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BrasilNaufrágiosArqueólogos querem fazer inventário de navios afundados na costa brasileira para resgatar a história e proteger esses sítios depredados por caça-tesouros
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: SXC/ divulgação
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Por isso, querem saber onde estão as embarcações, com a ajuda de pescadores, pesquisa em bibliotecas e arquivos das delegacias dos portos, e da tecnologia. O que por si só facilitaria a preservação desses sítios arqueológicos e completaria o cerco protetor com a proibição do comércio dos destroços e objetos. Conseguiram a aprovação na Câmara dos Deputados de projeto que prevê o fim da exploração, passa da Marinha para o Ministério da Cultura a gestão destes bens encalhados nos navios, e agora depende dos senadores. Numa guerra que se estende desde 2008, quando a proposta foi para essa casa, com pressão dos dois lados. “Já sofri ameaças. Não tenho dúvidas de que o impacto das empresas é bem maior do que ações individuais de mergulhadores”, diz Rambelli. Nessa imensidão, é difícil encontrar as empresas, a maioria multinacionais, que atuam na costa brasileira em projetos bilionários. Podem chegar a custar mais de 70 mil reais por dia. No final do ano passado, a Octopus, da Hungria, anunciou a descoberta do cargueiro holandês Voetboog, que afundou no litoral pernambucano em 1700. Ele saiu da Indonésia rumo à Holanda, com 109 tripulantes, carga de seda, especiarias, porcelanas e cerca de 180 mil moedas de ouro. O valor estimado do tesouro é de quase dois bilhões de reais. Há outros projetos em andamento abaixo das ondas em Pernambuco, Santa Catarina, Rio de Janeiro, mas também com informações submersas. Ninguém quer se expor. O empresário francês Denis Albanese, da Salvanav, diz que estava trabalhando num projeto, depois desconversou. O mistério se mantém com a família Schürmann, a da navegação, que agora está à busca de submarino alemão naufragado em Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial, conhecido como U-513. Também se extrapola para os números: não há dados de quantos devem estar no fundo do mar nos 8,5 mil quilômetros de litoral brasileiro. Falam em 11 mil. |
O biólogo, mergulhador e pesquisador Maurício Carvalho tem em conta mais de 2,2 mil documentados no Sistema de Informações de Naufrágios (Sinau). “Destes, 370 foram localizados e 50 são visitados regularmente”, afirma. O que, na sua visão, ajuda na preservação desses sítios porque quem visita não depreda. Outros já devem ter sido descobertos, mas mantidos em sigilo pelos caça-tesouros. “Há muitos piratas. Eles depenam as embarcações aos poucos. São materiais nobres,vendidos por preços bons nas sucatas”, diz o biólogo. Agem sem fiscalização nem empecilhos neste mar de ninguém, onde o que encontram lá é de sua propriedade, resultado de seu esforço, mérito. A Marinha não se pronuncia. A revista tentou entrevistar os responsáveis por essa área. Enviou e-mail, mas até o fechamento da edição não obteve resposta. |
Daí a necessidade de conscientizar as pessoas a não retirar materiais dos naufrágios. “As mulheres são as que podem nos ajudar: não namorar, casar com quem retira destroços, objetos das embarcações”, prevê Gilson Rambelli. Isto porque o sexo feminino não é afeito a caça-tesouros no fundo do mar. “Antes as pessoas tinham cabeças empalhadas em casa. Hoje escondem.” Caiu de moda na necessidade de preservação ambiental. É isto o que o ele torce para que aconteça em relação aos sítios arqueológicos. “Objetos retirados do mar, como souvenir, se não forem tomados cuidados necessários, acabam sendo deteriorados.” Viram pó e destroem o contexto do naufrágio. “A caça ao tesouro perde força no mundo e o Brasil continua com as portas abertas”, afirma Gilson Rambelli. Depende da lei, de mostrar que há regras também no mar, de conscientizar as pessoas da importância da preservação na água também. Não só fica lá, escondida, mas de abrir a quem se interessar e souber mergulhar em águas profundas. Ele defende a visitação turística, como ocorre em terra, com guias, placas, permissão para fazer foto. Retratos dos naufrágios espalhados pela costa, resumos do que se foi, de costumes mortos ainda desconhecidos. |
Navios naufragados na costa brasileira
- Rio Grande do Sul
- Santa Catarina
- Paraná
- São Paulo
- Rio de Janeiro
- Espírito Santo
- Bahia
- Alagoas
- Sergipe
- Pernambuco
- Fernando de Noronha
- Rio Grande do Norte
- Paraíba
- Ceará
- Piauí
- Maranhão
São mais de 2 mil navios naufragados, 370 localizados e documentados, dos quais 50 são visitados regularmente por mergulhadores Os mais preciosos Santa Rosa, naufragado em 1726 no Nordeste, quando ia de Salvador para a Europa. Acredita-se que afundou com 6 toneladas de ouro, que faziam parte dos quintos do rei Rainha dos Anjos, que desapareceu em 1722 na baía de Guanabara. O navio ia da China para Portugal, carregado de porcelanas, avaliadas em 450 milhões de dólares Prince, essa nau de guerra francesa que ia para a Índia afundou no Nordeste. Carregava 5 milhões de libras Fonte: Sistema de Informações de Naufrágios (Sinau), site Naufrágios do Brasil |
Dentro da legalidadeO que prevê a lei 10.166 de 2000, em vigor - Depois de cinco anos, qualquer embarcação naufragada passa a ser propriedade da União - Empresas podem explorar o naufrágio, comercializar os objetos. Ficam com 70%. O restante é repassado para o governo federal - Os bens de valor histórico ou arqueológico, avaliados por comissão, vão para a União, que paga recompensa O que querem os arqueólogos - A aprovação do projeto de lei 45 em tramitação no Senado. Ele proíbe a exploração comercial dos naufrágios e permitirá a preservação dos sítios subaquáticos - Conscientização dos mergulhadores para que não retirem objetos dos naufrágios - Permitir a visitação nestes sítios, desde que sejam monitorados - Fazer inventário dos navios naufragados na costa brasileira |