Quarta, 23 de Maio de 2012
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Bate-papo

Janela do passado

Bate-papo com Mary del Priore

Texto: Márcia Queirós | Fotos: Bel Pedrosa


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Apesar das conquistas no espaço público, dentro de casa, mulheres continuam a alimentar o machismo. Quem garante é Mary del Priore, uma das mais respeitadas historiadoras da atualidade, que faz palestra em Belo Horizonte, dia 18 de maio,  na II Bienal do Livro de Minas. “Muitas mulheres ainda cultivam o mito da virilidade. Gostam de se mostrar frágeis, pois acreditam que assim os homens se sentem mais potentes, e de serem chamadas de chuchuzinho, docinho ou gostosona, tudo o que seja convite a comer”, diz.  Autora de livros que resgatam a história das crianças e mulheres, Mary falou à coluna sobre questões da atualidade, como a presença feminina na política.


O que traz de novidade para a Bienal do Livro de Minas?
Lançarei o História dos Esportes no Brasil, (editora da Unesp), coletânea sobre as diversas modalidades esportivas no país. Falo dos sucessos e insucessos esportivos entre mulheres e homens.
 
Como avalia o papel da mulher na sociedade atual?
Apesar das conquistas na vida pública –mulheres se destacam como artistas, políticas ou empresárias –, na esfera privada elas continuam marcadas por formas arcaicas de pensar. Em casa, alimentam o machismo: muitas protegem filhos que agridem outras mulheres ou não os deixam fazer trabalho doméstico. Outras se calam sobre comentários machistas e incentivam piadas sobre a burrice feminina. Outras cultivam o mito da virilidade. Na TV, aceitam temas apelativos. Conclusão: há uma desvalorização grosseira das conquistas das mulheres por elas mesmas.
  
E na política brasileira? Critica-se a pouca presença feminina nos parlamentos.
As brasileiras já tiveram um importante papel na política. Nos anos 70, criaram movimentos de luta pela cidadania. Já os anos 80 foram marcantes pelo surgimento de políticas específicas para elas. Depois desta bela caminhada, capitaneada por mulheres formidáveis, o que temos hoje? O feminismo contemporâneo está organizado em mais de mil grupos espalhados pelo país atuando em diferentes setores. Mas e a representação feminina no Congresso? Podemos dizer que, se alguém conquistou plena igualdade, foram as políticas brasileiras.
 
Em que sentido?
Elas roubam igual, gastam cartão corporativo igual, mentem igual, fazem plástica igual, fingem igual, enfim, são tão cínicas quanto nossos políticos. Mensalões, mensalinhos, dossiês de todo o tipo, falcatruas de todos os tamanhos, elas estão em todos. Pergunto-me se a ação das mulheres foi movida pelo movimento de redemocratização do país e inspirada nas lutas feministas no estrangeiro. Hoje, sem esta inspiração, não se veem as mesmas energias concentradas em problemas coletivos. O individualismo, presente na pós-modernidade, desfez os laços que uniam as brasileiras.
 
Neste ano teremos duas candidatas à Presidência. Não é uma conquista?
Não há nenhum feminismo na escolha Marina Silva (PV) e Dilma Rousseff (PT). Os eleitores do sexo masculino não estarão votando numa mulher, numa feminista ou numa plataforma onde os valores femininos estejam em alta; mas na permanência de um programa econômico que funcionou. Neste jogo ser ou não ser Marina, Dilma ou Joana, dá no mesmo. No Brasil, o voto não tem razões ideológicas, mas práticas.


 
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