solstiss). Só materiais desse nível suportam o processo de tinturaria sem pecar na qualidade. Também só faço remodelagem de peça que foi produzida no meu ateliê, pois todo o processo de confecção é artesanal, com base na técnica moulage. Refazer um vestido envolve duplo design, não é algo tão fácil como as pessoas imaginam.” Embora aceite encomendas do gênero, Daniele confessa que sente uma ponta de dó. “Até para quem elabora o vestido, há apego emocional, um vestido de noiva é algo repleto de significados.”

Suria Salazar, de noiva e com o vestido (abaixo): “Queria poder usá-lo outras vezes” (foto: Márcia Gazzola)
Suria Salazar, de noiva e com o vestido (abaixo): “Queria poder usá-lo outras vezes” (foto: Márcia Gazzola)

Para a administradora de empresas Lorena Borges, não há barreiras emocionais. Prática, ela diz que queria potencializar o uso, por causa do alto investimento na peça. “Não importo em pagar caro, mas por isso mesmo quis reaproveitá-lo. Quando escolhi o modelo, com a ajuda da Daniele, já optei por um mais seco, com poucos detalhes, que foi feito de forma a soltar a saia, passando a ficar na altura dos joelhos.” Noiva do mesmo ateliê, Carolina de Lima Milton diz-se prática. “Tingi meu vestido de verde musgo, ficou lindo, mas mantive o comprimento. Era tão lindo que me apaixonei, por isso queria usá-lo sempre que possível. Ficou chique e moderno”, diz. Já Luciana Braga Mendes optou por um modelo saia e blusa com um diferencial: top coberto por strass Swarovski. “Jamais deixaria meu vestido amarelando no fundo da gaveta. Mandei tingir de dourado, ficou maravilhoso. Já fui madrinha de dois casamentos e arrasei,” lembra Luciana.

foto: Daniel de Cerqueira
foto: Daniel de Cerqueira

A estilista e empresária Íris Clemência afirma que ainda é pequena a procura de noivas para readequarem seu vestido, são apenas 10%. Normalmente, algumas encurtam o modelo para usá-lo em festas temáticas, como bailes de branco ou no réveillon. A grande maioria pede para tingir. “Dependendo do tecido, o efeito fica tom sobre tom, furta-cor, fica lindo. O comum ainda é a noiva preservar intacto o vestido, como uma relíquia. Muitas o passam de geração em geração, como símbolo de sorte.” Clemência explica que melhores resultados são alcançados quando a noiva, ao escolher o modelo, já esclarece que fará reuso do vestido. “Dou sugestões, como os vestidos de duas peças (corselete e saia), mais modernos que não denunciam que foram um dia, vestidos de noiva.” A dentista Suria de Castro Salazar fez seu vestido no ateliê de Clemência. Com design moderno, de musselina de seda pura, o modelo foi eleito por uma revista especializada em casamento como o vestido do ano de 2007. Dois meses após a cerimônia, na matriz de Tiradentes, Suria mandou a tinturista Gal, referência nesse trabalho no estado, torná-lo um dègradé entre lilás ao rosa, passando pelo cinza-prata.  “Não tenho esse sentimentalismo todo como outras noivas, queria poder usá-lo mais vezes,” justifica Suria.

Carolina de Lima: “Tingi meu vestido de verde musgo. Ficou lindo” (foto: Pedro Vilela)
Carolina de Lima: “Tingi meu vestido de verde musgo. Ficou lindo” (foto: Pedro Vilela)

No entanto, para a estilista Marília Pitta, que batiza a própria maison couture com seu nome, modificar um vestido de noiva para outros fins é cometer uma heresia. Famosa por desenhar e produzir roupas de alto luxo para noivas exigentes, Marília se recusa veementemente quando alguma cliente pede transformação na peça, pós-casamento. “Eu não mexeria em um símbolo de algo inesquecível. Sou apologista do casamento. Jamais descaracterizaria um modelo meu, porque acho que comprometeria a qualidade e porque não desmantelaria um sonho. Toda noiva deve, sim, preservar seu vestido para as futuras gerações. Recentemente, chorei em uma cerimônia, na qual reformei um vestido antigo, que pertenceu à mãe da noiva, já falecida, e ficou bárbaro. Foi uma homenagem linda da jovem para a memória da mãe.”

Luciana Mendes, com vestido de noiva e depois transformado (abaixo): “Jamais deixaria ele amarelando no fundo da gaveta” (fotos: arquivo pessoal)
Luciana Mendes, com vestido de noiva e depois transformado (abaixo): “Jamais deixaria ele amarelando no fundo da gaveta” (fotos: arquivo pessoal)

 
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