O câncer de intestino vive um alastramento assustador. Pesquisas internacionais da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que há cerca de 1 milhão de novos casos por ano no mundo. Só no Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), estão previstos 28 mil casos para 2010. Isso coloca a doença na terceira posição em manifestações cancerígenas, ultrapassando a incidência de tumores no pulmão (veja mais dados no quadro).
Segundo o oncologista André Murad, coordenador do Serviço de Oncologia do Hospital das Clínicas da UFMG, do Centro de Oncologia do Hospital Lifecenter e do Centro Avançado de Tratamento Oncológico (Cenatron), a proliferação desse tipo de tumor se deve ao processo de industrialização. “Os principais fatores de risco estão relacionados à dieta industrializada, rica em carne vermelha, gordura animal e pobre em frutas, vegetais e cereais, e ao uso de bebidas alcoólicas e cigarro, além de incluir pouca ou nenhuma atividade física.” O histórico familiar também favorece o surgimento da doença, pois, de acordo com Murad, 15% dos casos são transmitidos por via genética. O oncologista também alerta que mais de 90% dos pacientes apresenta o diagnóstico com idade superior a 50 anos.
A maioria dos tumores começa com o surgimento de pólipos, formações no revestimento interno do intestino grosso, que podem se tornar cancerosos e chamados, então, de adenocarcinomas. Nesse caso, os sintomas mais frequentes incluem prisão de ventre, diarreia, cólicas abdominais, dores durante a evacuação, flatulência, náusea, sangramento anal e anemia. Um dos principais exames na fase pré-cancerosa consiste na pesquisa de sangue oculto nas fezes. Estudos demonstram que a prática desse procedimento reduz em até 33% a mortalidade por câncer intestinal. Na sequência o toque retal identifica 15% dos casos, especialmente tumores na borda do ânus e do reto. Ambos são indicados anualmente para todos os sexos a partir dos 45 anos.
O exame de colonoscopia, por sua vez, permite visualizar todo o interior do cólon. Para isso, utiliza-se um tubo flexível de aproximadamente de 1 m de comprimento e 1 cm de diâmetro com uma minicâmera de TV na extremidade final. Com a mesma técnica, pode-se colher lesões suspeitas para biópsia e retirar lesões pré-malignas. Murad informa que, na última década, surgiram alguns métodos mais modernos e menos invasivos. “A colonoscopia virtual, por tomografia computadorizada ou por ressonância magnética, produz imagens tridimensionais do cólon, tornando possível a avaliação da mucosa intestinal sem a introdução do endoscópio.” Outra novidade, em breve disponível, é a pesquisa de DNA de células tumorais ou precursoras de tumores intestinais nas fezes. Porém, ambas não substituem a colonoscopia tradicional, uma vez detectada a suspeita de tumor, pois não permitem retirar biópsias nem remover lesões.
Quando detectado precocemente, o câncer de intestino tem grandes chances de cura, na maioria das vezes com intervenção cirúrgica. “A cirurgia consiste na retirada do tumor juntamente com parte do cólon ou reto e os nodos linfonáticos adjacentes”, diz Murad. Em tumores da porção baixa do reto, pode ser necessário a colostomia, procedimento cirúrgico de exteriorização do cólon na parede abdominal, possibilitando um novo trajeto para a saída do material fecal – o paciente passa a utilizar uma bolsa especial para coletar as fezes. Ainda em termos cirúrgicos, o avanço mais significativo dos últimos anos é a cirurgia videolaparoscópica. Segundo Murad, “ela é realizada por meio de pequenos orifícios na parede abdominal com o auxílio de câmera de vídeo e outros instrumentos, com recuperação mais rápida e menos dor”.
Como o câncer de cólon frequentemente provoca o surgimento de metástases, o tratamento costuma ser complementado por quimioterapia e radioterapia. No caso específico do câncer de reto, localizado mais próximo ao ânus, o grande avanço é a possibilidade de utilizar a radioterapia e a quimioterapia antes da cirurgia, reduzindo o tamanho do tumor. “Com isso, conseguimos preservar o esfíncter anal e eliminar a necessidade da realização da colostomia definitiva”, diz Murad. Ressalte-se que radioterapia moderna é realizada com aparelhos ultrassofisticados em técnicas de três dimensões.
Outro grande avanço de agentes anticâncer são as drogas biológico-moleculares, também chamadas de drogas inteligentes. Elas têm efeito destrutivo exclusivamente nas células malignas, poupando as saudáveis, diferente da quimioterapia convencional. “São drogas com excelente perfil de tolerância e baixo índice de efeitos adversos”, descreve. No caso específico do câncer de intestino, estão disponíveis duas drogas: bevacizumabe e cetuximabe. O primeiro bloqueia o fator de crescimento vascular ao redor do tumor, responsável por sua manutenção; o segundo inibe a ligação de fatores de crescimento epitelial, que estimulam o aumento dos tumores.