Quarta, 23 de Maio de 2012
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Especial Dia das Mães III

Duas Mães, ou Dois Pais

Preconceito, falta de legislação específica e muita batalha judicial: eis um resumo do que é ter o direito a um filho adotivo para os casais homoafetivos

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Alexandre C. Mota, Hamilton Pavam, Rodolfo Buhrer


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Vasco e Júnior conquistaram na Justiça o direito de adotar Theodora

Será mais um Dia das Mães atípico o de Theodora, uma menina de 8 anos que mora em Catanduva (SP), estudante de colégio de freiras e campeã em número de madrinhas. Ela tem 7. Mãe, nenhuma. Em compensação, pais, ela tem dois, oficializados em 2006 em sua certidão de nascimento e carteira de identidade. Theodora é filha adotiva do casal de cabeleireiros Vasco Pedro da Gama Filho e Júnior de Carvalho. Eles foram o primeiro par homoafetivo a adotar uma criança no Brasil. Não sem briga. Vasco entrou com um pedido sozinho. Depois de conseguir a guarda, Júnior também requereu o direito de ser pai. Já o brasileiro Toni Reis e o inglês David Harrad, também querem adotar um filho, mas a sentença favorável à adoção veio com um porém que os fez voltar novamente à Justiça – a criança teria de ser do sexo feminino e com idade superior a 10 anos. Soraya Menezes e Suely Martins Sevilha estão com a guarda provisória da pequena S.V., 3. O desejo era que as duas, que estão juntas há 14 anos, fossem as mães da menina. Como a Justiça não acatou o pedido de adoção conjunta, esperam a guarda permanente para iniciar uma nova batalha.

Se fosse possível uma analogia, a luta dos pais homoafetivos pela adoção conjunta de um filho seria quase um parto a fórceps. Eles enfrentam uma queda de braço entre o mundo real e uma legislação capenga, que surge todos os dias nos tribunais de diversas partes do Brasil. De um lado, o apego à Constituição e de que todos são iguais perante a lei, fazem com que esses casais briguem pelo direito de, juntos, adotarem um filho. Do outro, a ausência de uma norma jurídica para tratar do tema da adoção para casais homossexuais faz com que a maioria dos processos passe por uma peneira. Separado pode, mas se o pedido de adoção for do par, a Justiça não equilibra sua balança – ora há avanços como o do casal Júnior e Vasco da Gama. Ora, mostra sua face cruel. Toni Reis e David Harrad entraram no Supremo Tribunal de Justiça com um recurso para poder adotar a criança que quiserem, sem imposição de características, que consideram discriminatórias.


O grande problema para essa falta de legislação, segundo a ex-desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, a advogada especializada em direito homoafetivo, Maria Berenice Dias, é que casais de todo o país são submetidos a sentenças desiguais. Ficam à mercê dos juízes.

Há aqueles que consentem na adoção pelo casal, mas outros dificultam e não são favoráveis. A saída sempre foi a de apenas um dos pares adotar a criança. “A lei diz que uma pessoa sozinha pode adotar e não questiona a orientação sexual dela. Então, apesar de a criança passar a viver com duas pessoas, para o processo de adoção somente um é submetido a entrevistas, estudos, avaliações”, diz.

Soraya e Suely: “Exigimos respeito e garantias dos nossos direitos”
Soraya e Suely: “Exigimos respeito e garantias dos nossos direitos”

“No Brasil, somos cobradas por todos os deveres, mas na hora dos direitos, vemos uma legislação que, infelizmente, é regida pela fé, pela religião, com símbolos que reprimem a homossexualidade”

Soraya Menezes

É de Soraya Menezes o grito: “no Brasil, somos cobradas por todos os deveres, mas na hora dos direitos, vemos uma legislação que, infelizmente, é regida pela fé, pela religião, com símbolos que reprimem a homossexualidade”, diz. O que move Soraya na busca pela maternidade de sua filha adotiva com Suely  é o sentimento que, sim, ela também é mãe de S.V. Alterna com a companheira levar a filha para a escola, está ali no dia a dia para educá-la, ouve o chamado carinhoso de mãezona, enquanto Suely é a mãezinha. “É uma crueldade sem tamanho negar esse direito. Já pensou se acontece algo à minha companheira? Pela lei, não terei nenhum direito como mãe. Quando cerceiam nossos direitos, querem nos tornar invisíveis. O que a sociedade precisa compreender é que não queremos aceitabilidade sobre a nossa sexualidade, o que exigimos é o respeito e a garantia de nossos direitos”, afirma.

Há cerca de nove anos, um caso famoso repercutiu em todo o país e terminou exatamente nesse imbróglio de que fala Soraya. A cantora Cássia Eller, então casada com Maria Eugênia Vieira Martins, morreu subitamente e o pai da cantora iniciou uma briga judicial pela guarda do filho de Cássia, Francisco. Mesmo sabendo que era Maria Eugênia que cuidava do menino e de sua educação. Depois de muita briga, a Justiça concedeu a guarda definitiva a Maria Eugênia.

David Harrard e Toni Reis: só poderiam adotar menina
David Harrard e Toni Reis: só poderiam adotar menina

Apesar da repercussão deste caso, o advogado civilista e mestre em direito e globalização, Fábio Vargas, afirma que, no Brasil, quando o tema é a união homoafetiva, tudo é tabu e o preconceito social se revela pela postura inerte do legislador. “Em 2009, entrou em vigor a nova lei nacional de adoção e, mais uma vez, o Legislativo perdeu a oportunidade de avançar, pois não trouxe nenhum artigo relativo ao tema”, diz.

Há casos que representam um retrocesso, na opinião de Vargas, como o projeto de lei 7.018/2010, de autoria do deputado Zequinha Marinho, que proíbe a adoção de crianças e adolescentes por casais homossexuais, a chamada adoção homoafetiva. O advogado destaca que a proposta do deputado, que ainda está em tramitação, é um espelho do que parte da sociedade acredita. Muitos, em sua opinião, têm aceitação forçada e velada da adoção homoafetiva, para não parecerem politicamente incorretos.  “O fato é  que os argumentos contrários à adoção são inconsistentes e falaciosos, não resistindo à mais superficial análise. Um dos piores vai no sentido de que a homossexualidade dos pais determinará a homossexualidade dos filhos”, diz.

Uma das mais renomadas organizações norte-americanas, a A­me­rican Psychological Association (APA), realiza, desde os anos 70, pesquisas com diversas crianças que têm pais do mesmo sexo. “E elas comprovam a normalidade dessas crianças, hoje adultos. É um estudo que destaca a importância da figura dos pais não como macho e fêmea, mas como pessoas capazes de exercer as funções parentais com segurança e naturalidade, permitindo o desenvolvimento sadio ao filho, tanto física quanto emocionalmente”, argumenta o advogado Vargas.

O presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Antônio Luiz Martins dos Reis, o Toni Reis, diz que o mais doloroso em um processo de adoção homoafetiva é ver um caso se arrastar na Justiça, como o dele e de David Harrad que espera uma solução desde 2005, e saber que inúmeras crianças sofrem com o abandono em abrigos. “Não vamos desistir, mas é doloroso, triste. Vemos inúmeras crianças que poderiam estar bem cuidadas, ter amor, carinho, afeto, mas estão sofrendo em abrigos por falta de humanidade, de um preconceito arraigado”, diz Reis. Harrad diz que é um tempo de espera terrível também para eles. “Estamos ficando velhos. Uma espera de cinco anos é tem­po demais.”

O processo travado logo na primeira batalha, impede os casais de vivenciarem as outras etapas da transformação em pais, que é a convivência com os filhos. O casal Júnior de Carvalho e Vasco Pedro da Gama Filho dizem que a adoção de Theodora, ocorrida em 2006, mudou radicalmente a vida dos dois, que são cabeleireiros e também promotores de eventos, colunistas sociais. Para melhor, já que estão na fila para adotar uma segunda criança. “Antes, não tínhamos tempo para café da manhã, almoço. Uma criança faz toda a diferença”, diz Carvalho.

Se há preconceito, Theodora nunca passou por ele, segundo Carvalho. Ela estuda em tradicional colégio de freiras de Catanduva e como qualquer criança, recebe e visita os amigos, tem aulas de piano e de natação. Tanto Júnior quanto Vasco são presentes e participam de todas as reuniões e eventos da escola. “Nunca escondemos que somos gays e ela entende tudo numa boa. Também falamos para ela que, pelo fato de ter sido adotada por dois pais, ela terá de lidar com o assédio das pessoas pelo resto da vida. Com certeza há pessoas que não concordam com o fato de dois homens casados adotarem uma criança, mas ninguém nunca chegou para nos falar nada”, diz.

Para ampliar o número de histórias com finais felizes como a de Vasco, Júnior e Theodora, o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) passará por mais uma rodada para a aprovação do Estatuto da Família, com uma audiência pública em 12 de maio, no Congresso Nacional, em Brasília. O estatuto legitima as novas formações familiares, com ênfase nos direitos das relações homoafetivas. Desde que começou a tramitar, em 2007, a luta, segundo a advogada e vice-presidente do IBDFAM, Maria Berenice Dias, é para que as emendas do Legislativo, que retiram do Estatuto vários direitos dos casais homoafetivos, sejam derrubadas. “Como tudo que diz respeito à relação homoafetiva, o Estatuto vem enfrentando resistência e má vontade do legislador”, diz.

Enquanto esperam essas mudanças e o tempo da guarda provisória acabar para entrarem com uma nova luta, Soraya e Suely ensinam à filha novos valores. Os passeios são com casais heterossexuais, homossexuais, em que o desejo das duas é preparar a filha para viver num mundo diverso. S.V. tem se saído muito bem. Adora os passeios e a convivência com mãezona e mãezinha e, neste Dia das Mães, o presente é duplo. “Ela sempre prepara dois trabalhinhos para nós duas”, diz Soraya.


 
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