Quarta, 23 de Maio de 2012
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Negócios

Procuram-se Executivos

Profissionais com perfil para cargos de direção e gerência nunca foram tão valorizados. É o mercado executivo onde quem dispõe de gente de destaque faz de tudo para segurá-la e, quem está à procura, oferece mais um pouco para persuadi-la

Texto: Iracema Barreto | Fotos: Alexandre Brum, Daniel de Cerqueira, Gustavo Scatena, Sergio Zacchi Arte: Paulo Werner


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Aos 59 anos, o engenheiro mecânico e metalúrgico Cláudio Horta vive um dos momentos mais confortáveis de sua trajetória profissional. Depois de comandar a Belgo Mineira em Juiz de Fora por 12 anos e de ter assumido, em 2009, a diretoria de planejamento e gestão de pessoas do BDMG, ele agora gasta o tempo apenas analisando cuidadosamente nada menos do que três propostas de emprego. “Desliguei-me do BDMG para ter mais tranquilidade para tomar decisões”. Horta é a prova de que há vagas para executivos no Brasil. E de sobra, segundo as principais empresas especializadas em headhunting, outplacement e tudo o mais que se traduza em recrutamento qualificado de profissionais. O reaquecimento da economia no período pós-crise abriu novas oportunidades de emprego, mas evidenciou um problema: a oferta é maior do que a procura. Ou melhor, o perfil de quem procura está, na maioria das vezes, aquém das exigências das empresas. Como a conta não fecha, um dos reflexos é o chamado leilão de executivos. Não entendeu? Simples. As empresas estão buscando novos líderes entre os que já estão empregados.

Pesquisa realizada pela Robert Half, consultoria em recrutamento especializado, em janeiro deste ano, mostra não só que a procura por diretores e gerentes no mercado está em alta como também é considerável o número de empresas dispostas a fazer o que for possível para não perderem quem já exerce posição de comando. Foram consultados 646 executivos e 303 empresas. Ses­senta e nove por cento dos profissionais que tentaram mudar de emprego receberam contraproposta, mesmo percentual de empresas que admitiram ter tentado impedir a saída de seus executivos oferecendo aumento de salário, promoção ou ampliando o pacote de benefícios, como previdência privada ou carro à disposição. Conforme a sondagem, em 62% dos casos, a vantagem de manter um profissional que já conhece o negócio e evitar os altos custos da recolocação de um substituto são as justificativas para a contraproposta.


cativas para a contraproposta.José Luis Poli: “Faz bem para o ego essa sondagem quase constante”
cativas para a contraproposta.José Luis Poli: “Faz bem para o ego essa sondagem quase constante”

"O mercado está aquecido, a demanda por profissionais qualificados é maior do que a oferta e as empresas temem não achar alguém para substituí-los no curto prazo, ou não encontrar alguém com o mesmo salário", explica Fernando Mantovani, diretor de operações da Robert Half. “Trazer  novo funcionário, ambientá-lo e treiná-lo gasta recursos e tempo. Por isso o receio das empresas em perder seus talentos, uma vez que o investimento nesses colaboradores é alto e a busca por novos profissionais também.”

Indagado sobre o que será decisivo em sua escolha entre as três empresas que aguardam resposta, Cláudio Horta confirma o que os especialistas garantem: a remuneração não é o principal atrativo para um executivo. Nem mesmo para as jovens lideranças que estão buscando espaço no cenário business. Pes­quisa realizada pela Cia de Talentos com 30 mil estudantes brasileiros neste ano revelou que o salário é o quarto item da lista de prioridades na hora de definir uma boa oportunidade de emprego. No topo do ranking aparecem crescimento e desenvolvimento profissional, além de ambiente de trabalho agradável. “Vale é o desafio e a vontade de mostrar resultado. E é importante saber se a empresa oferece condições para isso”, diz Horta, que se mostra despreocupado com a decisão a tomar.  “Sinto-me em vantagem. O mercado coloca executivos vitoriosos nessa situação.”

Maria Helena Bertoccelle: “É necessário provar que é líder
Maria Helena Bertoccelle: “É necessário provar que é líder

Em situação confortável está tam­bém o administrador de empresas José Luis Poli. Aos 48 anos, ele dirige agora as áreas comercial, de marketing e logística da GR Higiene e Limpeza, sediada no Rio de Janeiro. A empresa é detentora de marcas como Barra e Bica e há cerca de um ano identificou em Poli, então diretor da Mazzaferro Monofilamentos Téc­ni­cos, em São Paulo, o perfil adequado para concretizar o desejo de expansão dos negócios no Brasil. Não é a primeira vez que o executivo é pescado em outra empresa. Na primeira vez em que trabalhou na Mazzaferro (de 1990 a 1994), trocou a capital paulista por Minas ao aceitar a proposta da Cera Ingleza, onde atuou por seis anos, até que decidiu virar empresário. Em 2003, porém, veio novo convite da Mazzaferro.

“Faz bem para o ego essa sondagem quase constante”, admite Po­li, que nos últimos seis meses recebeu três propostas distintas para deixar o atual emprego. “Mas é preciso entender até onde o mercado está disposto a pagar por isso. As empresas oferecem bônus para você largar o que tem e aceitar outros desafios, mas não se resume a uma questão financeira, é todo um conjunto de fatores que te permita colocar sua expertise em prática”, diz. “Esse leilão de profissionais sempre existiu, mas com um volume diferente. Agora, a demanda é maior porque a economia cresceu muito e não estávamos devidamente preparados para essa onda de oportunidades.” 

Fernando Mantovani: empresas temem perder talentos
Fernando Mantovani: empresas temem perder talentos

A grande oferta de vagas para executivos é mensalmente monitorada pela Laerte Cordeiro Consultores em Recursos Humanos. O termômetro é São Paulo, onde, em março, 640 profissionais para os níveis de gerência e direção foram procurados –  oferta 14% maior do que a registrada em igual período do ano passado. De acordo com a pesquisa, os profissionais da área geral de marketing/vendas receberam o maior número de ofertas de emprego (39%), seguidos pelos executivos de produção/técnica (23%). A indústria foi a maior recrutadora desses profissionais (64% das ofertas). Uma busca simplificada no site do Grupo Catho, considerado o maior detentor de classificados online de currículos e empregos da América Latina, mostrou 1.180 vagas para diretor (as mais variadas áreas) em Minas Gerais, em 95 anúncios, numa semana de abril. O número de currículos, porém, não chegava a 300.

“O Brasil terá essa lacuna transitória até se equipar de pessoas para sustentar esse salto da economia”, afirma o professor Laerte Cordeiro. “Agora, a troca de emprego sempre vai acontecer porque o bom profissional vive em busca de melhores oportunidades. Por outro lado, as empresas sempre querem ter Ronaldo e Pelé no mesmo time.”

Maria Helena Bertoccelle, da BS Consultores, em São Paulo, também já constatou que, desde o início do ano, as corporações estão procurando mais a ajuda das consultorias de recursos humanos em busca de bons profissionais. Em muitos casos, diz ela, a missão é conseguir a recontratação dos que foram dispensados durante a crise financeira que abalou meio mundo em 2008 e deixou rastro no ano passado. “Não há dados estatísticos sobre essa defasagem, mas a gente percebe pela dificuldade de fazer o meeting entre o que as corporações desejam e os currículos disponíveis. Por isso, é mais econômico buscar quem já tem uma boa colocação no mercado.”

Anderson Sant’Anna: “O mercado quer sujeito polivalente
Anderson Sant’Anna: “O mercado quer sujeito polivalente"

Mas qual é o perfil dos profissionais que estão com o passe supervalorizado? Alguém com network eficiente, boas relações sociais, que mostre competência no desenvolvimento de relações humanas, aponta o professor Laerte Cordeiro. Alguém que já tenha entendido que o mercado não visa apenas a formação profissional, destaca a consultora da BS. “Hoje em dia, a competência, por si só, não diferencia o profissional de uma empresa para outra. Não adianta também apenas ter muitos cursos. É necessário provar que é empreendedor, líder, assertivo, estar alinhado com os valores da empresa”, avisa Maria Helena.

O professor Anderson Sant’Anna, coordenador do Núcleo Vale de De­sen­volvimento de Lideranças da Fundação Dom Cabral, diz que qualificação é apenas a base para entrar no jogo e que, para conseguir as vagas mais disputadas, é preciso mostrar os projetos que já realizou, por onde passou, que resultados alcançou, além das chamadas competências de terceira dimensão – adaptabilidade, flexibilidade, capacidade de lidar com situações ambíguas, de se relacionar com as pessoas, trabalhar em grupo. “O mercado quer um su­jeito polivalente, que aponte soluções, alguém com capacidade de mobilizar seus múltiplos saberes para gerar resultados.” 

Sant’Anna avalia ainda que um dos motivos para o abismo entre oferta e demanda quando o assunto é o mercado de trabalho para executi­vos é o fato de as empresas terem, em muitos casos, a pretensão de encon­trar um indivíduo pron­to. “Isso le­va a certo embotamento. As empresas têm receio de serem formadoras de profissionais, de oferecer treinamento, porque acreditam que podem se transformar em fornecedoras de mão de obra qualificada para a concor­rência. Mas é necessário uma mudança de mentalidade, criar condições para que o bom profissional fique e apresente os resultados espe­rados. Além disso, saber que uma hora pode haver mudanças. Lem­­brando Vinícius de Mo­raes,  que o rela­cionamento seja eterno enquanto dure.

O que valoriza o executivo

  • Capacidade de liderança 
  • Perfil empreendedor
  • Bom poder de comunicação pessoal
  • Flexibilidade e capacidade de adaptação
  • Habilidade para a comunicação face a face e para a administração de conflitos
  • Orientação para o trabalho em equipe
  • Assertividade
  • Projetos implementados e resultados alcançados
  • Network eficiente
  • Visão generalista

 
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