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CapaIsso sempre acontece comigoJovens abaixo de 30 anos convivem cada vez mais com a disfunção erétil. O primeiro passo é descobrir se o problema é orgânico ou de causa psicogênica
Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Nélio Rodrigues
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Calmamente, ela se deitou ao lado de Jorge, acariciou-o e tentou não pressioná-lo. Ele não disse nada, mas parecia constrangido. Ficaram juntos durante várias horas naquele dia e trocaram muitas carícias. Ele, inclusive, chegou ao orgasmo três vezes apenas com o toque das mãos dela. Na hora de consumar a relação, porém, todas as tentativas fracassaram. Jorge se levantou, disse que estava se sentindo mal e foi embora. Flávia ficou frustrada e sem entender o que havia acontecido. Afinal, Jorge parecia tão interessado quanto ela e um detalhe chamava ainda mais sua atenção: ele tinha apenas 27 anos. O que pode ter dado errado naquele dia? Vamos desdobrar um pouco mais esta história. Publicitária, Flávia é uma mulher bonita, tem 33 anos, mora sozinha e é bem-sucedida profissionalmente. Jorge é professor universitário e, atualmente, faz doutorado. Ele pratica esportes regularmente, tem um corpo bem definido e costuma despertar a atenção das mulheres. Mesmo com todos estes atributos, porém, esta não foi a primeira vez que Jorge passou por esse tipo de situação. O problema surgiu há cinco anos e ele confessa que, desde então, já deixou de sair com várias mulheres por medo de falhar na hora H. Jorge alega que ainda não procurou a ajuda de um especialista por falta de tempo. Aliás, ele acredita que o estresse do dia a dia é a grande causa desse problema, uma vez que ele não consegue se desligar de seus compromissos nem mesmo nessas horas. “Tenho ejaculação normal. Acho que é mais psicológico, porque acabo levando outras preocupações para a cama.” |
“Todas as vezes que ficávamos juntos, notava que o pênis dele não ficava totalmente ereto e nem sempre conseguíamos ir até o final. Com o tempo, fiquei chateada com aquela situação e com a falta de atitude dele. Acabamos nos separando” Flávia continuou amiga de Jorge, mas eles nunca mais falaram sobre o assunto. A publicitária conta que viveu situação semelhante pouco tempo depois com um rapaz de 25 anos. “Todas as vezes que ficávamos juntos, notava que o pênis dele não ficava totalmente ereto e nem sempre conseguíamos ir até o final. Ele sempre dava uma desculpa, mas nunca admitiu que havia algo errado. Eu era compreensiva, tentava não deixá-lo constrangido e estimulá-lo de outras formas. Às vezes funcionava, mas com o tempo, fiquei chateada com aquela situação e com a falta de atitude dele. Acabamos nos separando”, relata. A funcionária pública A.C., 27 anos, também vivenciou episódio parecido com um jovem de 26 anos com quem estava saindo há várias semanas. Ela relata que demorou a ceder às investidas do rapaz. Como estava há um ano sem fazer sexo, quando se sentiu mais à vontade, aceitou o convite para passar um fim de semana com ele. “Tentamos algumas vezes, mas na hora ele não conseguia manter a ereção. Cheguei a perguntar se havia algo errado, mas ele desconversou. Nunca mais me chamou para sair e eu também não o procurei de novo.” Histórias como essas estão se tornando cada vez mais comuns e retratam um problema que tem afetado jovens que mal saíram da adolescência e cujos hormônios ainda estão fervilhando. Trata-se da disfunção erétil (DE), termo usado para designar a incapacidade de sustentar uma ereção capaz de promover a penetração vaginal durante um relacionamento sexual. É necessário, porém, que se faça uma distinção entre disfunção erétil e impotência sexual. “Usamos a expressão disfunção erétil mais para quadros passageiros, e impotência quando se trata de um quadro crônico que, muitas vezes, está associado a problemas orgânicos”, esclarece a psicóloga Cassandra Pereira França, autora dos livros Ejaculação precoce e disfunção erétil: uma abordagem psicanalítica e Disfunções sexuais. |
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DOENÇAS QUE PODEM ESTAR ASSOCIADAS
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Existem dois tipos principais de disfunção erétil: a de causa orgânica e a de causa psicogênica. A explicação é do urologista Bruno Mello Santos. “A DE provocada por fator orgânico tem como agentes mais comuns a hipertensão, 8 Mas o que explica o aumento do número de casos de disfunção erétil entre homens com menos de 30 anos? Especialistas em sexualidade humana ainda não chegaram a um consenso se o que houve foi um avanço da discussão sobre o tema desde que as famosas pílulas azuis começaram a ser vendidas ou se este crescimento é fruto do estresse da vida moderna somado a hábitos de vida como o sedentarismo, tabagismo, alcoolismo e o consumo de drogas. O que se percebe é que, entre jovens adultos, a disfunção erétil é, quase sempre, desencadeada por algum problema de ordem psíquica. “A forma como eles lidam com a sexualidade expressada pela mulher de hoje é outra questão que pode ajudar a entender o fenômeno”, defende o psicólogo Flávio Mesquita, especialista em terapia-cognitiva comportamental. “Nem sempre é fácil para o homem lidar com a emancipação sexual da mulher. Vivemos em uma cultura de forjas machistas e, quando o homem se depara com uma parceira que clama pelos mesmos ideais e se mostra ativamente engajada em conquistar e contabilizar parceiros, muitas vezes ele se sente inseguro, o que pode acabar levando a uma disfunção sexual”, argumenta Mesquita. Comunidades sobre o tema em sites de relacionamento como o Orkut reforçam a tese de que a disfunção erétil não é mais uma preocupação de quem já passou dos 50. Nelas, homens de todas as idades trocam informações sobre tratamentos, relatam suas experiências e buscam auxílio com quem já passou pela mesma situação. Grande parte usa perfil falso para preservar a identidade – afinal, este não é um assunto que costuma ser exposto nas rodinhas de amigos. Na comunidade Disfunção Erétil – Impotência há um tópico para que os membros revelem a idade. O resultado é espantoso: a maioria tem entre 16 e 26 anos. Nessa comunidade, que possui 270 integrantes, está um comerciante de 22 anos, morador de Fortaleza, que sofre de disfunção erétil. Sob o pseudônimo de Gato Anônimo, ele concordou em dar entrevista. Disse que chegou a se consultar com um urologista, que afirmou que seu problema é psicológico e o encaminhou a um terapeuta. Ele não quis fazer o tratamento. “Não acho que isso vai me ajudar”, desabafou. “Nem sempre é fácil para o homem lidar com a emancipação da mulher. Quando o homem se depara com uma parceira que clama pelos mesmos ideais, ele se sente inseguro” |
Há um ano, Gato Anônimo ficou noivo, mas não tem coragem de contar para a parceira sobre o problema. Para evitar que a noiva descubra seu segredo, o jovem começou a tomar um vasodilatador que aumenta o calibre dos vasos sanguíneos e, consequentemente, a circulação, permitindo a ereção. Ele admitiu que a compra do medicamento é feita de forma irregular, sem receita médica, pela internet. Afirmou que tem medo de possíveis efeitos colaterais no futuro, mas que seria muito pior se alguém descobrisse o que se passa com ele. “É muita humilhação”, lamentou. “O sujeito cria um vício de estar sempre amparado pela ideia de que não irá falhar pelo uso do remédio. Quando ele não estiver usando, poderá ser acometido pela ideia de que agora está vulnerável, o que pode desencadear uma perda de ereção” Fazer uso indiscriminado desse tipo de medicamento, entretanto, pode ser prejudicial, tanto sob um critério metabólico, quanto psicológico. O alerta é do psicólogo Flávio Mesquita. “O sujeito cria um vício de estar sempre amparado pela ideia de que não irá falhar e que seu desempenho está garantido pelo uso do remédio. Quando ele não estiver usando, poderá ser acometido pela ideia de que agora está vulnerável, o que, por si só, poderá desencadear de fato uma perda de ereção.” A disfunção erétil costuma provocar sentimentos de frustração, baixa autoestima e depressão. Quem sofre do problema muitas vezes é acometido por um bombardeio de pensamentos negativos a respeito de sua própria competência antes e durante o ato sexual. “Isso aumenta o nível de ansiedade, desencadeando uma gama de respostas somáticas, retroalimentando sua crença na incapacidade de manter a penetração. Assim, quanto mais ele teme o fracasso, maior a probabilidade de que este aconteça”, esclarece Mesquita. Muitas vezes, nem mesmo o uso de remédios é suficiente para promover a ereção quando a disfunção é de ordem psíquica. É o que assegura Rosemara Fernandes Rainho, psicóloga especializada em sexualidade humana. “A causa psicológica gera insegurança, a insegurança gera impotência e a impotência gera a disfunção. Vira um ciclo vicioso que, sem tratamento psicológico, sem apoio da parceira, sem estímulos para atividade sexual, não tem remédio que funcione.” Há vários estudos que identificam a incidência da disfunção erétil, mas poucos abrangem jovens abaixo dos 40 anos. Exemplo disso é uma pesquisa brasileira feita com quase mil homens entre 40 e 90 anos que identificou disfunção erétil em 53,9% deles, sendo leve em 21%, moderada em 14% e grave em 12%, com aumento da incidência proporcional ao aumento da faixa etária, informa o urologista Bruno Mello Santos. Na avaliação do presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Inadequação Sexual (Abeis), o urologista Paulo Roberto de Brito Cunha, a frequência maior da disfunção erétil entre jovens deve-se à “adoção de hábitos inadequados de vida ditados pelos prazeres da boca e pelo sedentarismo”. Segundo ele, quando esses hábitos se somam ao tabagismo, o quadro fica ainda pior. O tratamento da disfunção erétil inicia com a investigação de uma possível causa orgânica e uma avaliação hormonal. Ao se constatar normalidade de todos esses parâmetros, e, portanto, se pensar em causa psicogênica, orienta-se o paciente que do ponto de vista orgânico tudo está normal. “Só essa etapa já é capaz de devolver a normalidade da ereção a uma boa parcela de jovens. Os que não respondem necessitam tratamento com terapeuta sexual e equipe multidisciplinar”, pontua o urologista Bruno Mello Santos. Falhar numa relação sexual de vez em quando é comum. Dizem até que há dois tipos de homens: os que já falharam e os que ainda vão falhar. Quando, porém, se torna necessário procurar o auxílio de um especialista? Quem responde é o urologista Paulo Roberto de Brito Cunha. “Podemos dizer de modo informal que, quando pela primeira vez, você não consegue dar a terceira, não existe motivo para preocupações. Agora, quando pela terceira vez, você não consegue dar a primeira, é preocupante. Meu conselho: procure sempre o auxílio de um profissional experiente quando não estiver satisfeito com sua sexualidade.” FICHA TÉCNICA
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