Uma das místicas do ritual de uma eleição majoritária é a escolha do candidato a vice-presidente, personagem de estranha sina em nossa História. De imediato ele não assusta, exceto por estar lá e viver com a perspectiva de vir a provocar uma guinada se o destino o colocar na Presidência. Houve uma época em que se votava no vice, acreditem caros leitores que não viveram aqueles idos de 1960 para trás. Hoje se vota em uma chapa fechada, que leva o vice de contrapeso. Jango (João Goulart) – último vice-presidente realmente eleito – foi o principal motivo da Revolução de 1964, que muitos dizem ter o seu estopim na renúncia do Jânio Quadros, simples coadjuvante, ainda que de luxo, naquele movimento que trouxe ao Brasil um regime de exceção que, ao promover a relativização dos vices, banalizou a função. Durante 25 anos, foi apenas um cargo simbólico que excitava a imaginação de todos. Em função do episódio que antecedeu a revolução, cunhou-se a máxima: vice não assume. Ou como diria o Jô Soares, em seu programa: “Tirante Aureliano, vice não fala!”. Eles percorriam um caminho trilhado pela expectativa do não-ser. Tinham gabinete e nele se postavam, passando horas por dia exercendo mera figuração, algo do tipo ócio remunerado. Lembram do Pedro Aleixo? Nunca representou ameaça ao regime. Quando o presidente Costa e Silva adoeceu, logo ele apresentou sua carta renúncia, abrindo caminho para o AI-5, editado pela famosa Junta Militar que, assumindo o poder, deu origem ao período denominado anos de chumbo. Coisa horrorosa. Aí veio o Aureliano, esse sim, uma ameaça pelo que era, e não, simplesmente, pelo que podia ser. Mas, ainda assim, cumpriu a maldição dos vices. Despertou tanta ira, que o general Figueiredo não passava a ele o poder, nem anestesiado. E na sucessão, em que Tancredo Neves viria a mudar aquela maldição, o último general presidente preferiu apoiar, pasmem, Paulo Maluf, como seu candidato, exatamente por abominar o vice de Tancredo. Essas constatações geraram revoltas e protestos à época. E esse grande imbróglio teve seu desfecho, quando José Sarney, que conseguiu se tornar candidato a vice, embalado pelo oportunismo de sua renúncia ao cargo de presidente do PDS em 11 de junho de1984, assumiu a Presidência da República em 1985. De lá para cá, ganha importância essa figura que deixou de ser, unicamente, figurativa. Tanto assim o foi, que Itamar Franco, assim como ninguém, representou a esperança de milhões de brasileiros que clamavam por coerência e ética na política, ao suceder Fernando Collor no mandato seguinte. Em seu governo, trouxe-nos a esperança, ao domar a inflação e permitir a reintrodução do planejamento de longo prazo, sem o vírus da correção monetária, nas políticas macro dos governos que o sucederam. Dois outros nomes de peso vieram em seguida. Marco Maciel e José Alencar. Ambos representaram uma reserva moral e a garantia de não ruptura de uma política de continuidade. Teme-se que as eleições de 2010 possam nos trazer o espectro da antiga maldição. Por estar, ao mesmo tempo, tão perto e tão longe do poder, a nação encara o vice com desconfiança e medo, ou com respeito e admiração. Depende apenas de quem for escolhido.