Quarta, 23 de Maio de 2012
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Crônica

Bestas in the City

Texto: Bruno Fernandes | Fotos: Arte: Paulo Werner


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Vem aí o filme Sex and The City 2, originário da série que fez sucesso na TV durante seis temporadas. O hype em torno do programa é um mistério: tornou-se fenômeno entre as mulheres mesmo denegrindo e desrespeitando a imagem de todas elas.

Se fosse apenas mais um show de TV, com diálogos engraçadinhos e boa produção – e de fato é – não haveria motivos para a crítica a seguir. Como entretenimento, o programa funciona, tem texto e atuações bem amarradinhos, é divertido. Até aí, tudo bem. O espanto reside no fato de que a série foi vendida e aclamada como um marco na evolução do comportamento feminino, o retrato fiel da mulher atual, independente e bem-sucedida. A revista Época ,de junho de 2008, publicou matéria de capa com o título Como o Seriado Sex and the City Inventou a Mulher Moderna, elevando as personagens ao status de ícones de uma geração.

Se isto for verdade, então chegamos definitivamente ao fundo do poço. Que esperança há num mundo onde a grande referência feminina são quatro solteironas – de fato realizadas financeiramente – cuja única preocupação na vida é arrumar um homem que aguente seus chiliques e frescuras? Sex and the City joga contra as mulheres. É a consagração do peniscentrismo.

Fúteis até a última gota de Chanel Nº 5, as personagens possuem um interesse primordial: machos. No café, no almoço ou caminhando no Central Park, Samantha, Carrie, Miranda e Charlotte debatem preferencialmente sobre homens. Nada de cultura, ciência, política, religião ou saúde. Mentira. Vez ou outra, elas também falam sobre sapatos. Os dramas familiares ou profissionais, além de raros, são abordados com extrema preguiça.

Onde estão o orgulho e o amor-próprio das mulheres que se espelham nestas quase-quarentonas que se abrem como flores para o primeiro canalha bom de papo (ou de bolso) que aparece para explorar essa carência chata e interminável?

O que há de resolvido em coroas experientes (sic) que continuam escolhendo vagabundos em vez de bons partidos e justificam traições com conversinhas do tipo eu estava confusa?

Quão liberada é a mulher que, beirando os 40, apaixona-se pela maravilhosa descoberta de um simples acessório erótico para os momentos de solidão? Qualquer blogueira do interior da Mongólia conhece mais sobre sexo e relacionamentos do que as protagonistas da série. Assistir aos seus diálogos é como ler o chat de MSN de colegiais que mataram aula para falar bobagem na sala de internet da escola – “Miguxa, ontem ele pegou no meu peitinho...”

O que se pode aprender com mulheres que acreditam que a vida gira em torno do macho, mas que na falta dele um calçado Manolo Blahnik resolve? Onde está a boa referência de um ícone de comportamento que, a certa altura da história, não tem dinheiro para o aluguel, mas descobre que possui 40 mil dólares em sapatos? O que há de exemplar e evoluído neste estilo de vida?

Essencialmente, Sex And the City não trouxe nada de novo. São as mesmas e seculares aspirações pueris femininas disfarçadas sob o falso glamour de um estereótipo urbano batido, recheado de clichês, furos e velhas contradições. Não há nada de moderno e admirável em confundir carência com sentimento, independência financeira com egoísmo, liberalismo com libertinagem ou sofisticação com futilidade.

A série simplesmente usa o charme e a lábia para se aproveitar da baixa autoestima feminina e conquistar a mulher com promessas de felicidade, fantasias sofisticadas, romantismo de ocasião e presentes caros. Mas na hora de entendê-la emocionalmente, mostra-se tão útil e profunda quanto uma Cosmopolitan.  Talvez por isso faça tanto sucesso entre as mulheres.


 
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