Quarta, 23 de Maio de 2012
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Evento

Toque de Midas, ou melhor, de Eike

Dono da oitava maior fortuna do planeta, Eike Batista foi o palestrante em mais uma edição do Conexão Empresarial

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Tião Mourão


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Eike Batista e Márcio Lacerda

Mais de 100 pessoas, entre empresários, políticos, investidores e convidados participaram da edição de abril do projeto Conexão Em­pre­sa­rial, cujo palestrante foi o megaempresário mineiro, o bilionário Eike Batista. O jantar foi pa­trocinado pela Usiminas, com apoio da Em­bratel e Mascarenhas Barbosa Roscoe. Ágil e prático, Eike exibiu um vídeo que reúne o extenso panorama de investimentos da holding EBX, que congrega uma dezena de outras empresas. Foi atencioso com as perguntas da plateia e até ofereceu consultoria a empresários mineiros que pretendem abrir negócios no mercado de capitais. O estilo empresarial de Eike é considerado ousado, agressivo e até visionário por especialistas. Porém, em algumas áreas, é unanimidade: sabe atrair investimentos e lucrar como ninguém. Aos 53 anos, Eike aposta em áreas distintas, fazendo jus à famosa máxima popular de que não se põe todos os ovos em um único cesto: seus negócios vão desde a mineração, petróleo, energia, recursos hídricos, portos, turismo e um restaurante japonês de luxo, até a preservação da história nacional, apoiando projetos culturais como o recém-inaugurado Museu das Minas e do Metal, na praça da Liberdade, em Belo Horizonte, e a restauração completa do Hotel Glória, um símbolo do Rio de Janeiro.

Em matéria de investimentos, tudo é superlativo na escala Eike: na próxima década, ele planeja investir 40 bilhões de dólares no país. Atualmente, está finalizando as obras dos superportos de Açu e Sudeste, ambos no Rio de Janeiro, que devem começar a operar em 2011, e já planeja construir um estaleiro. Seu foco vai além do negócio: já prevendo a expansão demográfica nas áreas próximas aos portos, quer construir a Cidade X, para abrigar operários, estivadores e seus familiares. “Não sou empresário de construir puxadinho. Quando me disseram que uma casa padrão para a classe média baixa era de 48m2, fiquei horrorizado. Isso não é padrão! Faço questão de investir no ambiental e social antes”, sentencia. Segundo Eike, o melhor aprendizado para se ver saídas diante de crises e de situações inesperadas ele teve quando comprou uma mina em meio ao deserto do Atacama (Chile). “Ali, aprendi o que é ser autossuficiente, pois tive de partir do zero em tudo: não havia estradas, água, mão de obra, infraestrutura, nada. Foi uma operação quase que militar para colocar a mina em operação.”

A expansão meteórica na área petrolífera de Eike é recente. “Em 2007, descobri que a taxa de acerto para se achar poços, no Brasil, era de 60% contra 17% da média mundial. Já furamos dez poços e temos outros 17 descobertos, com capacidade geradora8 de mais de 10 milhões de barris, podendo chegar, até 2019 a 1 bilhão de barris. Infelizmente, o brasileiro não tem a cultura do risco.” Para a empreitada, ele foi ao mercado e contratou os melhores especialistas com know-how em pesquisa petrolífera. Segundo Eike, o país subestima sua capacidade petrolífera e até produtiva. “Angola produz hoje o mesmo que a Petrobras. O projeto do estaleiro que estou desenvolvendo tem só 20% de investimentos brasileiros. Para ganhar meu primeiro bilhão, fiz investidores ganharem 20 vezes. Vamos produzir o primeiro navio em, no máximo, três anos. É uma pena que aqui não se valorize isso.”

Bate-bola com os convidados

O que representa grandes eventos, como as Olimpíadas e a Copa do Mundo de Futebol, ocorrerem no Brasil?
Élcio Guerra, presidente da Anglogold Ashanti

Eike: Eles colocaram o país no mapa-múndi, as pessoas passaram a respeitar mais o que fazemos aqui. Antigamente, eu precisava ir atrás dos investidores internacionais, hoje são eles que vêm aqui pedir bênção. Tanto a China, quanto a Índia e o Brasil têm uma enorme demanda reprimida. Só que temos a vantagem de sermos os queridinhos da vez na escolha dos inves­tidores.

Quais foram os maiores problemas que você enfrentou na escalada empresarial?
Renata Vilhena, secretária de Estado de Planejamento e Gestão

Eike: Foi fechar empresas de maneira correta. No Brasil, não sei por que é mal visto quem fecha uma empresa, é como se fosse proibido ter uma segunda ou terceira chan­ce. Fechar uma empresa do jeito certo, de forma transparente, é algo difícil de ocorrer aqui. Acho que todo empresário tem de buscar ser o mais transparente possível, pagar salários justos, compatíveis aos níveis de complexidade de cada cargo. Outra coisa é se formalizar. Se nós, empresas e  sociedade, nos mobilizarmos para ampliar a formalização, conseguiremos até reduzir impostos.

Como você lida com a inveja?
Marco Antônio Castelo Branco, presidente da Usiminas 

Eike: Paciência, o ser humano é assim mesmo.

Como você monta sua equipe, quais seus principais critérios seletivos?
Décio Freire, advogado

Eike: Eu não acredito no sistema tradicional de seleção de empresas de recursos humanos. Talvez hoje eu saiba mais ler pessoas do que livros. É algo similar à tática de acerto para se encontrar uma mina de ouro, que é na proporção de 17 mil x 1. Com o tempo, aprende-se a enxergar quem tem talento. Empresas de headhunnters nunca funcionaram para mim, prefiro os networks.


6 perguntas para Eike

Para você, arriscar-se nos negócios é...
Não diria que arrisco, pois são riscos calculados. Primeiro, buscamos o mercado, é o que sempre faço, depois investimos, porque se descobre um mercado grande. Por isso estou construindo dois superportos na costa brasileira. É o famoso negócio bem estruturado. Faço projetos enxergando muitas vezes coisas que ninguém viu. O grande valor que venho criando vem de uma inspiração, obviamente existe planejamento em volta de tudo isso, mas eu diria que tudo começa com um conceito, uma ideia sobre coisas que ninguém pensou antes. Não há risco envolvido. Na verdade o risco é mitigado quando se tem um conceito bem-bolado. Quando se decide investir volumes grandes de recursos não se está arriscando, você está apenas executando algo que foi bem concebido.

Ao contratar altos executivos ou negociar quantias vultosas, seu lema é “você fica rico, e eu mais ainda”. Qual é a origem desse seu business feeling?
Isso funciona. Aprendi a importância dessa técnica desde 1983, quando operava com mercados de capitais no Canadá, onde comecei minha vida empresarial (na época, com a TVX). Por acaso, o mercado canadense sempre aceitou grandes riscos, podia-se captar 20 ou 30 milhões de dólares para investir em prospecção de uma área mineral, por exemplo. Foi daí que veio esse início de captar recursos. E no sistema norte-americano há opções que as empresas dão a seus executivos e funcionários também nessa forma em que todos podem lucrar. Eles recebem ações em prazos de 3 ou 5 anos, já o meu modelo é o de 10 anos. É uma maneira de fazer todo mundo participar efetivamente como potencial sócio da companhia.

Por que você acha que o brasileiro comum ainda não aprendeu a lidar e a valorizar o mercado financeiro, a entender melhor o sistema da bolsa de valores, como fazem e bem, os norte-americanos e europeus?
Porque infelizmente o Brasil tem taxas de juros reais muito altas, incompatíveis com o que ocorre nos EUA e na Europa. Juros altos sempre levaram todo mundo a investir em coisas financeiras, bancos, enfim. Até hoje se cobra o crédito ao consumo com taxas de 5% a 10%. Isso é uma loucura, é uma das maiores taxas do mundo. Cobram esse juro justificando a desculpa da inadimplência, quando sabemos que não é bem assim que as coisas funcionam. As pessoas mais humildes são as que mais pagam em dia suas contas.

Tom Jobim dizia que o brasileiro torce pelo insucesso de seus compatriotas. Nelson Rodrigues disse que sofremos do complexo de vira-lata, referindo-se à postura inferior do brasileiro perante o resto do mundo. Em pleno século 21 você acha que ainda prevalecem essas máximas so­bre o perfil nacional?
Em grande parte sim, talvez pelo nosso histórico de sempre depender do governo, por termos essa postura de povo colonizado. Há uma cultura do imediatismo aqui, e por ser um país de fartura não aprendemos a valorizar as coisas, a planejar por longos períodos. A maior parte do Brasil foi montada via empresas estatais: a melhor fase de expansão de projetos de grande escala estruturante foi a partir de empresas como Eletrobras, Vale do Rio Doce, Petrobras, Siderbras. As pessoas ficavam acomodadas, aguardando uma oportunidade de fechar contratos com essas empresas. A cultura do empreiteiro é muito esse tipo de Brasil, que é a do não-risco. Fui arriscar 1 bilhão de dólares no petróleo, veja o que achei. Gastei centenas de milhões de dólares na mineração, veja aonde cheguei. Agora estou investindo bilhões na logística, suprindo uma deficiência estatal. Hoje, quem arrisca, com conceitos modernos, arbitra uma megaeficiência do país. Com os portos vamos fazer uma revolução, a produção sairá praticamente do caminhão para a barcaça ao longo da costa, usaremos o trem para ir até a costa.

Ser o oitavo homem mais rico do mundo assusta ou é estimulante?
Não importa. Representa que dá para fazer mais coisas para o Brasil. Quero gastar esse capital aqui, pois mais de 90% de tudo o que tenho estão investidos no país, quero fazer esses nossos projetos acontecerem, multiplicarem, gerarem empregos. Hoje, 85% de meu tempo passo no Brasil. No fundo acho que esses projetos são muito mais filantrópicos, integram um sistema de filantropia direta. Prefiro gerar riqueza para o Brasil, gerando empregos. Hoje temos cerca de 15 mil brasileiros trabalhando em nossas obras. Há muito a ser feito ainda no país. Vejo gargalos como sinônimos de oportunidades de investimentos.

O que acha que mantém de mais representativo do jeito mineiro?
Acho que o fato de ser modesto. É, acho que sou modesto, sim...

Mais fotos do Conexão Empresarial aqui.


 
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