Quarta, 23 de Maio de 2012
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Naufrágios

Arqueólogos querem fazer inventário de navios afundados na costa brasileira para resgatar a história e proteger esses sítios depredados por caça-tesouros

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: SXC/ divulgação


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arte: Paulo Werner

Vasculhar o fundo do mar à procura do passado. Guardado nos navios naufragados em mais de 500 anos, em objetos que reconstituem períodos, preenchem vácuos da história e estão aí nas profundezas do oceano a atrair caça-tesouros, piratas, empresas. Alguns localizados, depredados, outros existem indícios de onde possam estar e há os que só se tem notícia de que afundaram nessa imensidão do oceano que cerca o Brasil. Agora, arqueólogos começam a fazer inventário em Sergipe, que deve ser estendido por toda a costa do Rio Grande do Sul ao Maranhão. “Só pode ser protegido o que se conhece”, diz o professor Gilson Rambelli, do Centro de Estudos de Arqueologia Náutica e Subaquática (Ceans), que trava briga naval para evitar a destruição dos sítios arqueológicos subaquáticos e a mudança da atual lei brasileira que permite a exploração comercial dos naufrágios.

Pela legislação, as empresas podem ficar com 70% do que encontrar, o restante vai para a Marinha. Aos fora da lei, tudo pode nessa vastidão de água, impossível de ser fiscalizada a cada légua do mar, enxergado como terra de ninguém, que mete medo e fascina qualquer um por seus mistérios. Os arqueólogos querem que os destroços fiquem intactos onde estão para que possam, como ocorre em terra firme, pesquisar períodos, épocas, costumes passados no seu contexto. Mas sabem que muito já foi retirado, depredado. “É como ler um livro faltando páginas”, compara Gilson Rambelli. “Ou a cena do crime violada, onde não se podem tirar conclusões de como ocorreu.”


Por isso, querem saber onde estão as embarcações, com a ajuda de pescadores, pesquisa em bibliotecas e arquivos das delegacias dos portos, e da tecnologia. O que por si só facilitaria a preservação desses sítios arqueológicos e completaria o cer­co protetor com a proibição do comércio dos destroços e objetos. Con­se­guiram a aprovação na Câmara dos Deputados de projeto que prevê o fim da exploração, passa da Ma­rinha para o Ministério da Cultura a ges­tão destes bens encalhados nos na­vios, e agora depende dos senadores. Numa guerra que se estende desde 2008, quando a proposta foi para essa casa, com pressão dos dois lados.  “Já sofri ameaças.  Não tenho dúvidas de que o impacto das empresas é bem maior do que ações individuais de mergulhadores”, diz Rambelli.

Nessa imensidão, é difícil encontrar as empresas, a maioria mul­tinacionais, que atuam na cos­­ta brasileira em projetos bilionários. Podem chegar a custar mais de 70 mil reais por dia. No final do ano passado, a Octopus, da Hungria, anunciou a descoberta do cargueiro holandês Voet­boog, que afundou no litoral pernambucano em 1700. Ele  saiu da Indonésia rumo à Holanda, com 109 tripulantes, carga de seda, es­peciarias, porcelanas e cerca de 180 mil moedas de ouro. O valor estimado do tesouro é de quase dois bilhões de reais.

Há outros projetos em andamento abaixo das ondas em Pernambuco, Santa Catarina, Rio de Janeiro, mas também com informa­ções submersas. Ninguém quer se expor. O empresário francês Denis Albanese, da Salvanav, diz que estava trabalhando num projeto,  depois desconversou. O mistério se mantém com a família Schürmann, a da navegação, que agora está à busca de submarino alemão naufragado em Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial, conhecido como U-513. Também se extrapola para os números: não há dados de quantos devem estar no fundo do mar nos 8,5 mil quilômetros de litoral brasileiro. Falam em 11 mil.

O biólogo, mergulhador e pesquisador Maurício Carvalho tem em conta mais de 2,2 mil documentados no Sistema de Informações de Naufrágios (Sinau). “Destes, 370 foram localizados e 50 são visitados regularmente”, afirma.  O que, na sua visão, ajuda na preservação desses sítios porque quem visita não depreda. Outros já devem ter sido descobertos, mas mantidos em sigilo pelos caça-tesouros. “Há muitos piratas. Eles depenam as embarcações aos poucos. São materiais nobres,vendidos por preços bons nas sucatas”, diz o biólogo. Agem sem fiscalização nem empecilhos neste mar de ninguém, onde o que encontram lá é de sua propriedade, resultado de seu esforço, mérito. A Marinha não se pronuncia. A revista tentou entrevistar os responsáveis por essa área. Enviou e-mail, mas até o fechamento da edição não obteve resposta.

Daí a necessidade de conscientizar as pessoas a não retirar materiais dos naufrágios. “As mulheres são as que podem nos ajudar: não namorar, casar com quem retira destroços, objetos das embarcações”, prevê Gil­son Rambelli. Isto porque o sexo feminino não é afeito a caça-tesouros no fundo do mar. “Antes as pessoas tinham cabeças empalhadas em casa. Hoje escondem.” Caiu de moda na necessidade de preservação ambiental. É isto o que o ele torce para que aconteça em relação aos sítios arqueológicos. “Objetos retirados do mar, como souvenir, se não forem tomados cuidados necessários, acabam sendo deteriorados.” Viram pó e destroem o contexto do naufrágio.

“A caça ao tesouro perde força no mundo e o Brasil continua com as portas abertas”, afirma Gilson Rambelli. Depende da lei, de mostrar que há regras também no mar, de conscientizar as pessoas da importância da preservação na água também. Não só fica lá, escondida, mas de abrir a quem se interessar e souber mergulhar em águas profundas. Ele defende a visitação turística, como ocorre em terra, com guias, placas, permissão para fazer foto. Retratos dos naufrágios espalhados pela costa, resumos do que se foi, de costumes mortos ainda desconhecidos.

Navios naufragados na costa brasileira

- Rio Grande do Sul
322, de 1776 a 1994

- Santa Catarina
211, de 1516 a 2008

- Paraná
44 , de 1718 a 2004

- São Paulo
107, de 1528 a 2004

- Rio de Janeiro
351, de 1546 a 2007

- Espírito Santo
79, de 1599 a 2006

- Bahia
220, de 1510 a 2001

- Alagoas
51, de 1516 a 1961

- Sergipe
61, de 1807 a 1963

- Pernambuco
108, de 1531 a 2009

- Fernando de Noronha
9

- Rio Grande do Norte
116, de 1677 a 2000

- Paraíba
56, de 1556 a 1950

- Ceará
75, de 1615 a 1990

- Piauí
17, de 1890 a 1969

- Maranhão
110, de  1536 a 1984

 

São mais de 2 mil navios naufragados, 370 localizados e documentados, dos quais 50 são visitados regularmente por mergulhadores

Os mais preciosos

Santa Rosa, naufragado em 1726 no Nordeste, quando ia de Salvador para a Europa. Acredita-se que afundou com 6 toneladas de ouro, que faziam parte dos quintos do rei

Rainha dos Anjos, que desapareceu em 1722 na baía de Guanabara. O navio ia da China para Portugal, carregado de porcelanas, avaliadas em 450 milhões de dólares

Prince, essa nau de guerra francesa que ia para a Índia afundou no Nordeste. Carregava 5 milhões de libras

Fonte: Sistema de Informações de Naufrágios (Sinau), site Naufrágios do Brasil

Dentro da legalidade

O que prevê a lei 10.166 de 2000, em vigor

- Depois de cinco anos, qualquer embarcação naufragada passa a ser propriedade da União

- Empresas podem explorar o naufrágio, comercializar os objetos. Ficam com 70%. O restante é repassado para o governo federal

- Os bens de valor histórico ou arqueológico, avaliados por comissão, vão para a União, que paga recompensa

O que querem os arqueólogos

- A aprovação do projeto de lei 45 em tramitação no Senado. Ele proíbe a exploração comercial dos naufrágios e permitirá a preservação dos sítios subaquáticos

- Conscientização dos mergulhadores para que não retirem objetos dos naufrágios

- Permitir a visitação nestes sítios, desde que sejam monitorados

- Fazer inventário dos navios naufragados na costa brasileira


 
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