Quarta, 23 de Maio de 2012
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Especial Dia das Mães II

Êta Fase Difícil

Mães de adolescentes: modernas gestoras familiares ou mulheres que padecem no paraíso?

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Daniel de Cerqueira


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Eles não são mais crianças, muito menos adultos. O corpo dá sinais claros e também confusos sobre mudanças bruscas: hormônios no ápice provocam oscilações constantes de humor, raiva desmotivada e espinhas irritantes proliferam no rosto. Os contornos femininos vão surgindo e os meninos passam por variações súbitas na escala de voz que chegam a causar chacota na turma. Muitos trocam brincadeiras inocentes por jogos de sedução. Alguns, devido ao crescimento rápido demais, chegam a parecer desengonçados a cada movimento. No dicionário Aulete, adolescência é a fase da vida humana que sucede à infância (a partir da puberdade, aproximadamente aos 12 anos) e vai até a idade adulta (por volta dos 20 anos). Para o médico psiquiatra e escritor Içami Tiba não há como localizar com rigor a fase, pois há os adolescentes precoces (chamados de geração teen) e os tardios (a geração carona). Tiba avalia adolescência como uma das mais complexas etapas, tanto para os pais, quanto para os filhos. Segundo o especialista (veja entrevista no final da reportagem), os pais encontram-se perdidos entre valores do passado, pressões da modernidade e o eterno sentimento de culpa quanto à melhor educação a oferecer.

O tema é tão complexo que motivou a dissertação de mestrado Com­pre­en­dendo os sentimentos do adolescente em seu processo de iniciação sexual defendida na UFMG, em 2007, pela enfermeira Letícia Azevedo. A pesquisadora fez uma análise qualitativa para entender o universo adolescente. Segundo Letícia, não importa o nível econômico ou cultural, as dúvidas e anseios dos jovens são parecidos. “As meninas sentem-se retraídas quanto ao sexo, têm receio tanto da família quanto do julgamento da sociedade. Há conflito interno: ao mesmo tempo em que têm desejo se preocupam como os outros irão pensar delas. Já os meninos sofrem a pressão de ser o perfeito, o viril, de ter que dar conta na hora H.” A pesquisadora diz ser difícil para os jovens, mesmo os bem informados, pensar a respeito do que se desconhece na prática, ou seja, o sexo. “Eles se sentem perdidos em meio a um mar de informações. No geral, assuntos como sexo e drogas são debatidos entre colegas ou com estranhos, porque eles temem a reação dos pais.” Nos anos 1990, o seriado Confissões de Adolescente foi sucesso de audiência na TV ao mostrar o cotidiano de um pai solteiro e suas quatro filhas adolescentes, além de lançar a atriz Deborah Secco, que interpretava a caçula da família, Carol. Até hoje a série é referenciada por mostrar um real raio X do que ocorre na intimidade das famílias brasileiras. No mês das mães, a Viver Brasil quis saber como está essa relação pais x adolescentes. Por isso, conversamos com três mães e seus filhos para saber se, na prática, elas representam o ditado popular que diz que ser mãe é padecer no paraíso. Será?


No controle, literalmente

A empresária e fisioterapeuta Patrícia Holman, mãe de Raphael, 16, passa pela terceira vez a experiência de lidar com adolescentes, depois de Cristiana, hoje com 23 e Mariana, 20. Embora Raphael seja o caçula e o único homem, ela garante que o rapaz não tem privilégios. Por isso utiliza o mesmo sistema que adotou com as meninas: regras estabelecidas, horários, limites, enfim, tarefas a cumprir. E não toma partido quando ocorrem as famosas brigas entre irmãos. Para evitá-las e aumentar o elo de amizade e respeito entre eles, Patrícia criou um sistema no qual em cada dia específico da semana um dos filhos é que detém o controle remoto da TV, enquanto toda a família assiste à programação escolhida pelo jovem da vez. É uma forma, segundo ela, de manter o elo entre irmãos. “Pode parecer bobagem, mas funciona. Como tenho veia italiana, sempre fui rígida com decisões, pois se eu voltar atrás uma única vez eles abusam. E todo jovem sente falta de regras.” Patrícia diz que opta por escancarar a realidade aos filhos, por mais que seja chocante. “Sempre mostramos a eles artigos de jornais e revistas sobre criminalidade juvenil, gravidez na adolescência, drogas, DSTs, enfim, tudo. Ainda uso exemplos de amigos que foram pais aos 15, 16 anos. Não tem como fazer vista grossa à realidade.” Para Raphael, adolescer é tranquilo. “O chato é que a gente fica com mais responsabilidade, tem de estudar mais. Por exemplo, eu já penso no vestibular, embora seja só no ano que vem”, diz o aluno do 2º ano do ensino médio do Colégio Logosófico.

Regras inflexíveis

A funcionária pública Ana Cristina de Oliveira não cede fácil aos apelos de Paulo Henrique, 14. Ela lembra que viveu uma fase complexa na pré-adolescência do garoto. “Foram longos momentos de introspecção, ele passava horas recluso no quarto.” Ana Cristina lembra que se não fossem os longos diálogos entre ela, o marido e o garoto, o período poderia ter sido pior. “Tínhamos a postura de também compreendê-lo, pois sabemos que é difícil lidar com a alteração hormonal bombardeando todo o tempo.” Por morar em um condomínio repleto de muitos adolescentes, Paulo diz que é comum “pagar constantes micos” quando está nas áreas de lazer do prédio e os pais impõem o toque de recolher. “A azaração dos colegas é tanta que já nem ligo. Hoje entendo que meus pais estão certos.” O casal diz manter um diálogo aberto com o adolescente, mesmo em assuntos como drogas e sexo. Ana Cristina conta, orgulhosa, que o primeiro conjunto de camisinhas do filho foi presente do pai, o gerente de vendas Leonardo Oliveira. Aluno do Santa Doroteia, Paulo Henrique chegou assustado, uma vez, em casa. “Soube que durante festa de 15 anos um de meus amigos bebeu tanto que teve coma alcoólico. Quase morreu, foi parar no hospital. Fiquei chocado.” O jovem diz que nessa hora se lembrou dos conselhos familiares. “Nem sempre quem  estimula a fazer coisas erradas ampara em momentos difíceis como esse, ao contrário, fogem à responsabilidade,”  afirma Paulo.

Amizade a toda prova

Eliana Lo Buono Moreira Bergmann, mãe de Gabriela, 17, utiliza do famoso jogo de cintura para lidar com a filha adolescente. Ela apregoa que a fase tem sido tranquila, porque regras e limites foram impostos à garota desde a infância. Por ser filha única, Gabriela tornou-se a melhor amiga da mãe. Para Eliana, não é algo que comprometa a relação de respeito, pelo contrário, ajuda a se aproximar da filha e no debate sobre temas complexos. Ela jura que ambas são confessoras uma da outra. Uma coisa é sagrada na família Bergmann: nem os pais, nem a jovem abrem mão de jantarem juntos todos os dias, em casa, quando aproveitam para jogar conversa fora e interagir. Nesses momentos, cobranças, problemas e temas negativos são assuntos proibidos. O que predomina é a interação positiva. Parte do que aplica na educação da filha, já que durante muitos anos Eliana foi educadora infantil, é inspirada nos livros da filósofa e pesquisadora Tania Zagury e nos best-sellers do psiquiatra Içami Tiba. Aluna do colégio Santo Agostinho, Gabriela é jovem nota 10: tira boas notas em todas as disciplinas, gosta de ler livros e ao contrário de seus colegas odeia ficar pendurada no telefone ou em redes com MSN ou twitter. “Prefiro lidar com as pessoas pessoalmente, é algo muito mais rico.”

Adolescer é para pais e filhos, segundo Içami Tiba.Psicanalista avalia a relação familiar como uma troca: todos têm de participar

Nem carrascos, nem vítimas. Na relação pais x adolescentes todos carregam sua responsabilidade, erros e acertos em peso idêntico. Quem avalia essa conturbada relação é o renomado psiquiatra e escritor Içami Tiba, especialista na área: em 38 anos de clínica, atendeu mais de 74 mil adolescentes e pais. Antes de qualquer comparação, é categórico: o que aplica hoje na educação de adolescentes é diferente do que fez com os filhos. “Porque jamais daria certo, é outra época.” Autor de 28 livros, com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos, entre os quais o best-seller Adolescentes: Quem  Ama, Educa! já na 38ª edição, Tiba não alivia o tom crítico ao dizer que o maior problema dos jovens está na falta de pulso dos pais. E dá um puxão de orelha nos que se agarram a conceitos ultrapassados.

Hoje o grande dilema dos casais é não ter tempo para curtir e cuidar dos filhos. Como fazer para minimizar a ausência?
Os pais não têm tempo não é só para os filhos, não o têm nem para si próprios. Não é para lamentar e sim corrigir, atualizando o modo de viver, utilizando mais os avanços tecnológicos que nos tiraram tempo. Usar celular, torpedos, facebook, twitter, o que for. Os pais que não falam a linguagem dos filhos, depois não podem reclamar que estão em terra estrangeira.

Como impor limites e disciplina aos jovens?
Tem de desenvolver responsabilidade. Os pais têm de se educar para que possam cobrar diariamente dos filhos o relatório de aulas, não vale só uma vez por semana, precisa virar obrigação diária. Basta pedir que façam  resumo das aulas, como se fosse um twitter. E caso não receba o material, o pai deve ligar para o filho pedindo o twitter do dia. Não se perde um minuto nisso. Quan­do o pai cobra, cria no filho um hábito e o hábito faz a disciplina. Os pais estão se autoenganando, acham que educam, quando estão longe disso.

Os adolescentes têm uma tendência de se isolarem em seus mundos. Evitam interagir com a família. Como romper tal comportamento?
Fazendo happy hour em casa! Para que o filho participe desse happy hour, ele tem que cumprir suas tarefas. E o melhor momento para isso é a hora do jantar. É quando não se cobra nada, só se falam besteiras, se contam piada e casos interessantes. Quem não fez a lição, não vai jantar. É tão simples! Filho não morre de fome em casa que tem comida, só morre de falta de educação.

Como não usar discursos prontos que nunca são ouvidos pelos filhos?
O melhor é parar de dar bronca à toa e trocar a bronca por exigências. E viva feliz. Se o filho não cumpriu as exigências, não se deve ceder e pronto.

Como os pais devem abordar temas delicados como drogas, sexualidade, gravidez, violência com os jovens sem parecer chatos?
Essa história de temer ser chato faz os pais perderem os filhos. No futuro, quem será o chato com eles será o policial, o delegado, o juiz, o patrão, outras pessoas irão cobrá-los na vida.

Há muitos casos de adolescentes de classe média alta que vão parar nas páginas policiais. Por que isso ocorre?
Ninguém rouba a casa alheia sem antes ter roubado a própria casa. São jovens que já pegaram dinheiro do pai escondido, roubaram coisas da mãe. A corrupção começa no lar.

Qual é o pior pesadelo dos pais de adolescentes hoje?
Exigir dos filhos a responsabilidade que eles precisam ter. Vejo que eles ficam poupando os filhos disso, e estes deixam de crescer emocionalmente.


 
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