|
EntrevistaDefensor vorazAssim podemos definir Olavo Machado, que assume a presidência da Fiemg neste mês de maio, quando o assunto é a indústria mineira
Texto: Flávio Penna | Fotos: Petrônio Amaral
|
“Quando uma multinacional do setor elétrico, como a Cemig, deixa para trás nossas empresas produtoras de material elétrico, algo está errado" No plano nacional, não corremos o risco de assistirmos a uma desindustrialização causada pelas importações, já que não conseguimos concorrer com os produtores estrangeiros? Primeiro uma correção na sua colocação. Nós temos, sim, condições de concorrer com eles, desde que a regra seja a mesma. Não temos nenhum receio de concorrer com qualquer fabricante do mundo. Mas não podemos concorrer com regras diferentes. Se nosso encargo trabalhista é x e o deles é y menor que x, então é preciso onerar o produto importado baseado no que paga a indústria brasileira. Se nossa carga fiscal é maior do que a praticada no país de origem do produto importado, nós precisamos ter uma contrapartida nas sobretaxas. Se for assim, seremos muito competitivos. Agora, você querer que com o custo Brasil enorme que temos, o empresário concorra, dentro de nosso mercado, com empresas que não têm esta sobrecarga, é covardia. Não queremos privilégios, mas também não podemos aceitar coisas como o contrabando que acaba com o emprego. É muito bom comprar produtos não onerados com impostos, mas quem compra coloca o seu emprego em risco. Importa destacar ainda que esta sonegação só é feita no comércio. O industrial não tem como fazer isto. É mais fácil de ser fiscalizado, ainda mais com a nota fiscal eletrônica. Mas o não exigir nota, o que facilita a vida do sonegador, é da cultura de nosso povo. Acho que nosso descaso começa é quando não pensamos para a escolha de nossos representantes no Legislativo. E este é um bom momento para discutir isto já que estamos em ano eleitoral. É preciso escolher bem nossos representantes. Depois não sabemos cobrar, pressionar que as leis sejam feitas em benefício da sociedade. Além disto, encaramos a informalidade com muita naturalidade. Para nós, quem está vendendo sem pagar impostos, é mais esperto, mais inteligente que os outros, sem enxergarmos que ele está é acabando com o mercado, às vezes inviabilizando empresas grandes. Temos que defender nosso mercado interno. Não sou apologista de fechamento de mercado. Defendo a livre iniciativa, mas precisamos cuidar do mercado interno até como forma de alavancar nossa economia para que possamos disputar lá fora. É defesa sem protecionismo, mas com igualdade. Toda vez que adotamos o protecionismo criamos cartel. Protegemos pessoas, grupos. A sociedade ficou para depois. O senhor fala na necessidade de escolher melhor os parlamentares. Não está na hora de o empresário entrar na política diretamente, em vez de apoiar candidatos apenas? Realmente nós temos no empresariado muitos nomes bons, mas é preciso lembrar que para ser político é preciso ter outros dons, outras qualidades. Se você eleger um empresário de nada adianta porque ele não vai modificar nada sozinho. Se você eleger muitos empresários, vai haver uma distorção no Congresso ou na Assembleia e o que a gente espera é que nestas Casas haja pessoas de bem, que pensem no todo e que consigam fazer com que cada coisa tenha o seu peso relativo. Mas o que me preocupa é a falta de sensibilidade da máquina estatal com o empresário. Hoje qualquer bandido é tratado como empresário. O sujeito que estava corrompendo, sonegando, fazendo contrabando, é empresário. Este não pode ser chamado assim. Empresário é o que levanta cedo, trabalha até mais tarde do que os outros, ao final do mês paga seus impostos, suas contas, suas obrigações sociais e ainda tem que ficar torcendo para conseguir a sua retirada. E eles são poucos aqui. Minas Gerais tem 93 empresas com mais de mil empregados. Somos 1,8 mil com mais de 100 empregados. Não estou falando em empresas com sede aqui não. Falo em empresas que operam aqui. Mas isto não é característica da economia mineira apenas. É um problema do Brasil. Nossa legislação causa essa distorção. O cidadão abre uma empresa e depois não consegue fechá-la. Quando se olha o quadro de empresas industriais registradas, vê que elas são 120 mil. Ao analisar a receita percebe que apenas 3,8 mil empresas são responsáveis pelo recolhimento de 90% dos impostos e por 72% dos empregos. Quem está oferecendo emprego é a grande empresa. O país deveria estar incentivando as pequenas para que elas cresçam. O que acontece é que o pequeno não quer crescer para não ter que pagar imposto. Estamos criando pessoas espertas que têm uma carga tributária diferente das demais. A carga tributária é alta realmente, mas não é a única razão da sonegação e da informalidade. O que falta mesmo é incentivo para o pequeno crescer. |
“Realmente nós temos Há no estado uma economia invisível, formada pelas pequenas indústrias do interior, como as que fabricam cachaça, farinha e outros produtos. Como estão estes empresários? Estas pessoas são desconsideradas. Ninguém olha por elas. A preocupação é muito mais com os maiores. Em trazer gente de fora do que incentivar os daqui para eles se superarem. Por que precisamos trazer gente de fora para dar emprego aos mineiros? Por que não é o próprio mineiro que vai criar este emprego, como sempre foi? Não sou nada contra a abertura, a internacionalização da economia, mas a empresa só começa a criar raízes no lugar depois de 20, 30 anos. Quando vem a preocupação de tirar e levar para fora. Com o passar do tempo ela vai se enraizando. Isto é normal, acontece com a gente também quando criamos empresas fora. Mas tem que haver diferenciação para que o empresário local possa ter mais sucesso. Nós temos tudo, mas não valorizamos o que temos. É preciso cuidarmos desta valorização, de prepararmos pessoal capaz de levar adiante o crescimento. Como vamos pensar em desenvolvimento se não formamos, por exemplo, engenheiros em número suficiente. Assumindo a presidência da Fiemg o senhor terá sob seu comando um dos mais sofisticados e completos sistemas de ensino do país. Quais são seus planos na área? O Sesi é a primeira grande franchising do Brasil. Ele é competente, preparado, habilitado, bem-estruturado e tem a mesma cara no Brasil inteiro. A mesma coisa é o Senai. Só que, na minha opinião, ele precisa estar à frente da indústria. Ele tem que preparar hoje o funcionário da indústria de amanhã. Não preparar hoje o que ela precisava ontem. Agora, vejo a necessidade também de um investimento maciço, vigoroso de educação do empresário. Temos que preparar o nosso empresário. Com pessoas preparadas, empreendedores mais ousados para a disputa de mercado, podem estar certos de que mudaremos o estado. O senhor falou em eleições. As deste ano preocupam os empresários? Preocupam sim, mas eles deveriam estar mais preocupados. Todos sabemos dos ônus e das dificuldades que surgem quando nos enganamos e colocamos pessoas não habilitadas no governo. Minas vem num crescente de bons governos e não podemos regredir. Felizmente os candidatos que estão aí colocados são todos habilitados, preparados. Para a Presidência da República é a mesma situação. Pelo visto os senhores não contam com nenhum grande susto nestas eleições. Não há como mudar muito. Eu não vejo como mudar. É uma evolução natural. O presidente Lula, por exemplo, fez o país crescer, avançar. É lógico que recebeu do antecessor uma boa base e vai passar o país ao seu sucessor com uma boa base também. A ministra Dilma e o governador Serra são pessoas preparadas. Acho que não vai mudar nada não. É só a gente ter um pouquinho de juízo que nós crescemos e resolvemos nossos problemas. A crise acabou? A crise que afeta o pequeno sempre existiu, não acaba nunca. A crise que afetou o grande diminuiu muito. A gente espera que o mundo continue crescendo. A gente não cresce mais sozinho. Não há como o Brasil se isolar, achar que ele será uma ilha de prosperidade no mundo que vai acabar. Nós não podemos perder a crise de vista. Precisamos tirar os ensinamentos dela. Há muito a aprender com esta crise. |