Quarta, 23 de Maio de 2012
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Política

Votar ou não votar?

Eis a questão. Maioria dos jovens entre 16 e 17 anos no Brasil não sabe a resposta. Culpa dos escândalos políticos? Também

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Pedro Vilela


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Quem completa 18 após as eleições (em 3 de outubro) não é obrigado a votar. O voto é facultativo para quem tem entre 16 e 17 anos, idosos maiores de 70 anos

Se o desgastado bordão saúde-educação-segurança é fórmula vencida nas campanhas eleitorais e gera apatia e descrédito no eleitor tarimbado, como fazer para conquistar o jovem, principalmente quem está na fase dos 16 aos 17 anos, fora da obrigatoriedade do voto? Pouco mais de 1,5 milhão de jovens nesta faixa etária já tiraram seu título. No entanto, outros tantos milhões não se interessam em exercer o direito do pleito antes dos 18 anos de idade. Se a maioria continua virando as costas para os futuros governantes, existem ferramentas que podem aproximar mais os jovens da política. 

Para o publicitário Gui­lherme de Castro Boëchat, 31, especialista em interação digital da Tom Co­mu­nicação, os partidos vão entrar forte na internet nas próximas eleições, canal antes pouco explorado. “Vai conseguir pegar o jovem quem tornar esse abismo virtual atraente, participativo e transformá-lo para o real, tornando-o virtual-efetivo. A internet desperta a atenção do jovem, mas é um meio onde há muita dispersão. Se for mal trabalhada, pode ser um tiro no pé, gerando conteúdo espontâneo negativo”, alerta. Boëchat cita exemplos bem-sucedidos: a campanha de Barack Obama em redes sociais (Twitter, MySpace, Orkut, Facebook) que atraiu participação massiva de jovens; e a corrente de vídeos no YouTube e e-mails que reverteram positivamente o desempenho de Marcio Lacerda no 2º turno das eleições municipais de Belo Horizonte.

Segundo o publicitário, o processo democrático é recente no país. Não se pode exigir da juventude uma postura politizada. E política é um assunto ‘queimado’, diante dos sucessivos escândalos. “É preciso atrair o jovem para exercer a democracia pela web. Há movimentos interessantes aqui, como o votenaweb.com.br, que aproxima o cidadão dos projetos em tramitação no Congresso Nacional; e em outros países, como o Partido Pirata, que surgiu na Suécia, e já elegeu um membro para o Parlamento Europeu, em 2009”, explica Boëchat. O Partido Pirata é uma rede internacional de partidos que visa atrair a atenção de eleitores, principalmente jovens, contra leis de direito autoral e de patentes, a violação do direito de privacidade e a favor de práticas de compartilhamento. No Brasil, esse partido atua desde 2007, buscando, além das diretrizes básicas, a inclusão digital, o uso de softwares livres e a transparência pública. Fiéis aos princípios, eles divulgam o histórico financeiro e as arrecadações de fundos no próprio site.


Guilherme Boëchat: “A internet desperta a atenção do jovem”
Guilherme Boëchat: “A internet desperta a atenção do jovem”

Estatística do eleitorado
feito pela Pesquisa Brasil
em janeiro de 2010, e
divulgada pelo TSE, revela
que no país havia
1.566.948 eleitores com 16 e 17 anos.
Na faixa etária dos
18 aos 20 anos eram 8.521.918. O período
de cadastramento eleitoral
e para transferência de
domicílio se estende
até 5 de maio

Fonte: TSE

Para o cientista político e doutor em ciência política da PUC-Mi­nas, Malco Camargos, a apatia do eleitorado jovem se justifica em duas vertentes. “Votar deixou de ser algo sensacional, como foi para a ju­ventude de 1989, que teve sua primeira oportunidade de ir às ur­nas. Além disso, os escândalos políticos desestimulam e afastam as pessoas. Por outro lado, há vários movimentos de ONGs, de instituições e campanhas, como o Vota Brasil, que têm alcançado resultado interessante na incorporação de novos eleitores”, explica Camar­gos. Dados do Tribunal Superior Elei­toral confirmam a participação recorde do eleitorado entre 16 e 17 anos nas eleições de 1989, quando havia no país 3,5 milhões de jovens eleitores menores de 18 anos. Em Minas Gerais, naquela época pouco mais de 420 mil jovens foram às urnas, índice que ainda não foi batido. A maior queda na participação da juventude mineira foi em 1998, chegando a apenas 198,7 mil. Em 2008, houve ligeiro crescimento nessa participação, chegando a 316,8 mil, índice ainda muito distante dos 387,8 mil de 1992 e do ápice, em 1989.

De acordo com o cientista político, as redes sociais podem ser excelentes canais de divulgação, mas sozinhas não resultam em ativismo engajado. “Há a vantagem de participação instantânea, como mandar recados ou se manifestar sobre determinado assunto. Em con­trapartida, a instantaneidade não gera engajamento, pois é uma participação solitária, sem interação, não há debate político.” Sem contar que o volume e diversidade de informação passam a falsa sensação de se estar bem informado. Para Camar­gos, no caso do Twitter, em 140 caracteres o máximo que se tem são informações básicas. Comparando-se com o futebol, seria o mesmo que se valorizar apenas o placar, esquecendo-se da importância da estratégia, da preparação dos times, dos lances.

Rodrigo Nunes: “Procuro me informar, quero votar neste ano”
Rodrigo Nunes: “Procuro me informar, quero votar neste ano”

Em 2009,
o Congresso Nacional
aprovou a lei 12.043/09,
que teve como foco a propaganda
 eleitoral na internet,
anteriormente prevista na Lei nº 9.504/97.
A propaganda eleitoral
na internet é permitida após
o dia 5 de julho
do ano da eleição

Alaôr Marques: “Nosso objetivo é torná-los eleitores responsáveis”
Alaôr Marques: “Nosso objetivo é torná-los eleitores responsáveis”

Embora lamente que não possa votar em 3 de outubro, por não ter completado 16 anos, a estudante Isabella Ferrari, 15, aluna do Colégio Loyola, diz que política não faz parte da roda de discussões de seus amigos. “Não atrai, não discutimos a respeito quando saímos para conversar, ou mesmo fora da sala de aula. O pouco que acompanho é pela TV.” Já Rodrigo Nunes, 17, aluno da Escola Estadual Leopoldo de Miranda, afirma que a cultura do brasileiro de só reclamar é nociva para a sociedade. “Muita gente faz o jogo de deixar pra lá, pois é mais fácil não fazer nada, depois reclama quando um corrupto é eleito. Procuro me informar, quero votar neste ano.” Rodrigo confirma o que se vê na prática: tanto ele quanto os colegas se informam mais pela internet, algumas vezes por telejornais e muito raramente leem mídia impressa, como jornais ou revistas.

Levar o título eleitoral para casa e guardá-lo na gaveta não significa exercer direitos. Essa é a opinião do gerente-geral da Escola do Legislativo, da Assembleia Legislativa, Alaôr Marques, 44. Além do Parlamento Jovem, desde 2008 a Escola do Legislativo desenvolve o projeto itinerante Expresso Cidadania, em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral de Minas (TRE-MG), para incentivar a participação política e o voto consciente de jovens entre os 16 e 17 anos. Em 2008, o projeto envolveu cerca de 19 mil alunos de escolas públicas estaduais, dos quais 4.814 tiraram seu primeiro título eleitoral. A expectativa é ultrapassar essa marca, neste ano. “É importante o cadastramento eleitoral, mas mostramos ao jovem que a a­ção isolada não basta, se ele não exercer o direito. É alta a abstenção dos votos fa­cultativos no dia da eleição. Outro objetivo nosso é torná-los eleitores responsá­veis”, explica Marques. Segundo o gerente-geral, o jovem tem potencial de mudança maior que o adulto, já viciado por antigos paradigmas, como escândalos e impunidade. “Quando o jovem percebe que pode ter papel atuante no processo democrático, fica motivado. No Parlamento Jovem, grupos já conseguiram apresentar propostas que se incorporaram a projetos de leis. Recentemente, uma emen­da sobre merenda escolar foi incorporada ao plano plurianual do estado.”

Mariana Alves, Cássio Bambirra e Pedro Lima: politizados
Mariana Alves, Cássio Bambirra e Pedro Lima: politizados

Eu participo

Pedro Drummond Lima, 16, aluno do Colégio Logosófico, já se inteira sobre os possíveis candidatos à Presidência. Precavido, fez o título eleitoral em 2009 e confirma que estará presente, acompanhando o pai, no dia da eleição. “Acho que temos de mudar o conceito de que um voto não faz diferença. Faz sim.” Sua colega, Mariana Alves, 17, também se mostra ansiosa para participar da primeira eleição. Afinada com a história política do país, por causa dos vestibulares, Mariana arrisca uma análise. “Vejo que, hoje, no poder, se repete o que ocorreu na política café-com-leite (período de 1898 a 1930 marcado pelo revezamento de presidentes influenciados pelos setores agrários de São Paulo e Minas Gerais), só que a dualidade ocorre apenas entre dois partidos (PT e PSDB). Isso não é bom.” Outro colega de Mariana e Pedro, Cássio Bambirra, 17, é apontado como o politizado da escola. O rapaz cresceu acompanhando processos eleitorais da família no interior de Minas, embora seja contra o voto obrigatório. “Votar não deveria ser obrigação. As pessoas ficam desestimuladas, diante de tanta corrupção, desvios de verbas, mas acho que avançamos muito, com o fato inédito de um governador ser preso como foi o Arruda. Para o país, foi relevante.”


 
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